sexta-feira, 29 de março de 2024

Ciclos biogeoquímicos: predições conservacionistas. [Ecologia].

 



Ciclo da água no quadro. Data: 22-03-2023.

 

O presente assunto já foi detalhado anteriormente nas aulas, mas nesta postagem serão ressaltadas as predições conservacionistas dos ciclos biogeoquímicos, em particular os que foram enfocados previamente: os ciclos da água, carbono, nitrogênio e fósforo. Lembrando que o assunto consta nas projeções e referências bibliográficas, e que o domínio do conteúdo requer leitura das fontes citadas ao longo das aulas.

a). Ciclo da água. Ocorre basicamente pelos fenômenos físicos de evaporação e transpiração. Entretanto, considerando que menos de 1% da hidrosfera é composta por água líquida potável, a cobertura vegetal nativa nos continentes é indispensável para o abastecimento e regulação deste limitado estoque hídrico nas superfícies emersas. A vegetação continental controla os processos de precipitação e fluxos terrestres de água, além de sua deposição nos lençóis freáticos. Neste contexto, o desmatamento e a fragmentação crescente das paisagens pode comprometer, por exemplo, a ciclagem mais estável da água e o estoque hídrico nos solos.

b). Ciclo do carbono. Ciclado conforme três grandes classes de processos: reações assimilativas e desassimilativas, trocas físicas de gás carbônico (CO2) entre a atmosfera e os oceanos, além das reações de dissolução e precipitação de carbonatos nos continentes. As reações assimilativas-desassimilativas, normalmente representadas pela fotossíntese e respiração, por exemplo, são importantes para o “sequestro de carbono”: um serviço ecossistêmico caracterizado pela absorção de CO2 atmosférico a partir das reações fotossintéticas mais consequente deposição e inserção do elemento carbono nos processos orgânicos dos ecossistemas. Então, a remoção da cobertura vegetal pode ocasionar altas concentrações de gás carbônico atmosférico e consequente “efeito estufa”, ou aumento da temperatura devido à maior retenção de calor, por uma atmosfera com altas concentrações de gases carbônicos.

As trocas físicas de CO2, entre a atmosfera e os oceanos, também podem ser afetadas com o aumento antropogênico desta substância na atmosfera. Oceanos já possuem naturalmente concentrações elevadas de gás carbônico, mas a queima de combustíveis fósseis e o aumento desta substância na atmosfera amplia suas concentrações nas águas marítimas e aumenta a acidez oceânica, pondo assim a vida de muitos organismos em risco. Por exemplo, os recifes de corais, produtores de parte do oxigênio que respiramos e importantes para a sobrevivência e reprodução de muitas outras espécies, estão sendo mortos em todo o planeta por este motivo, mais o aquecimento global.

Importante ressaltar que, segundo o modelo de Lovelock sobre proporções de CO2 atmosférico, não há mais volta para o aquecimento global. Porque partindo desta premissa, há uma tendência para aumento da temperatura até 5°C, caso a concentração de gás carbônico atmosférico fique entre 400-500ppm, a qual já estava em aproximadamente 430ppm por volta de 2010.

Com relação ao ciclo dos elementos nitrogênio (N) e fósforo (P), dois importantes componentes de fertilizantes, insumos agrícolas no solo depositados em mananciais tipo rios e córregos podem favorecer o crescimento populacional de microorganismos redutores do estoque de oxigênio (O2) da água, comprometendo assim a sobrevivência e reprodução das demais espécies que dependem deste gás: um problema conhecido como Eutrofização. Águas de superfície também podem ser eutrofizadas pela deposição de esgoto, seja em meio rural ou urbano.

Assim, voltamos às mesmas sugestões de textos anteriores para evitar estes problemas, ou ao menos tentar conviver com o “novo normal” que nos espera nas próximas décadas. Plantar árvores, evitar o desmatamento e viver uma vida minimalista é o que todos podemos fazer para garantir recursos de nossa sobrevivência futuramente, bem como mais bem-estar das gerações futuras. Também é tempo de priorizar métodos alternativos para produção de alimentos, além do uso de fontes energéticas mais limpas.

 

Referências.

Becatoros, E. Scientists Race to Prevent Wipeout of World’s Coral Reefs. 2017. 10Philadelphia. In: < https://www.nbcphiladelphia.com/news/national-international/science-wipeout-coral-reefs-global-warming/2058005/ > . Access: 29-03-2024.

Blamires, D. Árvores e vida simples. Resumos das aulas. 2024. Disponível em:  <árvores vida simpleshttps://resumosdasaulas.blogspot.com/2024/02/arvores-e-vida-simples-ecologia.html> . Acesso em: 29-03-2024.

