segunda-feira, 26 de fevereiro de 2024

Dicas para um bom trabalho de campo. [Orientações].

 




Trecho do meu primeiro livro. Fonte: Blamires (2022).


A cerca de quinze anos atrás, um aluno me procurou no intervalo, para perguntar como eu conseguia descobrir “espécies novas”? Ele ficou sabendo sobre a foto que fiz no Campus IF Goiano-Iporá (acima), durante trabalho de campo com minha orientada Jaqueline Basílio de Oliveira. Custei a entender, mas logo percebi que a expressão “espécies novas” se referia à descoberta de aves até então não registradas em nosso município.

Assim, expliquei que a pesquisa ornitológica em campo requer não apenas equipamentos razoáveis, mas também uma conduta para obtenção dos dados, e que talvez muitos inventários amadores não sejam satisfatórios por isso. Esta conduta e estes procedimentos são detalhados a seguir:

 

a). Leitura e planejamento prévios. Antes das atividades de campo convém ler muitos textos similares ao trabalho a ser desenvolvido, bem como redigir um projeto científico no mínimo até o item “material e métodos” com: revisão bibliográfica, objetivos, descrição da área de estudo, procedimentos de campo e análise futura dos dados. Desenvolver atividades em campo sem planejamento prévio pode resultar um trabalho que não atenda a metas básicas, e acumule prejuízos.

b). Horários crepusculares. Os melhores períodos para inventários avifaunísticos são ao nascer e pôr-do-sol, quando as aves estão mais ativas. É possível efetuar trabalhos em outros horários, mas de fato os períodos crepusculares são mais satisfatórios.

c). Roupas de coloração neutra. Em campo, ornitólogos devem evitar trajes de tonalidades exuberantes, considerando que as aves enxergam mais cores do que nós, podendo fugir ou permanecerem imperceptíveis durante o censoreamento.

d). Silêncio. O aparelho auditivo das aves tem alcance similar ao nosso, não sendo assim tão potente. Entretanto, muita conversa na atividade de campo também afugenta as aves, sendo necessário que os ornitólogos permaneçam a maior parte do tempo em silêncio, ou conversando em tom baixo apenas o necessário.

e). Equipamentos específicos. Binóculos 7x35mm e 8x40mm são os mais recomendados para observação de aves, porque possuem ajuste focal mais eficaz neste contexto. Neste tempo de câmeras fotográficas digitais, são necessárias aquelas de maior alcance para longe: penso que com Zoom mínimo de 18x, tal como empregado por um dos meus alunos de mestrado no sul de Goiás (Silva & Blamires 2020). Gravadores digitais também são importantes para registro de canto, sendo suficientes em estudos onde bastam registros-documentados que comprovem a ocorrência da espécie.

f). Técnicas para censos em campo. O emprego de procedimentos padronizados tipo transeçção e contagem por pontos são imprescindíveis para obtenção de dados a serem analisados sistematicamente, após os trabalhos de campo. Às vezes, deparamo-nos com situações e locais de estudo onde é necessário que nós mesmos desenvolvamos um procedimento específico. Isto é possível, desde que o procedimento seja descrito com clareza, objetividade e fluência no item “material e métodos” do projeto, sem esquecer o emprego da linguagem técnica ornitológica.

 

E assim penso que estas dicas são suficientes para uma pesquisa ornitológica barata, que atenda trabalhos de curso, relatórios de iniciação científica, e no final um artigo científico em periódico de Qualis B1. Uma garrafinha-de-água para matar a sede, mais algumas balinhas-doces no bolso para hipoglicemia também são recomendáveis.

 

Referências:

Andrade, M. A. Aves Silvestres - Minas Gerais. Belo Horizonte: Conselho internacional para preservação das aves, 1997.

Bibby, C.J., Burguess, N.D., Hill, D.A., Mustoe, S.H. Bird Census Techniques, 2. ed. London: Academic Press, 2000.

Blamires, D. Aves urbanas de Iporá, estado de Goiás [Livro eletrônico]. São José dos Pinhais: Brazilian Journal, 2022.

Silva, J.V., Blamires, D. Avifauna de veredas em uma paisagem no sul do estado de Goiás. Revista Mirante, v. 13, n. 1, p. 169-192, 2020.

