sábado, 27 de setembro de 2025

Aos discentes das cidades próximas. [Orientações].

 


 

Praça Inácio de Melo. Município de Arenópolis, noroeste goiano. Foto: Autor, 11-10-2019.

 

Prezados alunos, saudações! Esta postagem segue como propaganda das minhas atividades de pesquisa, destinada principalmente aos alunos residentes nos municípios adjacentes a Iporá. Caso tenham interesse, sigo à disposição como orientador. Em 2025 celebrei 24 anos de atividades de pesquisa em Iporá. Orientei vários estudos, sobretudo em ecologia de aves - com várias publicações subsequentes - grande parte das quais com ornitologia urbana (ver revisão em Blamires 2022).

Nos últimos anos, também estudamos aves urbanas em outros municípios. Inicialmente, uma pesquisa foi efetuada em Arenópolis, rendendo três Trabalhos de Curso e um artigo publicado em periódico científico, assinado por todos os autores (Cardoso et al. 2022). Anos depois, outra monografia foi produzida com dados coletados em Diorama, cidade também do noroeste goiano circunvizinha a Iporá, com um capítulo de livro na produção final (Ribeiro & Blamires 2024, Figura 1).

 


Figura 1. Centro da malha urbana municipal de Diorama, noroeste goiano. Foto: Autor, 25-03-2023.


Atualmente, tenho cada vez menos áreas de pesquisa na malha urbana iporaense, devido a quase duas décadas e meia de pesquisas científicas nesta paisagem. No momento que escrevo, estou preparando alguns projetos, um dos quais talvez seja o último com ornitologia urbana em Iporá. Então, penso que nos anos seguintes só me restará a zona rural deste município, onde resido atualmente. Ademais, prefiro trabalhar em ambiente urbano por três motivos básicos: segurança, praticidade e baixos custos.

Assim, prezados alunos de outras cidades, ofereço minha orientação a vocês, moradores dos municípios distantes até cerca de 100km do trevo de Iporá, como dizem os motoristas. Posso ir de carro próprio, bancar todas as minhas despesas de viagem, não transferindo assim custos aos discentes. Por outro lado, tenho a grata satisfação de afirmar que, nestes últimos dez anos meus orientados saíram de nosso curso com ao menos um trabalho publicado, com poucas exceções.

Também me interesso por pesquisas com aves urbanas no interior goiano, considerando o grande déficit destes estudos nesta paisagem (Escobar-Ibañez & MacGregor-Fors 2017). Em suma, caros alunos das cidades circunvizinhas, se interessarem procurem-me para planejarmos algum projeto, trabalho de curso, e até mesmo iniciação científica. É possível, desde que planejemos previamente todas as atividades. 

Abraços a todos!


Referências

Blamires, D. Aves Urbanas de Iporá, estado de Goiás: baseado em 11 inventários avifaunísticos na malha urbana municipal, 1ª. edição. São José dos Pinhais: Brazilian Journals, 2022. DOI: 10.35587/brj.ed.0001822

Cardoso, A. B., Alves, J. S., Freitas, N. Q., Blamires, D. Avifauna urbana de Arenópolis, estado de Goiás. Revista Mirante, v. 15, n. 1, p. 109-131, 2022.

Escobar-Ibañez, J. F. & MacGregor-Fors, I. What’s New? An Updated Review of Avian Ecology in Urban Latin America. In: MacGregor-Fors, I., Escobar-Ibañez, J. F (Orgs). Avian Ecology in Latin American Cityscapes. Switzerland, 2017, p. 11-31.

Ribeiro, G. S., Blamires, D. Urban Bird Fauna in Diorama, state of Goiás. In: Catapan, D. (Org.). Approaches to environmental, social and corporate governance. 1° edition. São José dos Pinhais: Brazilian Journals, 2024, v. 1, p. 50-69.

 

Daniel Blamires. Doutor Ciências Ambientais. Docente UEG-Iporá.

terça-feira, 9 de setembro de 2025

O voo de Dédalos: hipótese do forrageio ótimo. [Ecologia].

 



Música Flight of Icarus, de Iron Maiden.


Prezados alunos, há anos que vez ou outra me pego saindo dos protocolos, e comentando sobre alguma música do Iron Maiden (donzela-de-ferro, numa tradução livre): uma das minhas bandas preferidas! Ouvir bandas musicais do Reino Unido faz parte de minha rotina.

Antes de prosseguir, só gostaria de ressaltar que a banda Iron Maiden, apesar de sua roupagem assustadora para nossos padrões centro-brasileiros-conservadores, compõe letras musicais focadas em fatos históricos, filosofia, literatura, poesia, mais outras grandes joias da cultura mundial (Fragoso 2025). Dentre estas, Flight of Icarus (“Voo de Ícaro”, TL, Iron Maiden 2015), narra um trecho da mitologia helenística sobre o voo bem-sucedido de Dédalos - nem tão próximo ao Sol mas longe da superfície - e o fracasso de seu filho Ícaro, ao voar muito alto, e perder suas asas para o calor solar (Selvarajoo 2025).

