Capa do livro “Sapiens”, obra destacada de Yuval Harari. Fonte: Google.
Leciono “Diversidade, cidadania e
direitos humanos” para os calouros de Ciências Biológicas a cinco anos. Uma
disciplina de humanidades, que aborda importantes concepções para aceitação da
diversidade em todos os seus aspectos, postula os direitos e deveres de cada
cidadão como meio de garantir o desenvolvimento e bem-estar de todos os
compatriotas, bem como a importância da legislação para coibir conflitos e
garantir que todos se sintam protegidos e notados em uma sociedade. Entretanto,
o conteúdo proposto para esta disciplina parece desconsiderar que muitos problemas
do Homo sapiens são fundamentados não
necessariamente em narrativas sobre o desenrolar das sociedades, mas sim na
própria natureza da espécie.
Então, muitos contratempos sociais e
econômicos que sempre repercutiram na humanidade desde sua origem estão
relacionados a costumes primitivos de fundo genético, os quais remontam a
evolução de nossos ancestrais nas savanas africanas. Territorialidade, dúvidas sobre vida e morte, obsessão por ideologias, o patriarcalismo e o
nepotismo, talvez sejam exemplos de comportamentos capazes de retroceder um
povo até a vida ancestral nas cavernas, os quais remontam a biologia da humanidade.
Em “Sapiens” e “21 Lições para o
Século 21”, o historiador israelense Yuval Noah Harari (2017) apresenta uma
interessante abordagem sobre a história e perspectivas da humanidade,
fundamentada não apenas em fatos históricos recentes, mas também na biologia de
nossa espécie. De modo geral, o autor ressalta que:
a). O “real” do homem é sua natureza biológica caçadora-coletora, que evoluiu com o gênero Homo no continente africano,
onde nossa espécie surgiu e permaneceu a maior parte de seu tempo;
b). A história começou a mudar
com a evolução do cérebro humano criador de ficções simbólicas, sendo "ficções" tudo o que a humanidade credita, mas que não perfaz seu real biológico;
c). Neste sentido, a produção de ficções
tipo hierarquias sociais complexas, religiões institucionalizadas, leis,
dinheiro, moldaram a história do Homo
sapiens a partir do neolítico;
d). O sucesso destas ficções levou à necessidade - e geração - de sistemas de processamento de dados complexos, como a escrita e a matemática.
Assim, provavelmente a maioria dos conflitos humanos passados e atualmente estão centrados nos
antigos algoritmos do cérebro humano, cuja origem remonta os campos
pleistocênicos da África, dentre os quais a territorialidade e o nepotismo.
Tais comportamentos foram mascarados em narrativas tipo feudalismo,
fascismo, nazismo, comunismo, macarthismo, entre tantas outras, mas no final perfazem os
comportamentos primários de nossa espécie. Outros livros anteriores e
igualmente importantes discutem este aspecto, como “Da natureza humana” de E.
Wilson (1981) e “Armas, Germes e Aço” de J. Diamond (2005).
Um equívoco frequente a esta
interpretação considera que tal abordagem pode levar a distorções tipo o
“Darwinismo Social”, relevando assim a existência de “raças humanas” superiores em
relação a outras, por exemplo. Wilson (1997), relata inclusive uma situação de agressão
moral e física em um evento, logo após a divulgação de seus estudos sobre
“sociobiologia” que inclui a espécie humana no contexto dos comportamentos de origem genética. Tal visão é
totalmente equivocada, porque:
a). Não existem raças humanas, mas
variações geográficas, como explicou o paleontólogo estadunidense Sephen J.
Gould (1999) em seu livro “Darwin e os Grandes Enigmas da Vida”. Populações humanas
saíram da África e se mantiveram isoladas em um tempo relativamente curto
para mudanças mais significativas;
b). Os povos euroasiáticos
desenvolveram uma cultura com maior potencial colonizador, devido basicamente a
motivos geográficos que favoreceram o avanço da tecnologia bélica, a
resistência e disseminação de patógenos, mais técnicas de metalurgia;
c). Vivendo mais isolados e em condições geográficas distintas, outros povos desenvolveram culturas diferentes, tendo de se ajustar a outras condições ambientais, produzindo assim sistemas culturais conforme suas necessidades sociais e econômicas (Diamond 2005);
d). Em suma, não existe uma cultura
ou povo “superior ou inferior”, mas cada povo se ajustou às condições
proporcionadas pelo ambiente que vivia;
Ao menos nas ciências naturais,
expressões categóricas como “superior e inferior” foram banidas da linguagem
técnica a tempos. Contudo, se de fato quisermos análises imparciais, mais
abrangentes e sem idiossincrasias, uma alternativa é começar analisando os
fundamentos de nossa espécie, ou o homem das cavernas que prevalece no interior
de todos nós.
Referências.
Diamond, J. Armas, germes e aço: os destinos das sociedades humanas (7ª ed.).
Rio de Janeiro-São Paulo: Editora Record, 2005.
Gould, S. J. Darwin e os grandes enigmas da vida. São Paulo: Editora Martins
Fontes, 1999.
Harari, Y. N. Sapiens: uma breve história da humanidade
(30ª ed.). Porto Alegre: Editora L&PM, 2017.
Harari, Y. N. 21 lições para o século 21. São Paulo:
Editora Companhia das Letras, 2019.
Harari, Y. Wikipédia: a enciclopédia livre. 2024. Disponível em: < https://pt.wikipedia.org/wiki/Yuval_Harari
> . Acesso em: 17-03-2024.
Wilson, E. O. Da natureza humana. São Paulo: Editora
da Universidade de São Paulo, 1981.
Wilson, E. O. Naturalista. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1997.
Daniel Blamires. Doutor em Ciências Ambientais. Docente UEG-Iporá.
Editado em 19-02-2025.

Nenhum comentário:
Postar um comentário