Trajano, E. Aves, tópico 6. Disponível em: < https://docplayer.com.br/18631541-Aves-6-licenciatura-em-ciencias-usp-univesp-eleonora-trajano-6-1-origem-das-aves-6-2-adaptacoes-das-aves-para-o-voo-6-3-diversidade-das-aves.html > . Acesso em: 26-02-2024.

 Dr. Daniel Blamires. Docente UEG-Iporá.


sexta-feira, 23 de fevereiro de 2024

Introdução à Diversidade, Cidadania e Direitos Humanos, e sobre pensar academicamente. [DCDH]

 


Fonte: Science of the Universe (Facebook page). Acesso em: 23-02-2024.

 

“Se enxerguei longe é porque me apoiei sobre os ombros dos gigantes”. (Tradução Livre).

 

Prezados alunos, de antemão prazer em conhece-los! Trabalharemos juntos neste primeiro semestre, momento em que vocês ingressam na vida acadêmica. Também gostaria de sugerir a leitura de outras páginas posteriores deste Blog, onde também apresento sinopses dos assuntos discutidos previamente em aula, dicas para bom desempenho no curso, e reflexões sobre o dilema das salas-de-aulas brasileiras.

Entretanto, aqui emitirei minha opinião sobre esta disciplina, que recebe o vasto nome de “Diversidade, Cidadania e Direitos Humanos”. Tais assuntos serão trabalhados ao longo do semestre, conforme previsto no plano de curso. Mas gostaria de ressaltar que, a melhor compreensão deste tema requer considerar vários aspectos importantes, também indispensáveis à formação de profissionais de nível acadêmico que futuramente trabalhem com pesquisa, licenciatura... Ou ambos, como muitos. Tentarei dissecar cada item deste título complexo separadamente a seguir.

Diversidade. Em amplo sentido, é a presença e aceitação de vários elementos, características e perspectivas, em um determinado contexto (Exame 2024). Aceitar a diversidade significa ir além dos muros de suas próprias opiniões pessoais, perceber a existência de semelhantes ao redor com opiniões e hábitos distintos aos seus, e tentar estabelecer interações pacíficas com estas pessoas, mesmo que sua percepção seja a princípio conflitante com interesses pessoais.

Segundo Harari (2017), uma importante referência que empregaremos frequentemente ao longo do curso, “a espécie humana é xenófoba”. Dawkins (2014), vai ainda mais longe sobre nossas tendências inatas como seres vivos, postulando que: “Tratemos de ensinar a generosidade e o altruísmo, porque nascemos egoístas”. Assim, aceitar o diferente – inclusive as minorias – significa agir de modo pacífico e acolhedor, ao invés de insistir em costumes primitivos de nossa natureza biológica.

Cidadania. É o conjunto de direitos e deveres do indivíduo em determinado território (Pena 2024). Assim, cada cidadão de um país, por exemplo, deve estar não apenas ciente do que é possível fazer, mas também do que ele deve fazer para o avanço de seu povo. Então, direitos e deveres devem perfazer mutuamente a rotina de cada cidadão em ampla coesão social, para haver oferta de renda, segurança e educação a todos, sendo estas as três dimensões básicas do desenvolvimento humano (PNUD Brasil 2024). Assim, no mundo civilizado e democrático não basta apenas, por exemplo, cobrar direitos e deveres das autoridades, mas cada membro de um povo deve agir como cidadão na íntegra.

Direitos humanos. E voltando aos costumes primitivos, somos xenófobos e egoístas por natureza, conforme prescrito anteriormente: todos nós nascemos assim, e precisamos colocar a razão à frente da tirania de nosso código genético, se de fato quisermos paz. Então se torna importante o direito, conforme alguns de seus princípios gerais: legalidade, igualdade, razoabilidade, proporcionalidade e eficiência (Pantoja 2023).

E novamente questionando os costumes primitivos que todos nós carregamos - não apenas como Homo sapiens, mas também na condição de seres vivos - convém lembrar a célebre frase de Sir Isaac Newton (Reino Unido, 1643-1727) exposta acima, e de certo modo enxergarmos o mundo além dos preconceitos tribais que nos retrocedem ao tempo das cavernas. Profissionais de nível superior devem se comportar como cidadãos altivos do mundo, ainda que paradoxalmente humildes e acolhedores.

