quarta-feira, 23 de outubro de 2024

Coober Pedy e o futuro de Goiás [Ecologia].

 



 

Sala-de-estar em Coober Pedy, Austrália. Fonte: Coober Pedy Experience (2024).

 

Como estará Goiás, no meio do Brasil Central, até 2100? Infelizmente, considerando todas as previsões cada vez mais factíveis sobre o futuro (ver revisões posteriores), não tenho muita esperança de que as futuras gerações em meu estado terão uma vida razoavelmente confortável. Muito pelo contrário... E não parecem haver mudanças significativas, a começar pela mentalidade de um povo que insiste em pautas medievais ao invés de defender massivamente o plantio de árvores, combater o desmatamento e evitar poluições ou consumos excessivos, em um tempo onde tudo o que puder ser feito amenizará uma situação catastrófica futura e globalmente irreversível.

Aqui reflito sobre meu estado daqui a 76 anos no futuro. Notoriamente – e basta olhar a paisagem ao redor de quaisquer rodovias goianas pela janela do carro em uma viagem - nestas últimas décadas os latifúndios deixaram Goiás mais devastado, quente e seco. E lamento como a maioria das pessoas, sobretudo as mais pobres e que já estão sendo afetadas, permanecem apáticas e sequer questionam como seus descendentes viverão em um estado de latitude tropical nestas situações extremas.

No futuro, quando Goiás chegar a um estágio similar ao de um deserto, talvez seus municípios comecem a seguir o exemplo de uma cidade cuja maioria dos habitantes vive em túneis subterrâneos. Seu nome é Coober Pedy, localizada ao sul da Austrália, e atualmente com 3000 habitantes (Wikipédia 2023). Um município fundado por garimpeiros no início do século XX, em busca de opalas. O forte calor do clima árido australiano fez com que a maioria das pessoas estabelecessem moradias no interior de galerias subterrâneas (BBC News Brasil 2016). Existem em Coober Pedy residências, templos religiosos, e até hospedagens debaixo da terra, protegidas em um ambiente cuja temperatura pode elevar muito na superfície, sobretudo no verão (Coober Pedy Experience 2024).

Coober Pedy é uma cidade no interior da Austrália, com um povo resiliente que se ajustou a condições naturais de aridez. No futuro, muitas gerações goianas talvez devam se ajustar a condições de deserto, mas ao contrário do povo em Coober Pedy, ficará a lembrança de que a seca não teve origem natural, mas foi provocada pela imprudência de seus ancestrais em um passado não tão distante.

Referências:

BBC News Brasil. A surpreendente cidade australiana onde os habitantes vivem embaixo da terra. 2016. Disponível em: < https://www.bbc.com/portuguese/geral-38440888 > . Acesso em: 23-10-2024.

Coober Pedy Experience. 2024. Disponível em: < https://www.cooberpedyexperience.com.au/ > . Acesso em: 23-10-2024.

Wikipédia: a enciclopédia livre. Coober Pedy. Disponível em: < https://pt.wikipedia.org/wiki/Coober_Pedy > . Acesso em: 23-10-2024.


Dr. Daniel Blamires. Docente UEG-Iporá.


sexta-feira, 18 de outubro de 2024

Evolução no Quadro [Evolução Orgânica].


 

 


Capa de Blamires (2024).

 

E voltando ao que ouvi do meu orientador, que por sua vez ouviu do seu orientador... “Se a gente não citar a gente, quem vai citar?...” Então vamos para outra citação.

Escrevi este meu terceiro livreto, similar ao anterior de Ecologia (Blamires 2023), basicamente para ajudar os alunos na compreensão de cinco temas em biologia evolutiva. Trata-se de uma simples revisão bibliográfica. Há algum tempo tenho me esforçado para esclarecer biologia evolutiva tanto para meus alunos, quanto ao público leigo para os quais, no futuro, eles ensinarão em salas-de-aula. Nos tempos da pandemia, publiquei um artigo com esta mesma intenção (Blamires 2022). Futuramente, e na medida do tempo e dos recursos, farei algum esforço de publicar mais estes textos. Cheguei a criar uma palavra-chave para esta linha de divulgação: “evolução e cotidiano”, para expor o pensamento evolucionista demonstrando que, na verdade, seus fundamentos estão muito mais próximos à rotina da humanidade, do que restritos aos meios acadêmicos.

Também vale ressaltar que, recentemente, a Academia Brasileira de Ciências lançou a obra “A Evolução é Fato (Menck 2024)”. Um icônico livro divulgador da biologia evolutiva, que não citei neste meu texto simplesmente porque mandei meu manuscrito para diagramação algumas semanas antes da publicação em ABC. De qualquer modo, considero o acesso a este título da Academia Brasileira de Ciências indispensável a todos os estudantes e profissionais brasileiros de biologia.

E assim, estimados alunos, divulgar evolução é importante, como também ressalto no prefácio do livro. Só gostaria de encerrar novamente com a famosa frase de Dobzhansky (1973):

 

“Nothing in biology makes sense except in the light of evolution.”

 

“Nada na biologia faz sentido exceto à luz da evolução. ” Abraços a todos!

 

Referências.

Blamires, D. A luz da evolução nas ciências biomédicas: biologia evolutiva, pandemias, e o legado de três cientistas para a humanidade. Brazilian Journal of Development, v. 8, n. 3, p. 17832-17840, 2022a.