Blamires, D. Hipótese Gaia e um futuro preocupante. Resumos das Aulas. 2024. Disponível em: < https://resumosdasaulas.blogspot.com/2024/03/hipotese-gaia-e-um-futuro-preocupante.html >. Acesso em: 29-03-2024.

Ehrlich, P.R. O mecanismo da natureza: o mundo vivo à nossa volta e como funciona. Rio de Janeiro: Editora Campus, 1993.

Kolbert, E. A sexta extinção: uma história não natural. Rio de Janeiro: Editora Intrínseca, 2015.

Lovelock, J. E. Gaia: alerta final. Rio de Janeiro: Editora Intrínseca, 2010.

Ricklefs, R. E. A economia da natureza (5ª Ed.). Rio de Janeiro: Editora Guanabara-Koogan, 2003.


Dr. Daniel Blamires. Docente UEG-Iporá.

domingo, 17 de março de 2024

Sobre os fundamentos da espécie humana: uma sugestão para a disciplina “Diversidade, Cidadania e Direitos Humanos”. [DCDH].

 




Capa do livro “Sapiens”, obra destacada de Yuval Harari. Fonte: Google.


Leciono “Diversidade, cidadania e direitos humanos” para os calouros de Ciências Biológicas a cinco anos. Uma disciplina de humanidades, que aborda importantes concepções para aceitação da diversidade em todos os seus aspectos, postula os direitos e deveres de cada cidadão como meio de garantir o desenvolvimento e bem-estar de todos os compatriotas, bem como a importância da legislação para coibir conflitos e garantir que todos se sintam protegidos e notados em uma sociedade. Entretanto, o conteúdo proposto para esta disciplina parece desconsiderar que muitos problemas do Homo sapiens são fundamentados não necessariamente em narrativas sobre o desenrolar das sociedades, mas sim na própria natureza da espécie.

Então, muitos contratempos sociais e econômicos que sempre repercutiram na humanidade desde sua origem estão relacionados a costumes primitivos de fundo genético, os quais remontam a evolução de nossos ancestrais nas savanas africanas. Territorialidade, dúvidas sobre vida e morte, obsessão por ideologias, o patriarcalismo e o nepotismo, talvez sejam exemplos de comportamentos capazes de retroceder um povo até a vida ancestral nas cavernas, os quais remontam a biologia da humanidade.

Em “Sapiens” e “21 Lições para o Século 21”, o historiador israelense Yuval Noah Harari (2017) apresenta uma interessante abordagem sobre a história e perspectivas da humanidade, fundamentada não apenas em fatos históricos recentes, mas também na biologia de nossa espécie. De modo geral, o autor ressalta que:

 

a). O “real” do homem é sua natureza biológica caçadora-coletora, que evoluiu com o gênero Homo no continente africano, onde nossa espécie surgiu e permaneceu a maior parte de seu tempo;

b). A história começou a mudar com a evolução do cérebro humano criador de ficções simbólicas, sendo "ficções" tudo o que a humanidade credita, mas que não perfaz seu real biológico;

c). Neste sentido, a produção de ficções tipo hierarquias sociais complexas, religiões institucionalizadas, leis, dinheiro, moldaram a história do Homo sapiens a partir do neolítico;

d). O sucesso destas ficções levou à necessidade - e geração - de sistemas de processamento de dados complexos, como a escrita e a matemática.


Assim, provavelmente a maioria dos conflitos humanos passados e atualmente estão centrados nos antigos algoritmos do cérebro humano, cuja origem remonta os campos pleistocênicos da África, dentre os quais a territorialidade e o nepotismo. Tais comportamentos foram mascarados em narrativas tipo feudalismo, fascismo, nazismo, comunismo, macarthismo, entre tantas outras, mas no final perfazem os comportamentos primários de nossa espécie. Outros livros anteriores e igualmente importantes discutem este aspecto, como “Da natureza humana” de E. Wilson (1981) e “Armas, Germes e Aço” de J. Diamond (2005).