 

Referências.

Blamires, D. Dicas para fazer um bom curso superior. 2024. Blogger.  Disponível em: < https://resumosdasaulas.blogspot.com/2024/01/dicas-para-fazer-um-bom-curso-superior.html > . Acesso em: 23-02-2024.

Blamires, D. Sala-de-aula difícil... Mas o que é fácil no Brasil? Blogger. Disponível em: < https://resumosdasaulas.blogspot.com/2024/01/sala-de-aula-dificil.html > . Acesso em: 23-02-2024.

Dawkins, R. O gene egoísta (9ª reimpressão). São Paulo. Editora Companhia das Letras, 2014

Exame. Diversidade: o que é, qual a importância e como promover. 2024. Disponível em: < https://exame.com/esg/diversidade-o-que-e-qual-a-importancia-e-como-promover/ >. Acesso em: 23-02-2024.

Harari, Y. N. Sapiens: uma breve história da humanidade. Porto Alegre: Editora L&PM, 2017.

Pantoja, O. Os 3 mais importantes princípios gerais do direito. 2023. Aurum Blog. Disponível em: < https://www.aurum.com.br/blog/principios-gerais-do-direito/#:~:text=Quais%20s%C3%A3o%20os%20princ%C3%ADpios%20gerais,publicidade%2C%20efici%C3%AAncia%2C%20entre%20outros. > . Acesso em: 23-02-2024.

Pena R. .A. O que é cidadania? Brasil Escola. 2024. Disponível em: < https://brasilescola.uol.com.br/o-que-e/geografia/o-que-e-cidadania.htm > . Acesso em: 23-02-2024.

PNUD: Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas-Brasil. 2024. Disponível em: < https://www.undp.org/pt/brazil/idh > . Acesso em em: 23-02-2024.

Wikipédia: a enciclopédia livre. Isaac Newton. 2024. Disponível em: < https://pt.wikipedia.org/wiki/Isaac_Newton > . Acesso em: 23-02-2024.


Daniel Blamires. Doutor em Ciências Ambientais. Docente UEG-Iporá.


terça-feira, 20 de fevereiro de 2024

Visões do Real e Analogia da Árvore. [Evolução Orgânica].

 


Morphoeus revelando o mundo para Neo. Fonte: “What is the Matrix?”

“What is real? How do you define ‘real’? Is it talking about you can smell, taste and see then real is simply electrical signals that are interpreted by your brain. (…). I didn’t say it would be easy, Neo. I just said it would be truth.”


“O que é o real? Como você define ‘’real’? Se é sobre o que você cheira, prova ou vê então o real são simplesmente sinais elétricos interpretados por seu cérebro. (...). Não disse que seria fácil, Neo. Disse que seria a verdade.” (Tradução livre).

Assim Morphoeus, na atemporal trilogia Matrix, apresentou a Neo o triste mundo das evidências, em contrapartida ao de ilusões vivido antes pelo protagonista. A explicação de Morpheus demonstra o que é a verdade das evidências: deprimente e deselegante, porém precisa sob vários aspectos. E no mundo civilizado e democrático, é o melhor procedimento para produção de medicamentos, conforto, e julgamentos que protejam as minorias ou os diferentes nas sociedades.

Mas afinal, o que é o real? Talvez esta seja uma das maiores dúvidas da humanidade, e parece não haver consenso sobre este assunto. Aqui, voltarei novamente ao passado para expor o que ouvi de meu professor Fausto Mizziara, durante aula em uma disciplina de doutorado há mais de duas décadas. “O real não existe... Existem formas distintas de se ver o real...”

E assim, começo há muitos anos a disciplina de evolução orgânica com esta reflexão, e sempre faço a analogia da árvore, que segue adiante:


a). Há uma árvore no meio de um campo;

b). São postas, em volta desta árvore, quatro pessoas com distintos ofícios: coveiro, juiz, enfermeira, lavrador.

c). Entrega-se um bloco de anotações e um lápis para cada um descrever a árvore;

d). São apresentadas quatro anotações diferentes.