Estudar mitologias é importante para reconstituir o modo como, no passado, um povo enxergava o mundo (Silva 2025). Neste sentido, sempre me lembro do voo de Dédalos ao explicar o princípio matemático da otimização (Castro & Meneghetti 2025), ou o ponto ótimo entre as variáveis custo e benefício (Figura 1). Chego a pensar que sábios helenistas, os quais na antiguidade misturavam costumeiramente lógica com teocracia, já estavam a par desta importante relação, e projetaram isto no voo mitológico de Dédalos.

 



 

Figura 1. Otimização entre as variáveis custo e benefício. Observação pessoal.

 

A sombra do voo prudente de Dédalos também passou pela ecologia, a “economia da natureza", na relação predador-presa (ver reflexão sobre tal expressão em Ricklefs 2009). Segundo Pianka (1994), a hipótese do forrageamento ótimo envolve as formas pelas quais os animais ganham matéria e energia. Assim, o forrageamento ótimo pode ser considerado uma otimização entre dois extremos (Figura 2):

 

a). Alta produtividade para obtenção de presas, com grande consumo de energia e tempo;

b). Baixa produtividade na obtenção de presas, mas baixo consumo de energia e tempo.

 



 

Figura 2. Hipótese do forrageamento ótimo, conforme descrição em Pianka (1994).


Pianka (1994), presume que a seleção natural favoreceria um forrageamento otimizado. A seguir, especulemos um forrageamento rotineiro de onças em uma paisagem (Figura 3). Antas seriam presas com alta produtividade, mas grande consumo de energia e tempo. Ratos, por outro lado, seriam presas de baixa produtividade para obtenção, mas também baixo consumo de energia e tempo. Neste caso, talvez pacas (porte mediano), seriam um ponto ótimo entre estes dois extremos.

 

 



 

Figura 3. Exemplo idealizado de forrageamento ótimo de onças em uma paisagem.

 

Pois é... Aquele ditado famoso, “a vida imita a arte”, parece aflorar muitas vezes no que denominamos plano real. Sem longas, para aqueles que como eu apreciam a fantástica conjugação guitarras-bateria da donzela-de-ferro, sugiro apreciarem o vídeo. Abraços a todos!

 

Referências.

Castro, S., Meneghetti, M. Otimização x otimização matemática: resultados melhores são resultados ótimos? Zinekke. 2025. Disponível em: < https://www.zinneke.com.br/otimizacao-x-otimizacao-matematica-resultados-melhores-sao-resultados-otimos > . Acesso em: 09-09-2025.

Fragoso, C. As letras extraordinárias do Iron Maiden. 2025. Disponível em: < https://www.youtube.com/shorts/ERRAWfvFIY0 > . Acesso em: 09-09-2025.

Iron Maiden. 2015. Flight of Icarus. Disponível em: < https://www.youtube.com/watch?v=p4w2BZXL6Ss > . Acesso em: 09-09-2025.

Pianka, E. R. Evolutionary Ecology, fifth edition. New York: HarperCollins College Publishers, 1994.

Ricklefs, R. E. A economia da natureza, quinta edição. Rio de Janeiro: Editora Guanabara-Koogan, 2009.

Selvarajoo, R. Check your elevation and stick to the flight plan. 2018. Disponível em: < https://www.mql5.com/en/blogs/post/717849 >. Acesso em: 09-09-2025. 2018.

Silva, D. N. Mitologia. Brasil Escola. 2025. Disponível em: < https://brasilescola.uol.com.br/mitologia. >.  Acesso em 09-09- 2025.


Daniel Blamires. Doutor Ciências Ambientais. Docente UEG-Iporá.


segunda-feira, 1 de setembro de 2025

Competição e estruturação das comunidades. [Ecologia].


 

Projeção (slide). Aula sobre “influência da competição na estruturação das comunidades". Fonte: Autor; atualização em 27-08-2025.

 

De volta ao tempo! Ao lecionar este assunto, sempre recordo do que ouvi da Professora Maria Alice dos Santos Alves, membro de minha banca de defesa no mestrado- UFG Goiânia, em fevereiro-2001. Ao comentar sobre um trecho da discussão onde ressaltei competição, ela me advertiu: “...Você é muito categórico!...”

Jamais esqueci esse alerta... A professora, com doutorado no Reino Unido e à época docente na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), me corrigiu que, para concluir algo sobre competição, era necessário um estudo meticuloso e amplo para evitar especulações. Ela ainda ressaltou que muito poucos estudos realmente demonstraram a influência da competição, dentre os quais o trabalho da equipe de James Brown, no sudoeste estadunidense, com roedores de deserto (Bowers et al. 1987).

