segunda-feira, 23 de junho de 2025

Democracia: a ficção que salva. [DCDH].

 

 



 

Capa de Lopes (2021). Fonte: Amazon Kindle. Acesso em: 22-06-2025.

 

“(...). ...sim, ele também é importante para a ligação terna entre mãe e bebê; e sim, ele ajuda as pessoas a sentirem afeto e empatia pelos que estão a seu redor. Mas — e esse é aquele ‘mas’ capaz de quebrar as pernas do roteirista de ficção científica — a oxitocina promove esse caminhão de ternura de forma seletiva, voltada para os indivíduos a quem o sujeito ou a sujeita já está unido ou unida por laços sociais. Para usar termos que vão reaparecer o tempo todo em capítulos vindouros, a oxitocina foi forjada pela evolução por facilitar as relações com o grupo interno, ao qual a gente pertence, e não com o grupo externo — todo o resto do mundo, basicamente. Pior ainda, há indícios experimentais de que inalar oxitocina torna as pessoas mais intolerantes com membros de um grupo externo. (...). Resumindo, descrever a oxitocina como a molécula do Sermão da Montanha ou do Amor Universal da Era de Aquário é um erro crasso. Ela está mais para o hormônio ‘Brasil: Ame-o ou Deixe-o’ (ou equivalentes de outras nações, partidos, tribos, culturas, times de futebol) — com todas as possibilidades sombrias que a lealdade cega é capaz de trazer. (Lopes 2021, p. 120-121).”

 

Segundo Harari (2017), o “real” do homem é sua natureza caçadora-coletora, que evoluiu com nosso gênero Homo na África, sendo todos os demais aspectos comportamentais considerados “ficções”. Wilson (2013) é ainda mais abrangente, ressaltando que a chave para as origens da condição humana será encontrada na evolução da vida social de todos os animais, e não exclusivamente em nossa espécie, simplesmente porque ela não começou com a humanidade.

De qualquer modo, se de fato quisermos entender os fundamentos do comportamento social de nossa espécie, devemos avaliar nossos fundamentos biológicos (ver revisão em Blamires 2024), tipo o código de 4 bilhões de anos que perfaz nosso DNA, na condição de seres vivos (Dawkins 2018).

E neste sentido, Harari (2018) postula que os algoritmos bioquímicos de nosso cérebro são baseados em heurística, atalhos e circuitos ultrapassados, mais adaptados à história natural de nossos ancestrais africanos do que ao cotidiano nas cidades. Convém ressaltar que “heurística” é a arte da descoberta (Wilson 2015).

Mas afinal, o que é algoritmo? Segundo Berlinski (2002) é um “procedimento eficaz”, ou um modo de fazer algo em um número finito de passos discretos. Assim, talvez um algoritmo possa ser esquematizado como abaixo (Figura 1):

 

 



 

Figura 1. Representação esquemática de um algoritmo, conforme descrição em Berlinski (2002).

 

Então, o procedimento “algoritmo da ocitocina”, como hormônio transmissor de efeito social (ver a descrição acima de Lopes 2021), talvez siga as etapas de aconchego e ataque a seguir (Figura 2):

 



 

Figura 2. Procedimento algorítmico do hormônio ocitocina, baseado em Lopes (2021).

 

Chego a pensar que isto explica porque aquele nosso parente “mal-resolvido” (do nosso bom e velho 'goianês'), no auge do aconchego das festas familiares, tira o celular do bolso e vai para a rua provocar o vizinho no outro lado. Mas, voltando à política do “nós-e-eles”, ou como rotula Lopes (2021) do inglês Ingroup-Outgroup, é um real que de fato perfaz a biologia de nossa espécie. E em tempos pleistocênicos, certamente foi imprescindível para a sobrevivência e reprodução de nossos ancestrais africanos, quando a natureza era nosso maior desafio (uma recente revisão sobre evolução social humana é apresentada em Wilson 2013).

Contudo, os tempos são outros... Em um mundo cada vez mais superpopuloso e com substancial acúmulo de armas para destruição em massa, o melhor é se contrapor à política do nós-e-eles. Uma alternativa satisfatória nestes últimos tempos é manter um sistema de governança que não perfaz nossa biologia – não sendo, por exemplo, fundamentado por nenhum gene ou hormônio neurotransmissor – denominado democracia. 

Neste sentido, a democracia também é uma ficção, pois não perfaz a natureza biológica de nossa espécie, apesar de ser um sistema de governança muito mais eficaz para o processamento de dados (Harari 2016, 2018). Lopes (2021), também considera a democracia mais pacífica, com probabilidade muito menor de iniciar conflitos com outros estados, e mais sujeita a um princípio de resolução não-violenta e negociada dos conflitos. Notem, na listagem de Francisco (2025), que as nações com maior Índice de Desenvolvimento Humano do planeta (IDH) são predominantemente democráticas.