Cada uma destas pessoas anotou a árvore conforme sua própria percepção. As anotações também carregam um componente inato em qualquer indivíduo Homo sapiens de cérebro com capacidade simbólica: a tendência de produzir concepções preliminares, não fundamentadas nos fatos, ou... Preconceitos!

No mundo da diplomacia complexa para evitar guerras nucleares, ou da vacinação-em-massa para diminuir mortalidades, é necessário filtrar costumes primitivos e inatos como preconceitos. É aí que prevalecem procedimentos heurísticos como o método científico sobre os demais. Como prescrito, eles não são os mais sedutores, mas apresentam um real mais viável, acessível e menos discriminatório.

Assim, apesar de que, indiscutivelmente, o sofrimento seja realidade (Harari 2016), no mundo das percepções existem muitos reais e talvez todos tenham sua relevância social, econômica e até emocional. Contudo, o real acadêmico que perfaz toda as ciências naturais é a análise sistêmica – matemática - das evidências, proveniente do método científico. Divagar além do real factível em aulas, pesquisas científicas ou quaisquer atividades neste contexto não é apenas antiético, mas também o retrocesso para um tempo de poções mágicas, inquisições, obscurantismo, bem como altas taxas de guerras e mortalidade.

 

Referências.

Blamires, D. O método científico e a rosa vermelha. Resumo das aulas (Blog). Disponível em: < https://resumosdasaulas.blogspot.com/2024/01/ > . Acesso em: 20-02-2024.

Harari, Y. N. Homo Deus: uma breve história do amanhã. São Paulo: Editora Companhia das Letras, 2016.

Harari, Y. N. Sapiens: uma breve história da humanidade. Porto Alegre: Editora L&PM, 2017.

Harari, Y. N. 21 lições para o século 21. São Paulo: Editora Companhia das Letras, 2019.

Sagan, C. E. O mundo assombrado pelos demônios: a ciência vista como uma vela no escuro. São Paulo: Editora Companhia das Letras. 2006.

Youtube. What is the Matrix? Disponível em: < https://www.youtube.com/watch?v=O5b0ZxUWNf0 > . Acesso em: 20-02-2024.


Editado em 25 de Agosto, 2025. 


Dr. Daniel Blamires. Docente UEG-Iporá.


domingo, 18 de fevereiro de 2024

Árvores e vida simples. [Ecologia].


Serra do Pé-de Pato, a partir da “Estrada Real Vila Boa-Coxim”. Data: 12-12-2022.


Tirei esta foto durante trabalho de campo nas “Estradas Reais”, dois antigos acessos pormenorizadamente detalhados em Gomis (2022). Apesar da majestosa imagem da Serra do Pé-de-Pato ao centro, à frente observa-se uma plantação de soja: a monocultura de uma espécie exótica, que requer muitos insumos de impacto ambiental negativo. E, como já se sabe há muitas décadas, tudo o que altera negativamente a natureza também atinge o bem-estar, economia e saúde das populações humanas.

Hoje, paisagens assim perfazem o mundo todo, e avançam conforme aumentam as densidades populacionais humanas, trazendo consequências drásticas e muitas vezes irreversíveis, conforme noticiado rotineiramente por muitas redes de comunicação. Com frequência, estas mídias se contradizem ao anunciarem, num tempo, “as maravilhas do agronegócio”, e logo após/ou antes falarem sobre intoxicação alimentar, inundações e conflitos étnicos em fronteiras agropastoris.

E infelizmente, existem outros problemas ambientais que não apenas o agronegócio... O impacto humano no planeta é cada vez mais evidente em nosso cotidiano, sendo revertido em problemas de moradia e saúde, e como sempre atingindo primeiro as populações mais vulneráveis economicamente. O mundo está ficando mais quente, poluído, com menos reservatórios de água potável, além de secas mais prolongadas e intercaladas por temporais destruidores. Tudo isso leva a previsões bastante desconfortáveis, e uma humanidade com sérios problemas a partir de 2050.

