Projeção (slide). Aula sobre “influência da competição na estruturação
das comunidades". Fonte: Autor; atualização em 27-08-2025.
De volta ao
tempo! Ao lecionar este assunto, sempre recordo do que ouvi da Professora Maria
Alice dos Santos Alves, membro de minha banca de defesa no mestrado- UFG Goiânia,
em fevereiro-2001. Ao comentar sobre um trecho da discussão onde ressaltei competição,
ela me advertiu: “...Você é muito categórico!...”
Jamais esqueci esse alerta... A professora, com doutorado no Reino
Unido e à época docente na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), me corrigiu que, para concluir algo sobre competição, era necessário um estudo meticuloso
e amplo para evitar especulações. Ela ainda ressaltou que muito poucos estudos
realmente demonstraram a influência da competição, dentre os quais o trabalho
da equipe de James Brown, no sudoeste estadunidense, com roedores de deserto
(Bowers et al. 1987).
Poucos anos depois, durante meu
curso de doutorado e também enquanto eu estudava para o concurso docente-UEG –
cargo que ocupo até hoje – encontrei este tema mais detalhado em Pinto-Coelho (2000).
E assim tenho repassado este assunto a vocês, caros alunos, com revisões,
alguns acréscimos e até reflexões em sala-de-aula, ao longo destes anos.
Mas afinal, o que é competição?
Em minha própria revisão ecológica, eu defino como:
“Tipo
de interação onde duas ou mais populações exploram um recurso em escassez.
Todas as populações competidoras estão sujeitas a impactos negativos. (Blamires
2023, p. 46- Glossário)."
Apesar de ser um assunto bastante
atraente, a ideia de competição parece levar muitos naturalistas a idiossincrasias,
sobretudo a partir de rotinas em campo. Contudo, ainda são insuficientes os
estudos que de fato demonstrem o papel da competição, por exemplo, na
estruturação das comunidades. E reiterando, esta postagem segue basicamente a
revisão de Pinto-Coelho (2000).
A competição interespecífica,
entre populações de espécies diferentes (Begon et al. 2007), seria uma provável razão para explicar a estruturação
das comunidades. Contudo, inicialmente as comunidades avaliadas pelos ecólogos
podem não ser típicas. Por exemplo, insetos fitófagos representam aproximadamente 25%
de todos os seres vivos conhecidos. Segundo Wilson (2015), são conhecidas mais espécies
de Coleoptera (besouros) do que qualquer outro grupo comparável de
organismos no mundo. Apesar desta proporção significativa, existem poucos
trabalhos sobre competição em insetos fitófagos.
Outro aspecto importante é a
premissa de que, muitos estudos onde a competição foi rejeitada, simplesmente
não foram publicados. Assim, muitos pesquisadores simplesmente podem ter decidido
não publicar os trabalhos, ao constatar a irrelevância da competição. Mas,
caros alunos, como sempre tenho ressaltado em sala de aula.... Por quê todos os
trabalhos devem estar conforme o esperado?
Se por exemplo, durante as análises
para seus trabalhos de curso, vocês empregarem adequadamente o respectivo
procedimento científico, mas obtiverem um resultado distinto do esperado...
Talvez seus resultados estejam, na verdade, quebrando um paradigma! Então pessoal, eu que sempre fui teimoso, prefiro pensar que: “não chegar a um
resultado esperado, é um resultado que deve ser apresentado aos pares”. Neste
caso, por exemplo, talvez a ideia de competição seja majoritariamente outra
moda idiossincrática tomada como verdade científica.
Ademais, sempre existem explicações
alternativas à competição, tipo as cinco espécies de camarões Gamarus spp. no mar da costa
dinamarquesa. Tais espécies se sucedem ao longo de um gradiente crescente de
salinidade. Este padrão de distribuição, inicialmente, parece uma consequência
da competição interespecífica. Contudo, em laboratório foi demonstrado que acasalamentos
interespecíficos podem gerar híbridos estéreis, sugerindo uma distribuição
espacial, devido provavelmente à evolução parcial do isolamento reprodutivo, ou
especiação parapátrica.
Em suma, a competição
interespecífica sempre pode advir como interessante hipótese na
estruturação das comunidades. Contudo, muitos estudos são necessários para
confirmar sua influência entre diferentes populações interatuantes, sendo imprescindível cautela com afirmações categóricas. Divulgar estudos com resultados
distintos do esperado, também pode ser um modo de reafirmar a magnitude do método
científico, frente as sempre presentes armadilhas da moda.
Referências
Begon, M., Townsend, C. R.,
Harper, J. L. Ecologia: de indivíduos a
ecossistemas, 4ª edição. Porto
Alegre: ARTMED. 2007.
Blamires, D. Ecologia no quadro: temas ecológicos com figuras manuscritas. São José dos Pinhais: Brazilian Journals, 2023. DOI: 10.35587/brj.ed.0002193
Bowers, M. A., Thompson, D. B., Brown, J. H.
Spatial organization of a desert rodent community: food addition and species
removal. Oecologia, 72: 77-82,
1987.
Pinto-Coelho, R. M. Fundamentos em ecologia. Porto Alegre:
ARTMED, 2000.
Wilson, E. O. Cartas a um jovem cientista. São Paulo: Editora Companhia das Letras, 2015.
Daniel Blamires. Doutor Ciências
Ambientais. Docente UEG-Iporá.
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