terça-feira, 27 de maio de 2025

Pirâmide e Trapézio: ensaio sobre economia. [DCDH].

 

 



 

Noções de Economia no Quadro. Aula de Diversidade, Cidadania e Direitos Humanos (DCDH). Foto do Autor, 14-05-2025.

 

Como prescrevi, já leciono a disciplina de DCDH a alguns anos. E como sempre repito aos alunos durante aula, para avaliarmos algo, ou ao menos pensar em medidas de mitigação em qualquer tema, é preciso: a). analisar o contexto pelo qual os fatos aconteceram (sempre os fatos); b). Buscar os fundamentos do problema.

Com relação aos fundamentos, se por exemplo abordarmos desigualdades sociais, é necessário checar previamente as noções básicas de economia. Isto porque, segundo Aguena (2025), as causas mais comuns da desigualdade social são econômicas, devido à sua facilidade de identificação, porque podem medir os avanços nas desigualdades.

Mas afinal, o que é economia?  É a ciência que analisa e estuda os mecanismos de obtenção, produção, consumo e uso dos bens materiais necessários à sobrevivência e bem-estar (https://www.dicio.com.br/economia/). Os fundamentos deste tema seguem conforme Primack & Rodrigues (2002). A economia centra-se basicamente em duas variáveis: custos e benefícios. Quando custos ou benefícios ocorrem para os indivíduos que não estão diretamente envolvidos com a troca, tem-se uma relação assimétrica, denominada externalidade. Quando existem externalidades, o mercado não consegue oferecer soluções para que uma sociedade prospere. A consequência das externalidades é a falha de mercado, ou alocação de recursos errada, que favorece algumas pessoas às custas da sociedade.

E lamentavelmente... Quando, em uma sociedade, certas classes apenas se sustentam a partir das outras, temos um sistema comumente denominado “cleptocracia”, literalmente “estado governado por ladrões (https://www.dicio.com.br/cleptocracia/)”. Queridos alunos, na condição de latino-americanos conhecemos bem este assunto, então podemos prosseguir. Mas como sugestão de leitura, sugiro ler Diamond (2005) sobre como, por exemplo, surgiram no passado as monarquias teocráticas que dominaram o mundo civilizado durante milênios.

Agora, segue minha opinião sobre a relação custo-benefício nas classes sociais. Algo que já venho esboçando alguns anos, e que esquematizei recentemente no quadro (ver imagem acima). É provável que muitas correções ou complementos sejam necessários, mas penso que uma sociedade em falha de mercado tem uma relação custo-benefício piramidal: de volta aos meus rabiscos (Figura 1).

 



Figura 1. Relação custo-benefício em pirâmide, com ponto ótimo ao centro (b).

 

O resultado de muitas externalidades é uma relação custo-benefício onde o topo da pirâmide, uma minoria, chega ao nível máximo de benefício (B=1.0) a poucos custos. Por outro lado, quanto mais abaixo, maiores são os custos, que crescem para ambos os lados: notem que o lado esquerdo da variável custo segue em módulo, ou C= |1.0|. Na base da pirâmide está uma maioria que chega a arcar com os mais extremos custos sociais, sem nenhum benefício (B= 0.0).

Em suma, temos uma distopia. O ponto “b”, de interseção entre custo (C) e benefício (B) (Figura 1), seria uma utopia, com C=0.0 e B=0.5,  uma situação onde toda uma sociedade não teria custos, e exatamente a mesma proporção de benefícios. Notem a interrogação em “b”: a utopia funcionaria em populações (N) pequenas? Considerar o tamanho populacional seria caso para outro estudo. Mas ao pensar no “N” lembrei-me de Diamond (2007), sobre países com mais desenvolvimento humano serem normalmente pequenos e pouco populosos, sendo o contrário para países com dimensões continentais e grandes populações.

Segundo Aguena (2025), eliminar completamente a desigualdade social é difícil, porque não é simples garantir que todos tenham a mesma quantidade de recursos. Por isso, denominei o ponto ótimo “utopia”. Assim, talvez sempre haja desigualdade social, sendo improvável cada membro de uma sociedade ter exatamente os mesmos benefícios.

Então, qual seria a melhor alternativa? Minha sugestão segue na Figura 2:

 



 

Figura 2. Relação custo-benefício em trapézio. Detalhe do ponto ótimo (b=utopia) ao centro.