Contudo, vocês alunos, que estão iniciando a disciplina de ecologia, certamente já são indagados por pessoas leigas ao redor sobre o que fazer neste cenário apocalíptico. Assim, seguem algumas dicas breves, com pouca profundidade científica, como sugestão para tentar responder a este questionamento com clareza e objetividade. Abaixo constam algumas referências, muitas das quais importantes para ampliar o conhecimento sobre este tema cada vez mais recorrente. Só gostaria de adiantar que serviços ecossistêmicos são benefícios que os humanos recebem gratuitamente do meio natural. Então, penso que a resposta a esta pergunta poderia ser:

a). Plantem árvores. Vegetais absorvem gás carbônico atmosférico para atividades fotossintéticas, prestando um serviço ecossistêmico denominado “sequestro de carbono”. Um importante processo para diminuir impactos ambientais como o efeito estufa e aumento da acidez oceânica. Plantas também evapotranspiram, sendo fundamentais nos continentes para aumentar a umidade do ar e produzir nuvens, respectivamente. Recomenda-se o plantio de espécies vegetais nativas, mais ajustadas evolutivamente às condições de cada região, e assim de manejo mais viável em relação às espécies exóticas.

b). Evitem o desmatamento. A complexa interação entre a cobertura vegetal nativa e seu ambiente garantem o estoque hídrico nos lençóis subterrâneos, águas de superfície (córregos e rios) mais limpas e abundantes, estabilidade climática, além de solos mais férteis naturalmente. A remoção da cobertura vegetal nativa para atividades agropastoris pode gerar grande lucro a curto prazo, mas problemas irreversíveis a seguir. Ademais, preservar a cobertura vegetal nativa sempre é mais viável em relação a reflorestar.

c). Vivam uma vida “simples”. O que denomino aqui como “vida simples” é um estilo mais despojado de gastos e bens materiais, ou menos consumidor. Estimulem sobretudo as novas gerações - que herdarão tempos difíceis - a evitar o acúmulo de matéria e contemplar mais o mundo natural, ao invés de viverem só na aflição artificial do mundo presente. Além de comprovadamente diminuir a ansiedade, hábitos mais modestos também implicam em menor procura-e-produção de artefatos sustentados por mineração e indústrias movidas à queima de combustíveis fósseis. Um povo com modos de vida mais simples também despeja menos lixo nos ambientes.

Aprofundaremos mais nestes assuntos ao longo das aulas, mas lembrem-se que também é imprescindível o esclarecimento simples e voltado ao público leigo que nos cerca. Novas publicações também estão previstas nesta página sobre este assunto.

 

Referências.

Carson, R. Silent Spring. Houghton Mifflin Trade, 1962.

Ehrlich, P.R. O mecanismo da natureza: o mundo vivo à nossa volta e como funciona. Rio de Janeiro. Editora Campus, 1993.

Fernandez, F. O poema imperfeito: crônicas de biologia, conservação da natureza, e seus heróis. Curitiba. Editora da UFPR, 2005.

Gomis, M.A. Uma viagem no tempo de Pilões a Iporá (1748-2020), 2ª edição. Goiânia: Editora Kelps, 2022.

Kolbert, E. A sexta extinção: uma história não natural. Rio de Janeiro: Editora Intrínseca, 2015.

Lovelock, J. E. Gaia: alerta final. Rio de Janeiro: Editora Intrínseca, 2010.

Primack, R. B., Rodrigues, E. Biologia da conservação. Londrina: Editora Midiograf. 2002.

Ray, D. K., Mueller, N. D., West, P. C., Foley, J. A. Yield trends are insufficient to double global crop production by 2050. PLOS one 8(6): e66428. doi: 10.1371/journal.pone.0066428 . , 2013.

Westwood, J. H., Charudattan, R., Duke S. O., Fennimore, S. A., Marrone, P., Slaughter, D. C., Swanton, C., Zollinger, R. Weed Management in 2050: Perspectives on the Future of Weed Science. Weed Sci 66:275–285. doi:10.1017/wsc.2017.78 , 2018.

Wilson, E. O. Biofilia. Ciudad de México: Fondo de cultura económica S.A., 1989.

Wilson, E.O. Diversidade da Vida. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.

Wilson, E. O. Naturalista. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1997.

Wilson, E. O. O Futuro da Vida. Rio de Janeiro: Editora Campus, 2002.