Poucos anos depois, durante meu curso de doutorado e também enquanto eu estudava para o concurso docente-UEG – cargo que ocupo até hoje – encontrei este tema mais detalhado em Pinto-Coelho (2000). E assim tenho repassado este assunto a vocês, caros alunos, com revisões, alguns acréscimos e até reflexões em sala-de-aula, ao longo destes anos.

Mas afinal, o que é competição? Em minha própria revisão ecológica, eu defino como:

 

“Tipo de interação onde duas ou mais populações exploram um recurso em escassez. Todas as populações competidoras estão sujeitas a impactos negativos. (Blamires 2023, p. 46- Glossário)."

 

Apesar de ser um assunto bastante atraente, a ideia de competição parece levar muitos naturalistas a idiossincrasias, sobretudo a partir de rotinas em campo. Contudo, ainda são insuficientes os estudos que de fato demonstrem o papel da competição, por exemplo, na estruturação das comunidades. E reiterando, esta postagem segue basicamente a revisão de Pinto-Coelho (2000).

A competição interespecífica, entre populações de espécies diferentes (Begon et al. 2007), seria uma provável razão para explicar a estruturação das comunidades. Contudo, inicialmente as comunidades avaliadas pelos ecólogos podem não ser típicas. Por exemplo, insetos fitófagos representam aproximadamente 25% de todos os seres vivos conhecidos. Segundo Wilson (2015), são conhecidas mais espécies de Coleoptera (besouros) do que qualquer outro grupo comparável de organismos no mundo. Apesar desta proporção significativa, existem poucos trabalhos sobre competição em insetos fitófagos.

Outro aspecto importante é a premissa de que, muitos estudos onde a competição foi rejeitada, simplesmente não foram publicados. Assim, muitos pesquisadores simplesmente podem ter decidido não publicar os trabalhos, ao constatar a irrelevância da competição. Mas, caros alunos, como sempre tenho ressaltado em sala de aula.... Por quê todos os trabalhos devem estar conforme o esperado?

Se por exemplo, durante as análises para seus trabalhos de curso, vocês empregarem adequadamente o respectivo procedimento científico, mas obtiverem um resultado distinto do esperado... Talvez seus resultados estejam, na verdade, quebrando um paradigma! Então pessoal, eu que sempre fui teimoso, prefiro pensar que: “não chegar a um resultado esperado, é um resultado que deve ser apresentado aos pares”. Neste caso, por exemplo, talvez a ideia de competição seja majoritariamente outra moda idiossincrática tomada como verdade científica.

Ademais, sempre existem explicações alternativas à competição, tipo as cinco espécies de camarões Gamarus spp. no mar da costa dinamarquesa. Tais espécies se sucedem ao longo de um gradiente crescente de salinidade. Este padrão de distribuição, inicialmente, parece uma consequência da competição interespecífica. Contudo, em laboratório foi demonstrado que acasalamentos interespecíficos podem gerar híbridos estéreis, sugerindo uma distribuição espacial, devido provavelmente à evolução parcial do isolamento reprodutivo, ou especiação parapátrica.

Em suma, a competição interespecífica sempre pode advir como interessante hipótese na estruturação das comunidades. Contudo, muitos estudos são necessários para confirmar sua influência entre diferentes populações interatuantes, sendo imprescindível cautela com afirmações categóricas. Divulgar estudos com resultados distintos do esperado, também pode ser um modo de reafirmar a magnitude do método científico, frente as sempre presentes armadilhas da moda.

 

Referências


Begon, M., Townsend, C. R., Harper, J. L. Ecologia: de indivíduos a ecossistemas, 4ª edição. Porto Alegre: ARTMED. 2007.

Blamires, D. Ecologia no quadro: temas ecológicos com figuras manuscritas. São José dos Pinhais: Brazilian Journals, 2023. DOI: 10.35587/brj.ed.0002193

Bowers, M. A., Thompson, D. B., Brown, J. H. Spatial organization of a desert rodent community: food addition and species removal. Oecologia, 72: 77-82, 1987.

Pinto-Coelho, R. M. Fundamentos em ecologia. Porto Alegre: ARTMED, 2000.

Wilson, E. O. Cartas a um jovem cientista. São Paulo: Editora Companhia das Letras, 2015.


Daniel Blamires. Doutor Ciências Ambientais. Docente UEG-Iporá.

 

 

Juntos pela biosfera. [Biologia da Conservação].

      Provavelmente Campo Cerrado. Senador Canedo-GO, março 1995. Foto do autor.   “I can hear the whole world singing together ...