segunda-feira, 1 de setembro de 2025

Competição e estruturação das comunidades. [Ecologia].


 

Projeção (slide). Aula sobre “influência da competição na estruturação das comunidades". Fonte: Autor; atualização em 27-08-2025.

 

De volta ao tempo! Ao lecionar este assunto, sempre recordo do que ouvi da Professora Maria Alice dos Santos Alves, membro de minha banca de defesa no mestrado- UFG Goiânia, em fevereiro-2001. Ao comentar sobre um trecho da discussão onde ressaltei competição, ela me advertiu: “...Você é muito categórico!...”

Jamais esqueci esse alerta... A professora, com doutorado no Reino Unido e à época docente na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), me corrigiu que, para concluir algo sobre competição, era necessário um estudo meticuloso e amplo para evitar especulações. Ela ainda ressaltou que muito poucos estudos realmente demonstraram a influência da competição, dentre os quais o trabalho da equipe de James Brown, no sudoeste estadunidense, com roedores de deserto (Bowers et al. 1987).

Poucos anos depois, durante meu curso de doutorado e também enquanto eu estudava para o concurso docente-UEG – cargo que ocupo até hoje – encontrei este tema mais detalhado em Pinto-Coelho (2000). E assim tenho repassado este assunto a vocês, caros alunos, com revisões, alguns acréscimos e até reflexões em sala-de-aula, ao longo destes anos.

Mas afinal, o que é competição? Em minha própria revisão ecológica, eu defino como:

 

“Tipo de interação onde duas ou mais populações exploram um recurso em escassez. Todas as populações competidoras estão sujeitas a impactos negativos. (Blamires 2023, p. 46- Glossário)."

 

Apesar de ser um assunto bastante atraente, a ideia de competição parece levar muitos naturalistas a idiossincrasias, sobretudo a partir de rotinas em campo. Contudo, ainda são insuficientes os estudos que de fato demonstrem o papel da competição, por exemplo, na estruturação das comunidades. E reiterando, esta postagem segue basicamente a revisão de Pinto-Coelho (2000).

A competição interespecífica, entre populações de espécies diferentes (Begon et al. 2007), seria uma provável razão para explicar a estruturação das comunidades. Contudo, inicialmente as comunidades avaliadas pelos ecólogos podem não ser típicas. Por exemplo, insetos fitófagos representam aproximadamente 25% de todos os seres vivos conhecidos. Segundo Wilson (2015), são conhecidas mais espécies de Coleoptera (besouros) do que qualquer outro grupo comparável de organismos no mundo. Apesar desta proporção significativa, existem poucos trabalhos sobre competição em insetos fitófagos.

Outro aspecto importante é a premissa de que, muitos estudos onde a competição foi rejeitada, simplesmente não foram publicados. Assim, muitos pesquisadores simplesmente podem ter decidido não publicar os trabalhos, ao constatar a irrelevância da competição. Mas, caros alunos, como sempre tenho ressaltado em sala de aula.... Por quê todos os trabalhos devem estar conforme o esperado?

Se por exemplo, durante as análises para seus trabalhos de curso, vocês empregarem adequadamente o respectivo procedimento científico, mas obtiverem um resultado distinto do esperado... Talvez seus resultados estejam, na verdade, quebrando um paradigma! Então pessoal, eu que sempre fui teimoso, prefiro pensar que: “não chegar a um resultado esperado, é um resultado que deve ser apresentado aos pares”. Neste caso, por exemplo, talvez a ideia de competição seja majoritariamente outra moda idiossincrática tomada como verdade científica.

Ademais, sempre existem explicações alternativas à competição, tipo as cinco espécies de camarões Gamarus spp. no mar da costa dinamarquesa. Tais espécies se sucedem ao longo de um gradiente crescente de salinidade. Este padrão de distribuição, inicialmente, parece uma consequência da competição interespecífica. Contudo, em laboratório foi demonstrado que acasalamentos interespecíficos podem gerar híbridos estéreis, sugerindo uma distribuição espacial, devido provavelmente à evolução parcial do isolamento reprodutivo, ou especiação parapátrica.

Em suma, a competição interespecífica sempre pode advir como interessante hipótese na estruturação das comunidades. Contudo, muitos estudos são necessários para confirmar sua influência entre diferentes populações interatuantes, sendo imprescindível cautela com afirmações categóricas. Divulgar estudos com resultados distintos do esperado, também pode ser um modo de reafirmar a magnitude do método científico, frente as sempre presentes armadilhas da moda.

 

Referências


Begon, M., Townsend, C. R., Harper, J. L. Ecologia: de indivíduos a ecossistemas, 4ª edição. Porto Alegre: ARTMED. 2007.

Blamires, D. Ecologia no quadro: temas ecológicos com figuras manuscritas. São José dos Pinhais: Brazilian Journals, 2023. DOI: 10.35587/brj.ed.0002193

Bowers, M. A., Thompson, D. B., Brown, J. H. Spatial organization of a desert rodent community: food addition and species removal. Oecologia, 72: 77-82, 1987.

Pinto-Coelho, R. M. Fundamentos em ecologia. Porto Alegre: ARTMED, 2000.

Wilson, E. O. Cartas a um jovem cientista. São Paulo: Editora Companhia das Letras, 2015.


Daniel Blamires. Doutor Ciências Ambientais. Docente UEG-Iporá.

 

 

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