Um equívoco frequente a esta interpretação considera que tal abordagem pode levar a distorções tipo o “Darwinismo Social”, relevando assim a existência de “raças humanas” superiores em relação a outras, por exemplo. Wilson (1997), relata inclusive uma situação de agressão moral e física em um evento, logo após a divulgação de seus estudos sobre “sociobiologia” que inclui a espécie humana no contexto dos comportamentos de origem genética. Tal visão é totalmente equivocada, porque:

 

a). Não existem raças humanas, mas variações geográficas, como explicou o paleontólogo estadunidense Sephen J. Gould (1999) em seu livro “Darwin e os Grandes Enigmas da Vida”. Populações humanas saíram da África e se mantiveram isoladas em um tempo relativamente curto para mudanças mais significativas;

b). Os povos euroasiáticos desenvolveram uma cultura com maior potencial colonizador, devido basicamente a motivos geográficos que favoreceram o avanço da tecnologia bélica, a resistência e disseminação de patógenos, mais técnicas de metalurgia;

c). Vivendo mais isolados e em condições geográficas distintas, outros povos desenvolveram culturas diferentes, tendo de se ajustar a outras condições ambientais, produzindo assim sistemas culturais conforme suas necessidades sociais e econômicas (Diamond 2005);

d). Em suma, não existe uma cultura ou povo “superior ou inferior”, mas cada povo se ajustou às condições proporcionadas pelo ambiente que vivia;

 

Ao menos nas ciências naturais, expressões categóricas como “superior e inferior” foram banidas da linguagem técnica a tempos. Contudo, se de fato quisermos análises imparciais, mais abrangentes e sem idiossincrasias, uma alternativa é começar analisando os fundamentos de nossa espécie, ou o homem das cavernas que prevalece no interior de todos nós.

 

Referências.

Diamond, J. Armas, germes e aço: os destinos das sociedades humanas (7ª ed.). Rio de Janeiro-São Paulo: Editora Record, 2005.

Gould, S. J. Darwin e os grandes enigmas da vida. São Paulo: Editora Martins Fontes, 1999.

Harari, Y. N. Sapiens: uma breve história da humanidade (30ª ed.). Porto Alegre: Editora L&PM, 2017.

Harari, Y. N. 21 lições para o século 21. São Paulo: Editora Companhia das Letras, 2019.

Harari, Y. Wikipédia: a enciclopédia livre. 2024. Disponível em: < https://pt.wikipedia.org/wiki/Yuval_Harari > . Acesso em: 17-03-2024.

Wilson, E. O. Da natureza humana. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1981.

Wilson, E. O. Naturalista. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1997.


Daniel Blamires. Doutor em Ciências Ambientais. Docente UEG-Iporá.

Editado em 19-02-2025.


segunda-feira, 11 de março de 2024

Hipótese Gaia e um futuro preocupante. [Ecologia].

 


Uma das últimas publicações de James Lovelock traduzida para o português brasileiro. Fonte: Google Imagens.


Nos anos 1960, o simpático químico e matemático britânico James Ephraim Lovelock (1919-2022) formulou a polêmica Hipótese Gaia, onde a vida primitiva teria evoluído em interação com o ambiente físico, gerando condições reguladoras para evolução e permanência de organismos mais complexos, tal como os seres aeróbios e pluricelulares. Metaforicamente, esta hipótese enxerga a biosfera como um grande superorganismo, uma camada viva que distingue o planeta Terra dos demais que conhecemos até o momento. A hipótese de Lovelock pode ser distinta em dois tipos básicos:

a). Forte. Considera que os organismos de todas as espécies são importantes para regulação e manutenção da biosfera. Apresenta caráter mais metafórico e menos científico;

b). Fraca. Postula que organismos de algumas espécies podem ser importantes nos processos de regulação e manutenção da biosfera. Ao contrário da anterior, a hipótese fraca tem maior caráter científico.

A produção de dimetilsulfeto pelas algas oceânicas, uma substância importante para a formação de nuvens que refletem a luz solar e se precipitam na forma de chuvas, pode ser um provável exemplo da Hipótese Gaia em sua versão fraca. O modelo “mundo das margaridas (daisy world)” , que inicialmente considera um planeta frio dominado por margaridas escuras (absorvedoras de calor), mas vai esquentando com o aumento das populações e favorecendo cada vez mais margaridas brancas (refletoras de calor), gerou amplo debate na comunidade científica, talvez por seu aspecto simplista, ainda que muito claro e objetivo. Richard Dawkins (Reino Unido, 1941), também fez uma crítica sobre a evolução da biosfera segundo a hipótese de Lovelock, afirmando que o processo evolutivo acontece mediante a sucessão de gerações de descendentes ao longo do tempo.

Entretanto, um aspecto da Hipótese Gaia deveria provocar algum tipo de temor com relação ao futuro da humanidade, o qual merece destaque:

 

“Toda espécie que afeta adversamente o ambiente tende à extinção...”