Blamires, D. Ecologia no quadro: temas ecológicos com figuras manuscritas. [Livro Eletrônico]. São José dos Pinhais: Brazilian Journals, 2023. DOI: 10.35587/brj.ed.0002193

Blamires, D. Evolução no quadro: temas evolutivos com figuras manuscritas. [Livro Eletrônico]. São José dos Pinhais: Brazilian Journals, 2024. Disponível em: < https://www.brazilianjournals.com.br/ebooks.php?bk=88ywZ0239D60dv54PGKIqYCx081eosJQ > . Acesso em: 18-10-2024.

Dobzansky, T. Nothing in biology makes sense except in the light of evolution. The American Biology Teacher, v. 35, n. 3, p. 125-129, 1973.

Menck, C. F. M. (Org.). A evolução é fato. Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Ciências, 2024. Disponível em: < https://www.abc.org.br/wp-content/uploads/2024/09/ABC_Evolucao_redux.pdf > . Acesso em: 18-10-2024.


Dr. Daniel Blamires. Docente UEG-Iporá.


segunda-feira, 7 de outubro de 2024

O modelo de nicho segundo Hutchinson [Ecologia].

 

 

 

 


Capa de Pianka (1994).

 

Certa vez, nos tempos de doutorado, meu professor Divino Brandão – uma das minhas maiores referências – conceituou em aula nicho ecológico como “...Todas as formas pelas quais se explora um recurso”. Participei desta aula há cerca de 21 anos atrás, e achei o conceito bastante sintético e claro. Fiz o seguinte ajuste a esta concepção:

 

“Nicho ecológico é o conjunto de todas as formas pelas quais os indivíduos de uma espécie exploram os recursos do ambiente. ”

 

Ao iníciar este tema em sala, sempre comparo os conceitos de nicho da literatura ecológica clássica, mas encerro com a concepção supracitada. Mas afinal, porque “...Todas as formas? ”

Apesar de vários outros autores empregarem previamente a expressão ecológica “nicho” (ver revisão em Pianka 1994), esta questão foi respondida pelo brilhante ecólogo britânico/estadunidense George Evelyn Hutchinson, com pragmatismo e arte: uma história fascinante, detalhada em Fernandez (2005). Em dois textos clássicos (Hutchinson 1957, 1959), a ideia de nicho ecológico foi matematizada no que hoje denominamos modelo de hipervolume, multidimensional, ou simplesmente nicho hutchinsoniano.

Nas aulas, apresento as versões do modelo de hipervolume segundo a descrição em Pianka (1994) e Begon et al. (2007), sempre ressaltando minha opinião de que a primeira é melhor por explicar mais detalhadamente. Então, nesta postagem priorizarei a versão de Pianka (1994). Fugindo um pouco do assunto e voltando ao passado (coisa que gosto muito de fazer), sou muito grato a este livro (vide primeira imagem) por sua clareza e pragmatismo, duas características extremamente importantes no tempo que estudei para a seleção de mestrado.

Assim, o modelo de nicho segundo Hutchinson é explicado conforme a sequência adiante. Todas as figuras a seguir, manuscritas ou produzidas no computador, são de minha autoria, sendo projetadas em sala-de-aula até hoje.


a). O detalhamento na taxa de uso dos recursos entre espécies competidoras numa comunidade costuma resultar em múltiplas curvas, que juntas se aproximam da distribuição normal (Figura 1).

 

 


Figura 1. Relação gradiente do recurso e taxa de consumo do recurso, para várias espécies competidoras em uma comunidade.


b). A nível de “unidade de organismos (populações, espécies, etc.)”, a adição de uma nova variável (gradiente) ambiental, resulta em uma distribuição tridimensional dos valores adaptativos (aptidão, W, Figura 2).

 

 


Figura 2. Relação variáveis ambientais e valor adaptativo (W).  

 

c). A adição de três ou mais variáveis ambientais leva a uma distribuição multidimensional de aptidão (Figura 3).

 

 


Figura 3. Relação entre três variáveis ambientais e valor adaptativo (W). 


Certa vez, o professor Ole Peter Smith, doutor em matemática pela Universidade de Copenhagen, meu colega nos primeiros anos de UEG-Iporá e outra referência, disse que a distribuição multidimensional apresentada na gravura acima tinha um aspecto figurativo. Importante frisar que copiei esta gravura conforme Pianka (1994, Figura 13.3). Mas voltando a Hutchinson, ele concluiu que o nicho de uma unidade de organismos é um “hipervolume n-dimensional”, com todas as condições que esta pode tolerar. É por isso que atualmente prevalece o conceito de nicho como “...todas as formas de explorar os recursos...” em ambientes multivariáveis.

Esta visão matematizada, simples e elegante de George E. Hutchinson foi importante para compreender melhor a teoria de nicho ecológico. Também foi imprescindível para colocar toda a ecologia no pedestal da ciência contemporânea.

 

Referências.

Begon, M., Townsend, C.R., Harper, J.L. Ecologia: de indivíduos a ecossistemas. Porto Alegre: Editora Artmed, 2007.

Fernandez, F. O poema imperfeito: crônicas de biologia, conservação da natureza, e seus heróis. Curitiba: Editora da UFPR, 2005.

Hutchinson, G. E. 1957. Concluding remarks. Cold Spring Harbour Symposium on Quantitative Biology, 22: 415-427, 1957.

Hutchinson, G. E. Homage to Santa Rosalia, or why are there so many kinds of animals? American Naturalist 93: 145-159, 1959.

Pianka, E. R. Evolutionary Ecology, fifth edition. New York: HarperCollins College Publishers, 1994.


Dr. Daniel Blamires. Docente UEG-Iporá.


Juntos pela biosfera. [Biologia da Conservação].

      Provavelmente Campo Cerrado. Senador Canedo-GO, março 1995. Foto do autor.   “I can hear the whole world singing together ...