 

Em uma distribuição de renda tipo “trapézio”, as classes mais abastadas possuem menos benefício, e custo pouco menor em relação às classes mais baixas, e ninguém atinge o nível máximo de benefícios (B= 1.0). Aristocracias com menos benefícios e mais custos favorecem a redução do custo nas classes mais baixas. Da mesma forma, ninguém atinge os extremos de custo (C= 1.0, ver Figura 2).

Em suma, o segredo para quaisquer sociedades avançarem socioeconomicamente talvez seja uma distribuição mais equitativa de renda, onde cada uma de suas classes tenham benefícios a custos razoáveis. Teoricamente, a medida mais simples para erradicar a milenar economia de pirâmide.

 

Referências.

Aguena, A. O que é Desigualdade Social: causas, consequências e exemplos. Toda Matéria. 2025. Disponível em: < https://www.todamateria.com.br/desigualdade-social/. >. Acesso em: 26-05-2025.

Diamond, J. Armas, germes e aço: os destinos das sociedades humanas (7ª ed.). Rio de Janeiro-São Paulo: Editora Record, 2005.

Diamond, J. Colapso: como as sociedades escolhem o fracasso ou o sucesso. Rio de Janeiro: Editora Record, 2007.

Primack, R. B., Rodrigues, E. Biologia da conservação. Londrina: Editora Midiograf, 2002.


Daniel Blamires. Doutor Ciências Ambientais. Docente UEG-Iporá.

 

domingo, 25 de maio de 2025

Biofilia, conflito de conservação e a Festa de Maio [Biologia da Conservação].





 Exposição de réplicas animais em barraca. Festa de Maio, 24-05-2025. Foto do Autor.

 

Segundo Wilson (1989, 2002), hipótese da biofilia é a tendência inata para afiliação emocional de seres humanos a outros seres vivos; inato significa hereditário, sendo assim algo intrínseco à natureza da nossa espécie. Este princípio pode ser importante para justificar várias atividades que perfazem o cotidiano humano, sendo constatado na medicina, turismo e educação ambiental (G1 2017, Moretto 2022, Mask 2025, Ugreen 2025).

Entretanto, Balmford et al. (2002) levantou a premissa de haver uma tendência das crianças preferirem mais “espécies sintéticas”, divulgadas pela mídia, do que as que de fato existem no mundo natural. Um significativo “conflito de conservação”, ou o desacordo entre humanos e outras espécies no âmbito conservacionista (Redpath et al. 2013).

Neste contexto, sempre levantei a hipótese de haver um grande conflito de conservação similar no Brasil Central, cujos moradores parecem apreciar muito mais uma fauna estilizada, que mistura animais exóticos das atividades agropastoris com espécies do hemisfério norte, África e oriente tropical. Esta visão, contudo, parece estar mudando aos poucos.

E nesta última festa de maio em Iporá, fiquei muito satisfeito ao entrar em uma das barracas do evento com minha família, e apreciar uma exposição de réplicas animais para jardins com vários representantes de nossa fauna nacional, muitos dos quais comuns no Cerrado brasileiro (Figura 1). Ainda existem remanescentes exóticos, mas a maioria dos exemplares são aves que perfazem nosso cotidiano, entre outras espécies da fauna nativa brasileira.

 

 



Figura 1. Detalhe da exposição de réplicas animais em barraca na Festa de Maio. Fonte: Autor, 24-05-2025.

 

Nesta noite, também vimos muitos enfeites pitorescos com capivaras, e aparentemente menos de leões ou tigres, por exemplo. Em tempos de agronegócio avançando implacavelmente sobre as paisagens nativas, perceber que as pessoas aos poucos estão voltando mais para sua fauna autóctone me traz esperança de ainda ser possível propor medidas mitigadoras, que conciliem a conservação com as necessidades socioeconômicas.

Parabéns a todos os profissionais de educação ambiental no coração do Brasil!

 

Referências

Balmford, A., Clegg, L., Coulson, T., Taylor, J. 2002. Why conservationists should heed Pokemom: Science 295 (5564): 2367.

G1 Zona da Mata. Organizações oferecem tratamento a dependentes de álcool e drogas em Juiz de Fora e região. 2017. Disponível em: < https://g1.globo.com/mg/zona-da-mata/noticia/organizacoes-oferecem-tratamento-a-dependentes-de-alcool-e-drogas-em-juiz-de-fora-e-regiao.ghtml > . Acesso em: 25-05-2025.

Mask Viagens. 8 dicas para ensinar as crianças sobre sustentabilidade. 2025. Disponível em: < https://www.maskviagens.com.br/8-dicas-para-ensinar-as-criancas-sobre-sustentabilidade/ > . Acesso em: 25-05-2025.