 

Lovelock – o cientista que trabalhou na NASA por anos e descobriu o buraco na camada de ozônio - elaborou seu estudo com modelagens matemáticas, e em seu livro “A Vingança de Gaia”, ele infelizmente deixou um legado de conclusões apocalípticas sobre o futuro da humanidade nas próximas décadas, conforme o aumento do gás carbônico atmosférico e do calor, respectivamente. Estas conclusões são sintetizadas a seguir:

a). O aquecimento global já chegou a um ponto sem volta, devido ao grande acúmulo de CO2 atmosférico nestes últimos séculos, e a situação se tornará insuportável a partir de 2040;

b). A temperatura aumentará aproximadamente 60C até o final deste século, e 80% da população mundial morrerá de fome;

c). As populações humanas sobreviventes permanecerão em oásis isolados de clima ameno, como as regiões de maior altitude ou de latitude mais próxima aos polos, principalmente ao Norte, com mais superfície emersa. Devido ao isolamento, a complexa tecnologia que hoje conecta a humanidade será perdida, e assim os sobreviventes poderão retroceder a tempos primitivos;

d). A situação voltará a se estabilizar após cerca de 200 mil anos, um tempo muito longo para o Homo sapiens.

 

Esta opinião foi apresentada inicialmente no livro “A Vingança de Gaia”, causando ampla polêmica e discussão, sendo aparentemente apaziguada pelo próprio Lovelock em uma entrevista. Contudo, ele retrocedeu reforçando esta visão extrema em “Gaia: alerta final”, uma de suas últimas obras literárias traduzidas para o português. Neste último livro (vide imagem acima), o autor também ressalta que não serão tempos fáceis em lugar algum, porque mesmo nos “oásis térmicos” haverá muita instabilidade climática, tipo tempestades e enchentes.

Talvez o futuro segundo Lovelock seja uma visão extremista, mas de fato a temperatura global segue aumentando nas últimas décadas, e a humanidade deveria concebê-la agora com mais humildade para coibir imediatamente o desmatamento, a queima de combustíveis fósseis e o aumento das densidades populacionais humanas, e assim proteger mais as gerações futuras contra o inevitável aquecimento global. A conclusão imaginária em uma das últimas obras de Lovelock, abaixo, deveria servir como reflexão para que populações tão avessas, como o povo do Brasil Central fascinado pelo agronegócio latifundiário, aplicasse mais medidas de mitigação ambiental:

 

“Mais para o fim deste século os sobreviventes poderão chegar a um pequeno porto e desmontar seus camelos. Lá atracados, eles poderão ver um pequeno navio de madeira, arranhando sua lateral à medida que se move com as ondas suaves do oceano contra o muro tosco do porto. Uma brisa continua e mais fria promete um começo justo para a próxima parte perigosa da jornada rumo ao norte. O capitão nada diz quando os sobreviventes sobem a bordo da sua embarcação mas sabe que eles – os fortes de espírito e corpo cuja boa forma física paga o preço da viagem – foram selecionados pelo rigor quase intolerável do deserto.”

Lovelock (2010, p. 238).

 

Então, por amor às gerações futuras... Plantemos árvores, evitemos o desmatamento, sejamos mais minimalistas e controlemos o aumento das densidades populacionais humanas!

 

Referências:

Dawkins, R. Wikipédia, a enciclopédia livre. 2024. Disponível em: < https://pt.wikipedia.org/wiki/Richard_Dawkins > . Acesso em: 10-03-2024.

Kolbert, E. A sexta extinção: uma história não natural. Rio de Janeiro: Editora Intrínseca, 2015.

Lamarino, A. Este é o maior desafio da humanidade. 2022. Youtube. Disponível em: < https://www.youtube.com/watch?v=sgBF3XrJhvY > . Acesso em: 11-03-2024.

Lovelock, J. E. A Terra como um organismo vivo, p. 619-623. In: Wilson, E. O. & Peters, F. M. Biodiversidade. Rio de Janeiro. Editora Nova Fronteira, 1997.

Lovelock, J. E. The living Earth. Nature, v. 426, n. 18/25, p. 769-770, 2003.

Lovelock, J. E. Gaia: cura para um planeta doente. São Paulo: Editora Cultrix, 2006.

Lovelock, J. E. A vingança de Gaia. Rio de Janeiro: Editora Intrínseca, 2006.

Lovelock, J. E. Gaia: alerta final. Rio de Janeiro: Editora Intrínseca, 2010.

Lovelock, J. Wikipédia: a enciclopédia livre. 2023. Disponível em: < https://pt.wikipedia.org/wiki/James_Lovelock > . Acesso em: 10-03-2024.

Odum, E. P. Ecologia (Reimpressão). Rio de Janeiro: Editora Guanabara Koogan S.A., 2012

Schelp, D. Veja entrevista: James Lovelock. 2006. Arquivos de artigos etc. Disponível em: <https://arquivoetc.blogspot.com/2006/10/veja-entrevista-james-lovelock.html  > . Acesso em: 10-03-2024.