Wilson, E. O., Peters, F. M. (eds.). Biodiversidade. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1997.


Editado em 20-02-2025.

Daniel Blamires. Doutor em Ciências Ambientais. Docente UEG-Iporá.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2024

A sequência taxonômica. [Orientações]


Inventários avifaunísticos sempre possuem uma descrição tipo: “...A sequência taxonômica e os nomes científicos seguem...” Porquê? Consideremos a necessidade, em quaisquer listagens de espécies ou organização de material nos acervos biológicos, a disposição dos dados em uma sequência funcional. Assim, consideremos as seguintes espécies de aves:

 

CANÁRIO

EMA

SAÍRA

GAVIÃO-CARIJÓ

 

Para simplificar, focaremos apenas nos nomes populares das espécies. A princípio, poderíamos organizá-las simplesmente conforme as iniciais de seus nomes, em ordem alfabética.

 

CANÁRIO

EMA

GAVIÃO-CARIJÓ

SAÍRA

 

Contudo, imaginem um acervo cujo material biológico das espécies estivesse disposto apenas conforme a sequência do alfabeto. As peles do canário, por exemplo, estariam ao lado das peles de emas: duas aves de fato, mas extremamente distintas entre si. O mesmo caso para o gavião-carijó e a saíra. Consideremos agora a história natural da Classe Aves onde, conforme os registros fósseis e estudos sobre sua sequência lógica, todas as espécies convergem para uma mesma origem ancestral Dinossauria, no período jurássico (+201-145 m.a.). Neste contexto, é possível montar a “Filogenia”: um diagrama ramificado que parte de um ancestral comum, e diversifica-se em outros níveis taxonômicos ao longo do tempo, sendo a hipótese evolutiva para uma linhagem, como por exemplo as aves.

 



 

No caso das aves, o ancestral-comum mais provável pertenceu ao gênero Archaeopteryx, ou similar. Uma das principais etapas do estudo filogenético é a distinção de duas características básicas:

a). Plesiomorfias: características primitivas, provenientes do ancestral comum. Nas aves as penas, o bico e a postura bípede são características plesiomórficas;

b). Apomorfias: características derivadas, mais recentes e não encontradas no ancestral comum. A siringe das aves passeriformes-canoras, ou a nectarivoria dos beija-flores, são prováveis exemplos de caracteres apomórficos.

Assim, atualmente a melhor alternativa é distribuir as espécies na sequência filogenética de diversificação a partir do ancestral comum, conforme a seguir:

 

EMA

GAVIÃO-CARIJÓ

CANÁRIO

SAÍRA

 

Entre dois extremos, para efeito didático podemos supor que a Ema é mais “primitiva” e a saíra mais “derivada”, respectivamente. Notem que o efeito da dissimilaridade foi corrigido pela sequência filogenética, também denominada taxonômica, na literatura. Esta sequência e os nomes científicos são periodicamente atualizados conforme novas hipóteses filogenéticas. Na ornitologia brasileira, o Comitê Brasileiro de Registros Ornitológicos (CBRO) encarrega-se de atualizar a sequência taxonômica e os nomes científicos das espécies.

A sequência taxonômica-filogenética é, de fato, um procedimento que prevalece na literatura simplesmente por ser mais funcional, claro e objetivo. Uma importante disposição que remonta estudos de célebres naturalistas do passado, como Charles Darwin, Ernest Haeckel e Willi Hennig.

 

Referências:

Blamires, D. A luz da evolução nas ciências biomédicas: biologia evolutiva, pandemias, e o legado de três cientistas para a humanidade. Brazilian Journal of Development, v. 8, n. 3, p. 17832-17840, 2022.

Dawkins, R.H. O relojoeiro cego. São Paulo: Editora Companhia das Letras, 1986.

Darwin. C.R. A origem das espécies. São Paulo: Editora Martin Claret, 2005.

Pacheco J.F., Silveira L.F., Aleixo A., Agne C.E., Bencke G.A., Bravo G.A., Brito G.R.R., Cohn-Haft M., Maurício G.N., Naka L.N., Olmos F., Posso S.R., Lees A.C., Figueiredo L.F.A., Carrano E., Guedes R.C., Cesari E., Franz I., Schunck F., Piacentini V.Q. Annotated checklist of the birds of Brazil by the Brazilian Ornithological Records Commitee – second edition. Ornithology Research, DOI: https://doi.org/10.1007/s43388-021-00058-x , 2021.