Moretto, J. “Cheiro de natureza” ajuda a prevenir estresse e câncer, diz estudo. Jornal Ciência. 2022. Disponível em: < https://www.jornalciencia.com/cheiro-de-natureza-ajuda-a-prevenir-estresse-e-cancer-diz-estudo/ > . Acesso em: 25-05-2025.

Redpath, S. M., Young, J., Evely, A., Adams, W. M., Sutherland, W. J. Whitehouse, A., Amar, A., Lambert, R. A., Linnell, J. D. C., Watt, A. Gutie´rrez, R.J. Understanding and managing conservation conflicts. Trends in Ecology and Evolution, v. 28, n. 2, p. 100-109, 2013. DOI: http://dx.doi.org/10.1016/j.tree.2012.08.021

Ugreen. Hospitais e a Biofilia: Como a Natureza Pode Ajudar na Cura. 2025. Disponível em: < https://www.ugreen.com.br/hospitais-e-a-biofilia-como-aliada-na-cura/ > . Acesso em: 25-05-2025.

Wilson, E. O. Biofilia. Ciudad de México: Fondo de cultura económica S.A. ,1989.

Wilson, E. O. O Futuro da Vida. Rio de Janeiro: Editora Campus, 2002.


 Daniel Blamires. Doutor Ciências Ambientais. Docente UEG-Iporá.


sábado, 17 de maio de 2025

Uma manhã pela GO-320: sobre persistir com simplicidade. [Orientações].

 


 

Ponte sobre o Ribeirão Santa Marta (confirmar), GO-320. Zona rural sul de Iporá, estado de Goiás. Vídeo do autor: 01-05-2025.

 

“O mundo é como você o vê. ”

José Hidasi.

 

De volta às palavras do naturalista José Hidasi (Wikipédia 2024), sem dúvida um dos meus maiores mentores, como declarei anteriormente (Blamires 2023). Ouvi sua frase espontaneamente na mesa de almoço em sua casa, nos meus tempos de doutorado. Ele gentilmente cedia sua biblioteca, no Museu de Ornitologia de Goiânia/Setor Campinas, para minha compilação de dados. O professor Hidasi me convidava para almoçarmos a refeição preparada por sua esposa Maria, quase sempre conosco à mesa das refeições.

E é isso mesmo, caros orientados! As dificuldades, que sempre existem, diminuem quando contemplamos mais nossos propósitos que a amargura dos problemas. Edward Wilson (Wikipédia 2023), outro grande mentor que conheci apenas por suas obras, também fez outro importante apontamento em sua monumental biografia científica:

 

“(...). A grande maioria das espécies de organismos – provavelmente mais de 90% - continua desconhecida pela ciência. Vivem nalgum lugar por aí, ainda intocadas, à espera de seu Lineu, seu Darwin, seu Pasteur. (...).”

Wilson (1997, p. 358).

 

Atualmente, estou lendo outro livro de Wilson (2015), onde ele também comenta sobre estudos científicos nas áreas mais modestas ambientalmente, como periferias de cidades, e até mesmo abaixo de um toco num bosque. Então, o propósito deste texto é narrar a pequena expedição que fiz por um trecho vicinal na microrregião de Iporá, em busca de alguma futura área para desenvolver pesquisa de campo. Algo que faço rotineiramente há anos.

Neste último feriado 1º de Maio – Dia do Trabalho – sai pela manhã de carro sem rumo, com minha câmera fotográfica. Ao entrar na Avenida Buenos Aires-Vila Brasília, pensei comigo mesmo: que tal conhecer Ivolândia? Então virei à direita, seguindo pela Rodovia vicinal GO-320.

Era uma manhã ensolarada de outono com vegetação ainda verde, afinal as chuvas cessaram a poucas semanas. A paisagem circundante tipicamente goiana, um mosaico com predomínio de culturas agropastoris e fragmentos de vegetação natural, sempre mostrava algo interessante, e por  muitas vezes parei para fazer alguns registros, como o vídeo do Ribeirão acima, com destaque para os cantos de sua assembleia de insetos e aves. Viajei durante muito tempo por uma pista tranquila e de acesso fácil. Na área limítrofe entre os municípios de Iporá e Ivolândia, pude admirar isto (Figura 1):

 




Figura 1. GO-320, entre os municípios de Iporá e Ivolândia. Detalhe para a serra ao fundo.

