sábado, 21 de março de 2026

A única raça da mamãe África. [Evolução orgânica].

 


 



 

Capa de Gould (1999). Fonte: Google.

 

Neste livro (imagem), o paleontólogo estadunidense Stephen Jay Gould (Wikipédia 2025) justifica sobre porquê “não deveríamos dar nomes às raças humanas (Gould 1999)”, afirmando que análises multivariadas demonstram níveis menores da nossa espécie, denominados “variações geográficas”. Coyne (2014) contradiz esta versão, afirmando - sem preconceitos - que deveríamos considerar que algumas adaptações em cada grupo humano, nas suas respectivas regiões, poderiam estratificar a espécie em raças.

Contudo, estudos genéticos recentes favorecem a revisão anterior de Gould (1999). O professor Johannes Krause, diretor do Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva (DW Brasil 2024, Video 1), demonstra que: a). Humanos evoluíram distintos tons de pele; b). A noção de raça não tem base genética; c). Somos todos mais de 99% africanos, com relação ao genoma. Krause também suspeita que lastimáveis costumes humanos tipo racismo são “projetos de posse e poder”, típicos da natureza de toda a nossa espécie.

 


 

 

Video 1. Porque raça não faz sentido em humanos. DW Brasil (2024).

 

De fato, a opinião de Krause (DW Brasil 2024) é bem procedente, se considerarmos por exemplo Idi Amin Dada (Wikipédia 2026), ditador da Uganda e supremacista racial negro (JB Links 2021). Assim, a antropologia biológica demonstra que o homem moderno - do ponto de vista comportamental - provavelmente surgiu há cerca de 50 mil anos na África, dispersando-se a seguir pelo planeta (Brandão & Neves 2016). Importante ressaltar que, estudos como os do “Homem de Cheddar (McKie 2018)” evidenciam que até 10 mil anos passados nossos ancestrais tinham pele negra. Também convém relembrar Diamond (2005), sobre cada povo se ajustar economicamente às suas respectivas circunstâncias geográficas, não havendo culturas “superiores” ou “inferiores”.

Então, conforme as fontes (Gould 1999, Ridley 2006, Pough et al. 2008, Brandão & Neves 2016, Wilson 2013, 2018, DW Brasil 2024), listarei aqui alguns aspectos básicos sobre nossa espécie, que há tempos tenho desejado publicar:

 

a). Somos todos animais;

b). Somos todos primatas, e portanto, macacos;

c). Somos todos Homo sapiens, oriundos da África;

d). Não existem raças humanas.

 

É fato que nem todos os macacos são humanos, mas nós humanos somos todos macacos, e membros da grande linhagem Antropoidea (Pough et al. 2008, Wilson 2013). Outro fato importante: a África é o berço da humanidade, como canta aquela música do icônico cantor nordestino Chico César (2025): nossa “Mama África (Video 2)”.

 


 

 

Video 2. Mama África, de César (2025).

 

É isso! Somos, respectivamente, a única espécie e raça humana, filha de nossa mamãe África. Deveríamos pensar no continente africano ternamente, como a grande progenitora de nossa espécie.

 

Referências

Brandão, M. C., Neves, E. Como nos tornamos humanos. Curitiba: Editora CRV, 2016.

César, C. Mama África. Disponível em: < https://www.youtube.com/watch?v=6IZE5Jyy7a8 > . 2025. Acesso em: 19-03-2026

Coyne, J. A. Por que a evolução é uma verdade. São Paulo: JSN Editora, 2014.

Diamond, J. Armas, germes e aço: os destinos das sociedades humanas. Rio de Janeiro: Editora Record, 2005

DW Brasil. Por que o termo raça não faz sentido no caso de humanos. 2024. Disponível em: < https://www.youtube.com/watch?v=g0G7A4HXbaE > . Acesso em: 19-03-2026.

Gould, S. J. Darwin e os grandes enigmas da vida, 2ª Edição. São Paulo: Martins, Fontes, 1999.

JB Links. How to become a tyrant, Netflix Trailer. 2021. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=KvbE5ang4Nk  > . Acesso em: 29-03-2026.

McKie, R. Cheddar Man changes the way we think about our ancestors. 2018. Disponível em: < https://www.theguardian.com/science/2018/feb/10/cheddar-man-changed-way-we-think-about-ancestors > . Acesso em: 19-03-2026.

Pough, F. H., Janis, C. M., Heiser, J. B. A vida dos vertebrados, 4ª Edição. São Paulo: Atheneu, 2008.

Ridley, M. Evolução, 3ª Edição. Porto Alegre: ARTMED, 2006.

Wikipédia: a enciclopédia livre. Stephen Jay Gould. 2025. Disponível em: < https://pt.wikipedia.org/wiki/Stephen_Jay_Gould > . Acesso em: 19-03-2026.

Wikipédia: a enciclopédia livre. Idi Amin. 2026. Disponível em: < https://pt.wikipedia.org/wiki/Idi_Amin > . Acesso em: 29-03-2026.

