Uma das últimas publicações de James Lovelock traduzida para o
português brasileiro. Fonte: Google Imagens.
Nos anos 1960, o simpático químico e matemático britânico James Ephraim Lovelock (1919-2022) formulou a polêmica Hipótese Gaia, onde a vida primitiva teria evoluído em interação com o ambiente físico, gerando condições reguladoras para evolução e permanência de organismos mais complexos, tal como os seres aeróbios e pluricelulares. Metaforicamente, esta hipótese enxerga a biosfera como um grande superorganismo, uma camada viva que distingue o planeta Terra dos demais que conhecemos até o momento. A hipótese de Lovelock pode ser distinta em dois tipos básicos:
a). Forte. Considera que os organismos
de todas as espécies são importantes para regulação e manutenção da biosfera.
Apresenta caráter mais metafórico e menos científico;
b). Fraca. Postula que organismos
de algumas espécies podem ser importantes nos processos de regulação e
manutenção da biosfera. Ao contrário da anterior, a hipótese fraca tem maior
caráter científico.
A produção de dimetilsulfeto
pelas algas oceânicas, uma substância importante para a formação de nuvens que
refletem a luz solar e se precipitam na forma de chuvas, pode ser um provável
exemplo da Hipótese Gaia em sua versão fraca. O modelo “mundo das margaridas (daisy world)” , que inicialmente
considera um planeta frio dominado por margaridas escuras (absorvedoras de
calor), mas vai esquentando com o aumento das populações e favorecendo cada vez
mais margaridas brancas (refletoras de calor), gerou amplo debate na comunidade
científica, talvez por seu aspecto simplista, ainda que muito
claro e objetivo. Richard Dawkins (Reino Unido, 1941), também fez uma crítica sobre
a evolução da biosfera segundo a hipótese de Lovelock, afirmando que o processo
evolutivo acontece mediante a sucessão de gerações de descendentes ao longo do
tempo.
Entretanto, um aspecto da
Hipótese Gaia deveria provocar algum tipo de temor com relação ao futuro da
humanidade, o qual merece destaque:
“Toda espécie que
afeta adversamente o ambiente tende à extinção...”
Lovelock – o cientista que
trabalhou na NASA por anos e descobriu o buraco na camada de ozônio - elaborou
seu estudo com modelagens matemáticas, e em seu livro “A Vingança de Gaia”, ele
infelizmente deixou um legado de conclusões apocalípticas sobre o futuro da
humanidade nas próximas décadas, conforme o aumento do gás carbônico
atmosférico e do calor, respectivamente. Estas conclusões são sintetizadas a seguir:
a). O aquecimento global já
chegou a um ponto sem volta, devido ao grande acúmulo de CO2
atmosférico nestes últimos séculos, e a situação se tornará insuportável a
partir de 2040;
b). A temperatura aumentará aproximadamente
60C até o final deste século, e 80% da população mundial morrerá de
fome;
c). As populações humanas
sobreviventes permanecerão em oásis isolados de clima ameno, como as regiões de
maior altitude ou de latitude mais próxima aos polos, principalmente ao Norte,
com mais superfície emersa. Devido ao isolamento, a complexa tecnologia que
hoje conecta a humanidade será perdida, e assim os sobreviventes poderão
retroceder a tempos primitivos;
d). A situação voltará a se
estabilizar após cerca de 200 mil anos, um tempo muito longo para o Homo sapiens.
Esta opinião foi apresentada inicialmente
no livro “A Vingança de Gaia”, causando ampla polêmica e discussão, sendo aparentemente
apaziguada pelo próprio Lovelock em uma entrevista. Contudo, ele retrocedeu reforçando
esta visão extrema em “Gaia: alerta final”, uma de suas últimas obras literárias
traduzidas para o português. Neste último livro (vide imagem acima), o autor
também ressalta que não serão tempos fáceis em lugar algum, porque mesmo nos “oásis
térmicos” haverá muita instabilidade climática, tipo tempestades e enchentes.
Talvez o futuro segundo Lovelock
seja uma visão extremista, mas de fato a temperatura global segue aumentando nas
últimas décadas, e a humanidade deveria concebê-la agora com mais humildade
para coibir imediatamente o desmatamento, a queima de combustíveis fósseis e o
aumento das densidades populacionais humanas, e assim proteger mais as gerações
futuras contra o inevitável aquecimento global. A conclusão imaginária em uma
das últimas obras de Lovelock, abaixo, deveria servir como reflexão para que
populações tão avessas, como o povo do Brasil Central fascinado pelo
agronegócio latifundiário, aplicasse mais medidas de mitigação ambiental:
“Mais para o fim deste século os
sobreviventes poderão chegar a um pequeno porto e desmontar seus camelos. Lá
atracados, eles poderão ver um pequeno navio de madeira, arranhando sua lateral
à medida que se move com as ondas suaves do oceano contra o muro tosco do
porto. Uma brisa continua e mais fria promete um começo justo para a próxima parte
perigosa da jornada rumo ao norte. O capitão nada diz quando os sobreviventes
sobem a bordo da sua embarcação mas sabe que eles – os fortes de espírito e
corpo cuja boa forma física paga o preço da viagem – foram selecionados pelo
rigor quase intolerável do deserto.”
Lovelock
(2010, p. 238).
Então, por amor às gerações
futuras... Plantemos árvores, evitemos o desmatamento, sejamos mais minimalistas e
controlemos o aumento das densidades populacionais humanas!
Referências:
Dawkins, R. Wikipédia, a enciclopédia livre. 2024. Disponível em: < https://pt.wikipedia.org/wiki/Richard_Dawkins
> . Acesso em: 10-03-2024.
Kolbert, E. A sexta extinção: uma história não natural. Rio de Janeiro: Editora
Intrínseca, 2015.
Lamarino, A. Este é o maior
desafio da humanidade. 2022. Youtube. Disponível
em: < https://www.youtube.com/watch?v=sgBF3XrJhvY > . Acesso em:
11-03-2024.
Lovelock, J. E. A Terra como um organismo vivo, p. 619-623. In: Wilson, E. O. & Peters, F. M. Biodiversidade. Rio de Janeiro. Editora Nova Fronteira, 1997.
Lovelock, J. E. The living Earth. Nature, v. 426, n. 18/25, p. 769-770, 2003.
Lovelock, J. E. Gaia: cura para um planeta doente. São
Paulo: Editora Cultrix, 2006.
Lovelock, J. E. A vingança de Gaia. Rio de Janeiro:
Editora Intrínseca, 2006.
Lovelock, J. E. Gaia: alerta final. Rio de Janeiro:
Editora Intrínseca, 2010.
Lovelock, J. Wikipédia: a enciclopédia livre. 2023. Disponível em: < https://pt.wikipedia.org/wiki/James_Lovelock
> . Acesso em: 10-03-2024.
Odum, E. P. Ecologia (Reimpressão). Rio de Janeiro: Editora Guanabara Koogan
S.A., 2012
Schelp, D. Veja entrevista: James
Lovelock. 2006. Arquivos de artigos etc.
Disponível em: <https://arquivoetc.blogspot.com/2006/10/veja-entrevista-james-lovelock.html > . Acesso em: 10-03-2024.
Wilson, E. O. O Futuro da Vida. Rio de Janeiro:
Editora Campus, 2002.
Editado em 20-02-2025.
Daniel Blamires. Doutor em Ciências Ambientais. Docente UEG-Iporá.

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