Pough F.H., Janis C.M., Heiser, J.B. A vida dos vertebrados, 2ª edição. São Paulo: Atheneu, 1999.

Ridley, M. Evolução. Porto Alegre: Editora Artmed, 2006.

Trajano, E. Aves, tópico 6. Disponível em: < https://docplayer.com.br/18631541-Aves-6-licenciatura-em-ciencias-usp-univesp-eleonora-trajano-6-1-origem-das-aves-6-2-adaptacoes-das-aves-para-o-voo-6-3-diversidade-das-aves.html >. Acesso em: 12-02-2024.

 

Dr. Daniel Blamires. Docente UEG-Iporá.


quarta-feira, 7 de fevereiro de 2024

Cientistas não gostam de Deus? Breve reflexão. [Evolução Orgânica].

 


Livros de Edward Osborne Wilson sobre minha mesa de trabalho. Data: 07-02-2024.

Serei breve neste assunto polêmico, mas gostaria de iniciar manifestando tristeza por retrocedermos a este tempo de tendências fundamentalistas, distorções e extremismo em pleno Século XXI. Como professor de biologia evolutiva, contudo, as vezes torna-se necessário responder algumas perguntas, e assim confrontar o triste contexto do “nós e eles” que nestes últimos dez anos no Brasil tem provocado confusão, reações viscerais imprudentes, inversão de valores e ódio... Muito ódio...

Então voltemos ao passado, aproximadamente seis anos atrás. Certa vez, meu caçula Lucas voltou da escola e me disse ter ouvido dos colegas que “...Cientistas não gostam de Deus...” Eu - que sou agnóstico a mais de duas décadas - inicialmente pensei em ignorar, mas mudei a seguir.  Então respondi conforme a sequência adiante, aqui mais ampla em relação à resposta para meu menino. Esta é minha opinião pessoal:

 

a). Por motivos óbvios, no meio acadêmico há uma ampla partilha e produção de conhecimentos;

b). O conhecimento muda para sempre a mente de quem lhe recebe com frequência e sem preconceitos;

c). Em uma rotina de busca, produção e partilha ampla de conhecimento, as pessoas se tornam mais autênticas e assumem suas convicções, tornando-se mais francas consigo mesmas.

 

Assim, uma pessoa pode se manter religiosa no meio acadêmico, ou simplesmente abandonar esta prática, como foi meu caso. Acadêmicos também não praticam embate entre religião e conhecimento: apenas exigem que estas duas concepções não se misturem. Existem de fato casos extremos, mas professores e pesquisadores em geral tem mais o que fazer, ao invés de investir recursos escassos em conflitos. Edward O. Wilson é uma das minhas maiores referências, e em muitos de seus livros há evidente esforço em conciliar os lados e trabalhar em prol de algo importante, como a conservação da biosfera, ao invés de gerar frentes de batalha em busca de verdades absolutas.

Ademais, nas escrituras sagradas, o trecho onde Jesus responde “...Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus (Mt. 22, 21) ” também sugere que o próprio fundador do cristianismo optou pela convivência com as diferenças, ao invés do confronto. Então, um povo que prefere o respeito ao diferente e a convivência com outras opiniões, que não as de seus próprios muros, vive mais em paz em relação aos sectários.

 

Sugestões de leitura:

Wikipédia: a enciclopédia livre. 2023. Edward Osborne Wilson. Disponível em: < https://pt.wikipedia.org/wiki/Edward_Osborne_Wilson >. Acesso em: 07-02-2024.

Wilson, E. O. Diversidade da Vida. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.

Wilson, E. O. A criação: como salvar a vida na Terra. São Paulo. Editora Companhia das Letras, 2008.

 

Dr. Daniel Blamires. Docente UEG-Iporá.


Juntos pela biosfera. [Biologia da Conservação].

      Provavelmente Campo Cerrado. Senador Canedo-GO, março 1995. Foto do autor.   “I can hear the whole world singing together ...