Wilson, E. O. A conquista social da Terra. São Paulo: Editora Companhia das Letras, 2013.

Wilson, E. O. O sentido da existência humana. São Paulo: Companhia das Letras, 2018.


*. Editado em 29-03-2026.

 

Daniel Blamires. Doutor Ciências Ambientais. Docente UEG-Iporá.

 

terça-feira, 10 de março de 2026

Agronegócio brasileiro: tragédia dos comuns? [Biologia da Conservação].

 

 



Projeção apresentada em sala-de-aula. Fonte: Autor, 08-03-2026.

 

Então pessoal: eu acho que sim! E tentarei explicar... Este texto complementa o que redigi anteriormente (Blamires 2026). Primack & Rodrigues (2001) descrevem claramente esta concepção, no âmbito da Economia Ambiental. A tragédia dos comuns é um assunto que sempre vem à tona em diferentes disciplinas, e infelizmente, parece se encaixar neste contexto agropastoril que persiste em grande parte do solo brasileiro.

Segundo Hardin (1968), recursos de propriedade comum pertencem a toda sociedade, sendo por exemplo: ar puro, água limpa, qualidade do solo, espécies raras e até mesmo paisagens. De fato, todo cidadão tem o direito de usufruir estes bens, bem como protege-los. Mas quando pessoas físicas, jurídicas e governos danificam estes recursos comuns a todos a um custo mínimo - ou as vezes nada – concretiza-se a “Tragédia dos Comuns (Tragedy of the Commons, Hardin 1968)”. Os resultados são normalmente catastróficos, ao menos para a economia de um povo.

Então o agronegócio brasileiro, atualmente usando vastas extensões de terra para atividades agropastoris, às custas de muito desmatamento e consumo excessivo de estoques hídricos (Brasil 2026) se insere neste contexto de Hardin (1968). Afinal, trata-se de um sistema produtor que exaure insustentavelmente muitos recursos naturais que, no final, pertencem a todos nós e não apenas a uma aristocracia rural. Ao menos no Brasil Central, importantes estudos tem alertado sobre os impactos deste sistema cyberpunk de uso da Terra (Bispo et al. 2023, Hoffman et al. 2025), que pode comprometer o próprio agronegócio (BBC News 2019). Mas nenhuma proposta concreta está sendo posta em prática atualmente, e assim a destruição segue...

Até onde iremos?

 

Referências

BBC News. Por que o futuro do agronegócio depende da preservação do meio ambiente no Brasil. g1 AGRO. Disponível em: < https://g1.globo.com/economia/agronegocios/noticia/2019/07/16/por-que-o-futuro-do-agronegocio-depende-da-preservacao-do-meio-ambiente-no-brasil.ghtml > . Acesso em: 09-03-2026.

Bispo, P. C., Picoli, M. C. A., Marimon, B. S., Marimon Junior, B. H., Peres, C. A., Menor, I. O., Silva, D. E., Machado, F. F., Alencar, A. A. C., Almeida et al. Overlooking vegetation loss outside forests imperils the Brazilian Cerrado and other non-forest biomes. Nature ecology & evolution, 2023, DOI: https://doi.org/10.1038/s41559-023-02256-w

Blamires, D. O Agro é Colapso? [Biologia da Conservação]. Resumos das Aulas. 2026. Disponível em: < https://resumosdasaulas.blogspot.com/2026/02/o-agro-e-colapso-biologia-da-conservacao.html > . Acesso em: 10-03-2026.

Brasil, A. & F. O Agro está acabando com o Brasil! 2026. Disponível em: < https://www.youtube.com/watch?v=ewOn4r9h5LM&lc=Ugz2UTMXIDlbJVBQxRV4AaABAg.ATFRo-Mc-gCATFgyi4Crhz > . Acesso em: 21-02-2026.

Hardin, G. The Tragedy of the Commons. Science, 162, p. 1243-1248, 1968.

Hoffmann, G. S., Weber, E. J., Bastazini, V. A. G., Rossato, D. R., Franco, A. C., Granada, C. E., Kaminski, L. A., Ubaid, F. K., Leandro-Silva; V., Borges-Martins, M., et al. Climate Change in the Brazilian Cerrado: A Looming Threat to Terrestrial Biodiversity. Interdisciplinary Reviews: Climate Change, 16:e70022, 2025. DOI: https://doi.org/10.1002/wcc.70022

Primack, R. P., Rodrigues, E. Biologia da Conservação. Londrina: E. Rodrigues, 2001.

 

Daniel Blamires. Doutor Ciências Ambientais. Docente UEG-Iporá.

 

segunda-feira, 2 de março de 2026

Wilson e o sentido da existência humana. [Evolução Orgânica].

 

 

 

Capa de Wilson (2018).