 

A serra de cor rubra. Uma das mais belas imagens que contemplei na microrregião de Iporá. Lembrei-me de Ward (1997), sobre o sedimento triássico, de coloração similar à superfície de Marte devido à maior das extinções, entre o paleozoico e o mesozóico. Muitas descobertas interessantes poderiam ser feitas nesta serra, visível a partir da malha urbana sul de Iporá, por Geógrafos, Geólogos e Paleontólogos, Zoólogos e Botânicos. Obviamente, um inventário avifaunístico também seria possível, mediante forte apoio logístico.

E pouco depois, entrei na malha urbana de Ivolândia.... Cheguei lá! E como já fiz muitos estudos com aves urbanas, principalmente em Iporá (ver revisão em Blamires 2022), realmente tive muita vontade de fazer algo similar naquela pequena e pacata cidade. Importante ressaltar que um casal de seriemas Cariama cristata (Linnaeus, 1766) rondava tranquilamente pela periferia da cidade, e de dentro do carro consegui registrar uma delas (Figura 2).

 



Figura 2. Seriema Cariama cristata (Linnaeus, 1766). Trevo de Ivolândia-GO.

 

Segui pelo povoado de Missianópolis e malha urbana de Moiporá, até encontrar a GO-060, e então retornar a Iporá passando por Israelândia. Uma típica expedição, onde lembranças e ideias confrontam-se às magníficas paisagens da microrregião de Iporá e arredores. E assim, prezados alunos, persistamos com simplicidade, em busca do que está a nosso alcance, na certeza de que muito ainda está prestes a ser estudado, e finalmente apresentado ao público.


Referências.


Blamires, D. Aves urbanas de Iporá, estado de Goiás. São José dos Pinhais: Brazilian Journals Publicações de períodicos e editora. 2022. Disponível em: < https://www.brazilianjournals.com.br/ebooks.php?bk=4T58q26QuIgz9CVo0eUO28stp2H17M6K > . Acesso em: 17-05-2025.

Blamires, D. Ecologia no quadro: Temas ecológicos com figuras manuscritas. 2023. Disponível em: <  https://www.brazilianjournals.com.br/ebooks.php?bk=1oR5tGXqvKTJmW71Y30Le4604sib4M82 > . Acesso em: 17-05-2025.

Ward, P. O fim da evolução: extinções em massa e a preservação da biodiversidade. Rio de Janeiro: Editora Campus, 1997.

Wikipédia: a enciclopédia livre. Edward Osborne Wilson. 2023. Disponível em: < https://pt.wikipedia.org/wiki/Edward_Osborne_Wilson >. Acesso em: 17-05-2025.

Wikipédia: a enciclopédia livre. José Hidasi. 2024. Disponível em: < https://pt.wikipedia.org/wiki/Jos%C3%A9_Hidasi > . Acesso em: 17-05-2025.

Wilson, E. O. Naturalista. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1997.

Wilson, E. O. Cartas a um jovem cientista. São Paulo: Editora Companhia das Letras, 2015.


Daniel Blamires. Doutor Ciências Ambientais. Docente UEG-Iporá.



terça-feira, 6 de maio de 2025

Coevolução e o Pica-Pau. [Evolução Orgânica].

 




Capa de Ridley (2006). Fonte: Google.

 

A coevolução, ou evolução recíproca entre duas ou mais espécies (Ridley 2006), é um dos tópicos macroevolutivos mais abordados pela ecologia. Isto porque, segundo Ricklefs (2003), é a base dos estudos sobre interações entre populações.

A capa do célebre livro de Ridley (2006), reflete a descoberta de uma interação inseto polinizador-planta que remonta mais de cem anos de estudos. Uma história contada em Cosmic Polymath (2017), e sintetizada a seguir. Este assunto também é suscintamente apresentado na referência principal deste texto (Ridley 2006), e mais detalhado em Home (2013).

 

a). Em Madagascar, um naturalista descobriu a orquídea Angraecum sesquipedale, uma epífita de copa florestal, e envia um espécime a Darwin, no Reino Unido;

b). Em seu escritório residencial no povoado de Down - região metropolitana de Londres - o naturalista britânico Charles Robert Darwin examina a orquídea-de-Madagascar, com sua corola branca e grande nectário. Darwin formula e hipótese que tal orquídea seria polinizada por uma mariposa com probóscide gigante, compatível com seu nectário comprido;

c). Anos após a morte de Darwin, descobriram também, nas florestas da ilha de Madagascar, uma mariposa com proboscide gigante: similar ao polinizador suposto pelo naturalista de Down. A espécie foi descrita como Xanthopan morgani praedicta, e apelidada “mariposa de Darwin”.

d). Em 1992, quase um século após a descoberta da “mariposa de Darwin (Darwin's Moth)”, uma equipe de pesquisadores conseguiu registrar o momento em que X. morgani praedicta poliniza Angraecum sesquipedale.