Wilson, E. O. O Futuro da Vida. Rio de Janeiro: Editora Campus, 2002.


Editado em 20-02-2025.

Daniel Blamires. Doutor em Ciências Ambientais. Docente UEG-Iporá.


domingo, 3 de março de 2024

Wolverine e Darwin: saltacionismo e gradualismo [Evolução Orgânica].

 


Wolverine no Japão lutando contra a máfia "Tentáculo". Fonte: Santiago (2022).


Wolverine é meu super-herói Marvel Comics preferido desde a adolescência. Um personagem fictício de origem canadense e também denominado Logan, nascido com um “fator de cura mutante” capaz de preservar sua vida mesmo nos ferimentos mais graves. Ninguém ao certo sabe sua idade, porque seu fator de cura o mantém salvo da velhice. É um personagem de temperamento difícil: rabugento, antissocial, explosivo e bom-de-briga acima do normal. Particularmente, o que sempre me chamou a atenção em Wolverine foi sua autonomia, ou capacidade de resolver a maioria dos problemas sozinho, e raramente pedir ajuda.

Este herói temperamental e eremita faz parte do grupo de “mutantes” com super-poderes denominados X-Men. Uma equipe liderada pelo sábio, paraplégico e paranormal mentor Charles Xavier. Todos os X-Men, bem como seus inimigos, tem algo em comum: nasceram de pais normais, mas possuem poderes “mutantes”, o que ao longo do enredo lhes confere vantagens super-humanas, mas muita discriminação pela maioria do povo e até mesmo grande parte das instituições. A saga de Wolverine e todos os seus demais amigos e inimigos, suscita muitas discussões filosóficas e sociais sobre preconceitos contra minorias, por exemplo. Eles também suscitam uma série de especulações evolutivas saltacionistas, pois são indivíduos que nasceram com “super-poderes” de uma geração para outra.

Agora, convém falar de outro grande herói, nascido no Reino Unido, apelidado por Fernandes (2005) como “O Eremita de Downie”, e chamado Charles Robert Darwin. Ao contrário de Wolverine, Darwin existiu de fato, sendo um dos gênios mais importantes na história da humanidade. Após desenvolver os fundamentos da biologia evolutiva junto ao jovem galês Alfred Russel Wallace, Darwin publicou sua monumental obra “Origem das Espécies” em 1859, confirmando uma das importantes premissas outrora postulada pelo naturalista francês Jean Baptiste de Monet - Chevalier de Lamarck:


“A evolução é um processo lento e gradual.”


Então Lamarck, Darwin e Wallace perceberam o gradualismo como o desenrolar da evolução orgânica ao longo do tempo. Na “origem das espécies” o autor tímido, doente e distante da sociedade descreve mais de uma vez a seguinte frase em latim, questionando o saltacionismo:


“Natura non facit saltum.”


“A natureza não facilita saltos”. Com admirável erudição, Darwin reforça o princípio de que não há evolução sem um longo tempo de mudanças nos atributos ao longo das gerações. Em suma, a chance de mutantes-super-poderosos nascerem a partir de apenas uma geração de progenitores é muito improvável na biosfera.

O distante Darwin e o ousado Wallace são heróis de fato, e hoje ambos fazem parte do meu panteão particular de referências. Wolverine, entretanto, fez parte de minha adolescência, e sempre estará comigo.


Referências:

Darwin. C.R. A origem das espécies. São Paulo: Editora Martin Claret, 2005.

Fernandez, F. O poema imperfeito: crônicas de biologia, conservação da natureza e seus heróis. Curitiba. Editora da UFPR, 2005.

Santiago, E. Conheça os maiores inimigos do Wolverine nos quadrinhos. Terra. 2022. Disponível em: < https://epipoca.com.br/conheca-os-maiores-inimigos-de-wolverine-nos-quadrinhos/ > . Acesso em: 03-03-2024.

Valva, F.D. & Diniz-Filho, J.A.F. Histórico do pensamento evolucionista, Número I. Goiânia: UFG-ICB, 1998. 

Wolverine. Wikipédia: a enciclopédia livre. Disponível em: < https://pt.wikipedia.org/wiki/Wolverine > . Acesso em: 03-03-2024.


Dr. Daniel Blamires. Docente UEG-Iporá.


Juntos pela biosfera. [Biologia da Conservação].

      Provavelmente Campo Cerrado. Senador Canedo-GO, março 1995. Foto do autor.   “I can hear the whole world singing together ...