domingo, 17 de março de 2024

Sobre os fundamentos da espécie humana: uma sugestão para a disciplina “Diversidade, Cidadania e Direitos Humanos”. [DCDH].

 




Capa do livro “Sapiens”, obra destacada de Yuval Harari. Fonte: Google.


Leciono “Diversidade, cidadania e direitos humanos” para os calouros de Ciências Biológicas a cinco anos. Uma disciplina de humanidades, que aborda importantes concepções para aceitação da diversidade em todos os seus aspectos, postula os direitos e deveres de cada cidadão como meio de garantir o desenvolvimento e bem-estar de todos os compatriotas, bem como a importância da legislação para coibir conflitos e garantir que todos se sintam protegidos e notados em uma sociedade. Entretanto, o conteúdo proposto para esta disciplina parece desconsiderar que muitos problemas do Homo sapiens são fundamentados não necessariamente em narrativas sobre o desenrolar das sociedades, mas sim na própria natureza da espécie.

Então, muitos contratempos sociais e econômicos que sempre repercutiram na humanidade desde sua origem estão relacionados a costumes primitivos de fundo genético, os quais remontam a evolução de nossos ancestrais nas savanas africanas. Territorialidade, dúvidas sobre vida e morte, obsessão por ideologias, o patriarcalismo e o nepotismo, talvez sejam exemplos de comportamentos capazes de retroceder um povo até a vida ancestral nas cavernas, os quais remontam a biologia da humanidade.

Em “Sapiens” e “21 Lições para o Século 21”, o historiador israelense Yuval Noah Harari (2017) apresenta uma interessante abordagem sobre a história e perspectivas da humanidade, fundamentada não apenas em fatos históricos recentes, mas também na biologia de nossa espécie. De modo geral, o autor ressalta que:

 

a). O “real” do homem é sua natureza biológica caçadora-coletora, que evoluiu com o gênero Homo no continente africano, onde nossa espécie surgiu e permaneceu a maior parte de seu tempo;

b). A história começou a mudar com a evolução do cérebro humano criador de ficções simbólicas, sendo "ficções" tudo o que a humanidade credita, mas que não perfaz seu real biológico;

c). Neste sentido, a produção de ficções tipo hierarquias sociais complexas, religiões institucionalizadas, leis, dinheiro, moldaram a história do Homo sapiens a partir do neolítico;

d). O sucesso destas ficções levou à necessidade - e geração - de sistemas de processamento de dados complexos, como a escrita e a matemática.


Assim, provavelmente a maioria dos conflitos humanos passados e atualmente estão centrados nos antigos algoritmos do cérebro humano, cuja origem remonta os campos pleistocênicos da África, dentre os quais a territorialidade e o nepotismo. Tais comportamentos foram mascarados em narrativas tipo feudalismo, fascismo, nazismo, comunismo, macarthismo, entre tantas outras, mas no final perfazem os comportamentos primários de nossa espécie. Outros livros anteriores e igualmente importantes discutem este aspecto, como “Da natureza humana” de E. Wilson (1981) e “Armas, Germes e Aço” de J. Diamond (2005).

Um equívoco frequente a esta interpretação considera que tal abordagem pode levar a distorções tipo o “Darwinismo Social”, relevando assim a existência de “raças humanas” superiores em relação a outras, por exemplo. Wilson (1997), relata inclusive uma situação de agressão moral e física em um evento, logo após a divulgação de seus estudos sobre “sociobiologia” que inclui a espécie humana no contexto dos comportamentos de origem genética. Tal visão é totalmente equivocada, porque:

 

a). Não existem raças humanas, mas variações geográficas, como explicou o paleontólogo estadunidense Sephen J. Gould (1999) em seu livro “Darwin e os Grandes Enigmas da Vida”. Populações humanas saíram da África e se mantiveram isoladas em um tempo relativamente curto para mudanças mais significativas;

b). Os povos euroasiáticos desenvolveram uma cultura com maior potencial colonizador, devido basicamente a motivos geográficos que favoreceram o avanço da tecnologia bélica, a resistência e disseminação de patógenos, mais técnicas de metalurgia;

c). Vivendo mais isolados e em condições geográficas distintas, outros povos desenvolveram culturas diferentes, tendo de se ajustar a outras condições ambientais, produzindo assim sistemas culturais conforme suas necessidades sociais e econômicas (Diamond 2005);

d). Em suma, não existe uma cultura ou povo “superior ou inferior”, mas cada povo se ajustou às condições proporcionadas pelo ambiente que vivia;

 

Ao menos nas ciências naturais, expressões categóricas como “superior e inferior” foram banidas da linguagem técnica a tempos. Contudo, se de fato quisermos análises imparciais, mais abrangentes e sem idiossincrasias, uma alternativa é começar analisando os fundamentos de nossa espécie, ou o homem das cavernas que prevalece no interior de todos nós.

 

Referências.

Diamond, J. Armas, germes e aço: os destinos das sociedades humanas (7ª ed.). Rio de Janeiro-São Paulo: Editora Record, 2005.

Gould, S. J. Darwin e os grandes enigmas da vida. São Paulo: Editora Martins Fontes, 1999.

Harari, Y. N. Sapiens: uma breve história da humanidade (30ª ed.). Porto Alegre: Editora L&PM, 2017.

Harari, Y. N. 21 lições para o século 21. São Paulo: Editora Companhia das Letras, 2019.

Harari, Y. Wikipédia: a enciclopédia livre. 2024. Disponível em: < https://pt.wikipedia.org/wiki/Yuval_Harari > . Acesso em: 17-03-2024.

Wilson, E. O. Da natureza humana. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1981.

Wilson, E. O. Naturalista. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1997.


Daniel Blamires. Doutor em Ciências Ambientais. Docente UEG-Iporá.

Editado em 19-02-2025.


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