Então pessoal, é como comentei várias vezes em aula. Chegamos a este estágio avançado, com aulas de Datashow gratuitas, onde pessoas não-aparentadas com diferentes idades, gêneros e classes sociais convivem pacificamente em sala graças a várias ficções sociais, dentre as quais a democracia. Hoje, a política “nós e eles” é um perigoso retrocesso ao cotidiano primitivo de nossa espécie.

 

Referências

 

Berlinski, D. O advento do algoritmo: a ideia que governa o mundo. São Paulo: Globo, 2002.

Blamires, D. Sobre os fundamentos da espécie humana: uma sugestão para a disciplina “Diversidade, Cidadania e Direitos Humanos”. Resumos das Aulas. 2024. Disponível em: < https://resumosdasaulas.blogspot.com/2024/03/sobre-os-fundamentos-da-especie-humana.html > . Acesso em: 22-06-2025.

Dawkins, R. Ciência na alma: escritos de um racionalista fervoroso. São Paulo: Editora Companhia das Letras, 2018.

Francisco, W. C. Países com Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) muito alto. 2025. Brasil Escola. Disponível em: < https://brasilescola.uol.com.br/geografia/paises-com-Indice-desenvolvimento-humano-idh-muito-.htm. >. Acesso em 23-06-2025.

Harari, Y. N. Homo Deus: uma breve história do amanhã. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.

Harari, Y. N. Sapiens: uma breve história da humanidade (30ª edição). Porto Alegre: L&PM, 2017.

Harari, Y. N. 21 lições para o século 21. São Paulo: Companhia das Letras, 2018.

Lopes, R. J. Homo Ferox: as origens da violência humana e o que fazer para derrotá-la. Rio de Janeiro: HarperCollins, 2021.

Wilson, E. O. A conquista social da Terra. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.

Wilson, E. O. Cartas a um jovem cientista. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.

 

Daniel Blamires. Doutor Ciências Ambientais. Docente UEG-Iporá.

domingo, 22 de junho de 2025

Paz no Oriente Médio? [DCDH].

 




 

Projeção apresentada em sala-de-aula. Fonte: Autor. Atualizado em 17-06-2025.

 

Na última aula desta disciplina, apresentei a história da “Biblioteca de Alexandria”, abordando sua importância, fim e uma reflexão sobre o contexto atual. Durante a aula, quando era exposta a projeção acima, um aluno perguntou sobre o que fazer para coibir os conflitos no Oriente Médio.

Com base em minha rotina de noticiários sobre o assunto, mais as leituras sobre história, filosofia da ciência e antropologia, eu disse que inicialmente não sabia o que fazer, mas levantei uma hipótese. A de que prevalecem no Oriente Médio costumes muito tribais, que mantém um forte sistema antidemocrático de rigidez mental e intolerância. Em seguida, sugeri ao pessoal que consultassem especialistas no assunto, como talvez acadêmicos de História ou Sociologia.

Contudo, alguns dias atrás a jornalista Natuza Nery, do canal “g1”, entrevistou seu colega Guga Chacra, correspondente nos Estados Unidos, sobre este assunto (vídeo abaixo). O entrevistado deu grande ênfase à interferência da Europa e EUA na geografia e economia médio oriental, focados basicamente na exploração das grandes jazidas de petróleo nesta região do planeta.

Importante ressaltar que, recentemente, Guga Chacra questionou o embaixador de Israel sobre a controversa relação de seu país com suas nações circunvizinhas (Arvro 2025). Sem longas, sugiro assistirem ao menos o vídeo abaixo, bem como o outro citado na referência.

 




Referência.

Arvro. Guga Chacra peita embaixador e globonews tira vídeo do ar. 2025. Disponível em: < https://www.youtube.com/watch?v=jWbwsNf1tqs > . Acesso em: 22-06-2025.


Daniel Blamires. Doutor Ciências Ambientais. Docente UEG-Iporá.

sexta-feira, 20 de junho de 2025

Cosmos, Diversidade da Vida e o Dia do Biólogo. [Todas as disciplinas].

 Prólogo. Caros alunos de DCDH, na última semana de aula falamos sobre Carl Sagan, mas há cinco anos atrás - no dia do biólogo - redigi este texto, previamente publicado em meu perfil Facebook. Após pensar muito, decidi publicar também este texto aqui em "Resumos das Aulas", novamente na esperança de mantê-los animados e perseverantes neste tempo de ameaça fundamentalista. Abaixo o primeiro episódio da série "Cosmos", inicialmente apresentada por Ann Druyan, viúva de Sagan. 

No futuro, também falaremos sobre Edward Wilson: tudo a seu tempo. Boa leitura a todos!



Canecas ilustradas com as capas de Wilson (1994) e Sagan (1980). Foto do Autor: 03-09-2020.


Decidi ilustrar canecas com duas obras que realmente ampliaram minha visão de mundo. A série “Cosmos” do astrofísico Carl Edward Sagan, e o livro “Diversidade da Vida”, do naturalista Edward Osborne Wilson. Sem dúvida, dois cientistas estadunidenses de grande importância para o pensamento científico contemporâneo.

