domingo, 18 de fevereiro de 2024

Árvores e vida simples. [Ecologia].


Serra do Pé-de Pato, a partir da “Estrada Real Vila Boa-Coxim”. Data: 12-12-2022.


Tirei esta foto durante trabalho de campo nas “Estradas Reais”, dois antigos acessos pormenorizadamente detalhados em Gomis (2022). Apesar da majestosa imagem da Serra do Pé-de-Pato ao centro, à frente observa-se uma plantação de soja: a monocultura de uma espécie exótica, que requer muitos insumos de impacto ambiental negativo. E, como já se sabe há muitas décadas, tudo o que altera negativamente a natureza também atinge o bem-estar, economia e saúde das populações humanas.

Hoje, paisagens assim perfazem o mundo todo, e avançam conforme aumentam as densidades populacionais humanas, trazendo consequências drásticas e muitas vezes irreversíveis, conforme noticiado rotineiramente por muitas redes de comunicação. Com frequência, estas mídias se contradizem ao anunciarem, num tempo, “as maravilhas do agronegócio”, e logo após/ou antes falarem sobre intoxicação alimentar, inundações e conflitos étnicos em fronteiras agropastoris.

E infelizmente, existem outros problemas ambientais que não apenas o agronegócio... O impacto humano no planeta é cada vez mais evidente em nosso cotidiano, sendo revertido em problemas de moradia e saúde, e como sempre atingindo primeiro as populações mais vulneráveis economicamente. O mundo está ficando mais quente, poluído, com menos reservatórios de água potável, além de secas mais prolongadas e intercaladas por temporais destruidores. Tudo isso leva a previsões bastante desconfortáveis, e uma humanidade com sérios problemas a partir de 2050.

Contudo, vocês alunos, que estão iniciando a disciplina de ecologia, certamente já são indagados por pessoas leigas ao redor sobre o que fazer neste cenário apocalíptico. Assim, seguem algumas dicas breves, com pouca profundidade científica, como sugestão para tentar responder a este questionamento com clareza e objetividade. Abaixo constam algumas referências, muitas das quais importantes para ampliar o conhecimento sobre este tema cada vez mais recorrente. Só gostaria de adiantar que serviços ecossistêmicos são benefícios que os humanos recebem gratuitamente do meio natural. Então, penso que a resposta a esta pergunta poderia ser:

a). Plantem árvores. Vegetais absorvem gás carbônico atmosférico para atividades fotossintéticas, prestando um serviço ecossistêmico denominado “sequestro de carbono”. Um importante processo para diminuir impactos ambientais como o efeito estufa e aumento da acidez oceânica. Plantas também evapotranspiram, sendo fundamentais nos continentes para aumentar a umidade do ar e produzir nuvens, respectivamente. Recomenda-se o plantio de espécies vegetais nativas, mais ajustadas evolutivamente às condições de cada região, e assim de manejo mais viável em relação às espécies exóticas.

b). Evitem o desmatamento. A complexa interação entre a cobertura vegetal nativa e seu ambiente garantem o estoque hídrico nos lençóis subterrâneos, águas de superfície (córregos e rios) mais limpas e abundantes, estabilidade climática, além de solos mais férteis naturalmente. A remoção da cobertura vegetal nativa para atividades agropastoris pode gerar grande lucro a curto prazo, mas problemas irreversíveis a seguir. Ademais, preservar a cobertura vegetal nativa sempre é mais viável em relação a reflorestar.

c). Vivam uma vida “simples”. O que denomino aqui como “vida simples” é um estilo mais despojado de gastos e bens materiais, ou menos consumidor. Estimulem sobretudo as novas gerações - que herdarão tempos difíceis - a evitar o acúmulo de matéria e contemplar mais o mundo natural, ao invés de viverem só na aflição artificial do mundo presente. Além de comprovadamente diminuir a ansiedade, hábitos mais modestos também implicam em menor procura-e-produção de artefatos sustentados por mineração e indústrias movidas à queima de combustíveis fósseis. Um povo com modos de vida mais simples também despeja menos lixo nos ambientes.

Aprofundaremos mais nestes assuntos ao longo das aulas, mas lembrem-se que também é imprescindível o esclarecimento simples e voltado ao público leigo que nos cerca. Novas publicações também estão previstas nesta página sobre este assunto.

 

Referências.

Carson, R. Silent Spring. Houghton Mifflin Trade, 1962.

Ehrlich, P.R. O mecanismo da natureza: o mundo vivo à nossa volta e como funciona. Rio de Janeiro. Editora Campus, 1993.

Fernandez, F. O poema imperfeito: crônicas de biologia, conservação da natureza, e seus heróis. Curitiba. Editora da UFPR, 2005.

Gomis, M.A. Uma viagem no tempo de Pilões a Iporá (1748-2020), 2ª edição. Goiânia: Editora Kelps, 2022.

Kolbert, E. A sexta extinção: uma história não natural. Rio de Janeiro: Editora Intrínseca, 2015.

Lovelock, J. E. Gaia: alerta final. Rio de Janeiro: Editora Intrínseca, 2010.

Primack, R. B., Rodrigues, E. Biologia da conservação. Londrina: Editora Midiograf. 2002.

Ray, D. K., Mueller, N. D., West, P. C., Foley, J. A. Yield trends are insufficient to double global crop production by 2050. PLOS one 8(6): e66428. doi: 10.1371/journal.pone.0066428 . , 2013.

Westwood, J. H., Charudattan, R., Duke S. O., Fennimore, S. A., Marrone, P., Slaughter, D. C., Swanton, C., Zollinger, R. Weed Management in 2050: Perspectives on the Future of Weed Science. Weed Sci 66:275–285. doi:10.1017/wsc.2017.78 , 2018.

Wilson, E. O. Biofilia. Ciudad de México: Fondo de cultura económica S.A., 1989.

Wilson, E.O. Diversidade da Vida. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.

Wilson, E. O. Naturalista. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1997.

Wilson, E. O. O Futuro da Vida. Rio de Janeiro: Editora Campus, 2002.

Wilson, E. O., Peters, F. M. (eds.). Biodiversidade. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1997.


Editado em 20-02-2025.

Daniel Blamires. Doutor em Ciências Ambientais. Docente UEG-Iporá.

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