 

Assim funciona a ciência... E neste contexto, a coevolução é uma das teorias que explicam a evolução deste caso de polinização. As descrições adiante remontam basicamente Ridley (2006).

A adaptação mútua entre duas ou mais espécies é denominada coadaptação; ou quando espécies se adaptam reciprocamente, uma em função da outra. Coadaptação sugere coevolução, mas não pode ser evidência definitiva disso, por quê:

 

a). As linhagens podem estar evoluindo independentemente em resposta ao ambiente, ficando assim mutuamente adaptadas;

b). Para demonstrar a coadaptação, é necessário justificar que as linhagens estão coadaptadas, e também que seus ancestrais evoluíram juntos.

 

Outro mecanismo, a evolução sequencial, é uma alternativa à coevolução e coadaptação. Ocorre quando, por exemplo, uma linhagem evolui em função de outra, mas o contrário não acontece. De qualquer modo, co-filogenias são duas filogenias com padrão similar de ramificação (Figura 1).

 



 

Figura 1. Ilustração esquemática de co-filogenias. Fonte: autor.

 

Em geral, são apontadas três explicações para as co-filogenias:

 

a). Coevolução: os dois taxa evoluíram reciprocamente, um em resposta ao outro;

b). Evolução sequencial: as mudanças em um taxa alteraram o outro, mas o contrário não aconteceu;

c). Co-especiação sem coevolução. Quando dois taxa não tem influência mútua, mas algum fator extrínseco (ambiental, por exemplo) leva à especiação.

 

Voltando a um aspecto frequentemente apontado nas aulas... A natureza normalmente é multidimensional, e raramente pode ser avaliada por simples modelos cartesianos. Então segue a concepção de coevolução difusa, ou quando uma linhagem coevolui com várias outras. Embora tenha difícil compreensão, a coevolução difusa provavelmente é o principal mecanismo coevolutivo nas comunidades.

Outro importante aspecto, normalmente constatado na coevolução predador-presa, é a corrida armamentista (arms race). A premissa de que, à medida que predadores se tornam mais propensos à predação, suas presas são selecionadas para evitá-los com maior eficácia.

A corrida armamentista leva ao que inicialmente pode ser concebido como “escalada evolutiva”, ou o princípio que, à medida que os predadores foram desenvolvendo “armas” mais sofisticadas, suas presas desenvolveram “defesas” mais eficazes ao longo do tempo. Vale ressaltar, neste contexto, que ambas linhagens em coevolução neutralizam seus efeitos, não havendo assim progresso de uma em relação a outra.

Minha geração e a de vocês cresceram assistindo os desenhos do Pica-Pau, por exemplo seu duelo com o "Nanico Bufador", o pequeno bandido ruivo do oeste selvagem (https://www.youtube.com/watch?v=cDqPz9GbQlE). O duelo na rua principal do povoado, com armas cada vez maiores à medida que os adversários se aproximam, segue a mesma dinâmica da corrida armamentista, ainda que seja apenas uma fantasia muito engraçada do seu autor. Tipo assim... Quando a arte, involuntariamente, imita um padrão da natureza.

 

Referências.

Cosmic Polymath. Madagascar Star Orchid and Hawk Moth. Disponível em: < https://www.youtube.com/watch?v=Q8GdkMBluis > . Acesso em: 06-05-2025.

Home, D. Línguas de mariposa, orquídeas e Darwin – o poder preditivo da evolução. The Guardian. 2013. Disponível em: < https://www.theguardian.com/science/lost-worlds/2013/oct/02/moth-tongues-orchids-darwin-evolution > . Acesso em: 06-05-2025.

Ricklefs, R. E. A economia da natureza (5ª Ed.). Rio de Janeiro: Editora Guanabara-Koogan, 2003.

Ridley, M. Evolução. Porto Alegre: Editora Armed, 2006.

 

Daniel Blamires. Doutor Ciências Ambientais. Docente UEG-Iporá.

Juntos pela biosfera. [Biologia da Conservação].

      Provavelmente Campo Cerrado. Senador Canedo-GO, março 1995. Foto do autor.   “I can hear the whole world singing together ...