Estas duas obras me fizeram pensar como um cidadão do mundo, mesmo sem nunca ter saído do Brasil: um país tão oprimido pelo colonialismo. Assim, não deixo morrer em mim o menino estranho e solitário, deslumbrado com a série Cosmos; e o jovem, assustado com uma exaustiva rotina de estudo e trabalho, mas inspirado pelo Diversidade da Vida. No final, isso é tudo que sou até hoje...

Neste dia do biólogo, parabéns a todos os alunos e profissionais estudantes da vida, e também a todos aqueles que pesquisam ou divulgam o conhecimento científico.

Persistir com humildade!





Referências.


Sagan, C. E. Cosmos.  [E-book]. 1980a, 

Wilson, E. O. Diversidade da Vida. São Paulo: Editora Companhia das Letras.


Daniel Blamires. Doutor Ciências Ambientais. Docente UEG-Iporá.


sexta-feira, 6 de junho de 2025

A falta que um museu faz. [DCDH].

 



Museu Antônio Correa Bueno. Morrinhos, Sul de Goiás. Foto do Autor: 27-02-2019.

 

Este texto deve ficar meio desconexo em algumas partes, afinal não sou historiador. Mas, li rapidamente alguns trechos de Gomis (2002, 2022), o qual parece relatar pouco interesse, por parte da população de Iporá e arredores, pelas obras e demais bens materiais que perfazem a história de sua paisagem. E, caros alunos, como vocês ouvem meu desabafo rotineiro em sala de aula, considero isto muito lamentável. Assim, argumentarei brevemente sobre isto.

Desde que me efetivei na UEG, trabalhei em três municípios no interior de Goiás: inicialmente Quirinópolis (sudoeste goiano), vindo a seguir para Iporá – onde estabeleci residência até o presente – mas também participei do mestrado em Morrinhos (sul goiano). Os municípios de Quirinópolis e Morrinhos, localizados na parte austral de nosso estado, possuem museus municipais, com exposições de artefatos dos seus ancestrais. Em Morrinhos, tive o privilégio de visitar seu acervo histórico (vide imagem), e também vi  uma “Academia Morrinhense de Letras” próxima ao museu.

Como são os morrinhenses? Na minha opinião, iguais a todo o povo do interior goiano, para os quais não percebo diferença significativa. Contudo, eles aprenderam sobre preservar um pouco das construções e materiais antigos, importantes testemunhos de seu passado, e assim manter evidências sobre a história de seu município.

Por outro lado, em Iporá e arredores... No meu primeiro livro, (Blamires 2022, p. 3), apresentei a imagem da antiga casa do senhor Elias Araújo Rocha – um dos pioneiros da cidade (Gomis 2002) - e lamentei a demolição desta residência. Não culpei ninguém pelo ocorrido, mas lamentavelmente considero uma perda inestimável destruir a antiga casa de pessoas que fizeram história nesta paisagem.

Faz parte de meu cotidiano sempre relembrar as grandes referências de minha formação profissional, dentre elas o naturalista britânico Charles Robert Darwin (1809-1882, Wikipédia 2025). Certa vez, refletindo sobre a reação de muitos leitores à sua obra “Origem das Espécies” ao final do século XIX, ele redigiu:

 

“No entanto, minha confiança está voltada para o futuro, para os jovens naturalistas em formação, que serão capazes de enxergar com imparcialidade ambos os lados da questão. (Darwin 2005, p. 364) ”.

 

Então, prezados alunos, minha confiança sobre este e tantos outros problemas em nossa paisagem é voltada primariamente a vocês, futuros professores em Iporá e arredores. Ensinar às gerações futuras a importância de seus patrimônios históricos públicos é uma alternativa imprescindível para as pessoas notarem sua importância a médio prazo. E bastaria apenas um museu em cada município que simplesmente mostrasse, a partir de artefatos antigos, a saga dos antepassados que ergueram os alicerces de um povo.

 

Referências.

 

Blamires, D. Aves urbanas de Iporá, estado de Goiás. E-Book. São José dos Pinhais: Brazilian Journals Publicações de períodicos e editora, 2022. Disponível em: < https://www.brazilianjournals.com.br/ebooks.php?bk=4T58q26QuIgz9CVo0eUO28stp2H17M6K > . Acesso em: 06-06-2025.

Darwin. C. R.  A origem das espécies. São Paulo: Editora Martin Claret, 2005.

Gomis, M. A. Uma viagem no tempo de Pilões a Iporá (1748-1998), 1ª edição. Iporá: Editora Nova Página, 2002.

Gomis, M. A. Uma viagem no tempo de Pilões a Iporá (1748-2020), 2ª edição. Goiânia: Editora Kelps, 2022.

Wikipédia: a enciclopédia livre. Charles Darwin. 2025. Disponível em: < https://pt.wikipedia.org/wiki/Charles_Darwin > . Acesso em: 06-06-2025.

 

Daniel Blamires. Doutor Ciências Ambientais. Docente UEG-Iporá.

 


Juntos pela biosfera. [Biologia da Conservação].

      Provavelmente Campo Cerrado. Senador Canedo-GO, março 1995. Foto do autor.   “I can hear the whole world singing together ...