 

Oi pessoal! Como prescrevi muitas vezes, bem como repeti em sala de aula, Edward Wilson (Stone & Greshko 2022) é minha maior referência literária. Tanto, que nestes últimos meses li três de seus livros consecutivamente (ver outras sinopses em Blamires 2025a, b). Este (Wilson 2018), foi o último. Novamente, convém ressaltar que sinopses das monumentais obras de E. Wilson são incompletas, considerando a ampla abrangência do autor. Assim, encorajo quem se interessar pelos temas a leitura dos livros originais.

A meu ver, Wilson (2018) complementa “a conquista social da Terra (Wilson 2013)”. No último, contudo, o autor apresenta mais sua opinião sobre o essencial de nossa espécie. O livro começa com uma interessante reflexão:

 

“A história não tem muito sentido sem a pré-história, e a pré-história não tem muito sentido sem a biologia. O conhecimento da pré-história e da biologia anda a passos largos, trazendo maior foco à origem da humanidade e ao porquê de uma espécie como a nossa existir neste planeta. (Wilson 2018, p. 4)”.

 

Uma premissa enunciada previamente (Wilson 1981). De fato, muitos estudos nas humanidades apresentam aspecto bastante superficial e redundante. Simplesmente por ignorarem que, no final, todos nós Homo sapiens somos: seres vivos, animais, macacos... E finalmente humanos! Assim, os fundamentos orgânicos de nossa espécie deveriam ser a base para conhecer muitos dos seus aspectos.

Contudo, Wilson (2018) enaltece as humanidades como algo que nos distingue. Por exemplo, ele postula que caso fizermos contato com seres alienígenas intelectualmente avançados, na condição de viajantes interestelares eles simplesmente desprezariam nossa ciência: extremamente rudimentar para viajantes espaciais. Então, eles buscariam a criatividade que aflora em outros aspectos da humanidade, tipo nossa arte. E neste contexto de vida alienígena, o autor também reflete sobre como seria uma espécie extraterrestre inteligente, a qual teria evoluído a consciência em uma dinâmica evolutiva similar à nossa.

O autor também aponta a importância de se preservar a natureza humana como ela de fato é, apesar de contestar nossa tendência genética ao tribalismo, o qual convém evitar neste tempo de armas poderosas. Wilson (2018) ressalta, por exemplo, que nossa capacidade de inovação  é um produto cerebral da emoção e razão em conjunto, não abrangendo apenas o conhecimento técnico. Neste sentido, o autor sugere que produzamos conhecimento em um “novo iluminismo”: uma perspectiva mais holística, similar a dos grandes pensadores da Idade Moderna.

E novamente, Wilson (2018) teceu críticas ao princípio da “Seleção de Parentesco (Aptidão Inclusiva)”, ressaltando a estrutura matematicamente insustentável desta teoria, e sugerindo sua substituição pela “Seleção de Grupo”. O autor pondera ter corroborado e defendido a Aptidão Inclusiva no passado, durante muitos anos. Mas nos anos 2010, ele e outros autores atestaram a incompatibilidade deste enfoque, publicando um texto sobre o assunto de grande repercussão no meio científico: um debate que parece continuar atualmente.

Edward Wilson foi um cientista que, de fato, deixou um grande legado para a Biologia. Um “analista de dados” - como ele mesmo se intitulava – de grande sabedoria para reconhecer e corrigir erros, sem necessariamente perder a sensibilidade e a percepção holística, rumo a um conhecimento que deveria se interligar a todas as distintas áreas do conhecimento humano.

 

Referências

Blamires, D. De um gigante para jovens naturalistas: conselhos de Edward Wilson. Resumos das Aulas. 2025a. Disponível em: < https://resumosdasaulas.blogspot.com/2025/07/de-um-gigante-para-jovens-naturalistas.html > . Acesso em: 02-03-2026.

Blamires, D. Wilson e a conquista social da Terra. Resumos das Aulas. 2025b. Disponível em: < https://resumosdasaulas.blogspot.com/2025/10/wilson-e-conquista-social-da-terra.html > . Acesso em: 02-03-2026.

Stone, A., Greshko, M. Quem foi E. O. Wilson, o “herdeiro natural de Darwin”. National Geographic Brasil. 2022. Disponível em: < https://www.nationalgeographicbrasil.com/ciencia/2022/01/quem-foi-eo-wilson-o-herdeiro-natural-de-darwin > . Acesso em: 02-03-2026.

Wilson, E. O. Da natureza humana. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1981.

Wilson, E. O. A conquista social da Terra. São Paulo: Editora Companhia das Letras, 2013.

Wilson, E. O. O sentido da existência humana. São Paulo: Companhia das Letras, 2018.

 

Daniel Blamires. Doutor Ciências Ambientais. Docente UEG-Iporá.

Juntos pela biosfera. [Biologia da Conservação].

      Provavelmente Campo Cerrado. Senador Canedo-GO, março 1995. Foto do autor.   “I can hear the whole world singing together ...