Capa de Lopes (2021). Fonte: Amazon Kindle. Acesso em: 22-06-2025.
“(...). ...sim, ele também é importante para a ligação terna entre mãe
e bebê; e sim, ele ajuda as pessoas a sentirem afeto e empatia pelos que estão
a seu redor. Mas — e esse é aquele ‘mas’ capaz de quebrar as pernas do
roteirista de ficção científica — a oxitocina promove esse caminhão de ternura
de forma seletiva, voltada para os indivíduos a quem o sujeito ou a sujeita já
está unido ou unida por laços sociais. Para usar termos que vão reaparecer o
tempo todo em capítulos vindouros, a oxitocina foi forjada pela evolução por
facilitar as relações com o grupo interno, ao qual a gente pertence, e não com
o grupo externo — todo o resto do mundo, basicamente. Pior ainda, há indícios
experimentais de que inalar oxitocina torna as pessoas mais intolerantes com
membros de um grupo externo. (...). Resumindo, descrever a oxitocina como a
molécula do Sermão da Montanha ou do Amor Universal da Era de Aquário é um erro
crasso. Ela está mais para o hormônio ‘Brasil: Ame-o ou Deixe-o’ (ou
equivalentes de outras nações, partidos, tribos, culturas, times de futebol) —
com todas as possibilidades sombrias que a lealdade cega é capaz de trazer. (Lopes
2021, p. 120-121).”
Segundo Harari (2017), o “real”
do homem é sua natureza caçadora-coletora, que evoluiu com nosso
gênero Homo na África, sendo todos os
demais aspectos comportamentais considerados “ficções”. Wilson (2013) é ainda
mais abrangente, ressaltando que a chave para as origens da condição humana
será encontrada na evolução da vida social de todos os animais, e não
exclusivamente em nossa espécie, simplesmente porque ela não começou com a
humanidade.
De qualquer modo, se de fato
quisermos entender os fundamentos do comportamento social de nossa espécie, devemos
avaliar nossos fundamentos biológicos (ver revisão em Blamires 2024), tipo o
código de 4 bilhões de anos que perfaz nosso DNA, na condição de seres vivos
(Dawkins 2018).
E neste sentido, Harari (2018)
postula que os algoritmos bioquímicos de nosso cérebro são baseados em
heurística, atalhos e circuitos ultrapassados, mais adaptados à história
natural de nossos ancestrais africanos do que ao cotidiano nas cidades. Convém
ressaltar que “heurística” é a arte da descoberta (Wilson 2015).
Mas afinal, o que é algoritmo?
Segundo Berlinski (2002) é um “procedimento eficaz”, ou um modo de fazer algo
em um número finito de passos discretos. Assim, talvez um algoritmo possa ser
esquematizado como abaixo (Figura 1):
Figura 1. Representação
esquemática de um algoritmo, conforme descrição em Berlinski
(2002).
Então, o procedimento “algoritmo
da ocitocina”, como hormônio transmissor de efeito social (ver a descrição acima de Lopes 2021), talvez siga as etapas de aconchego e ataque a seguir (Figura
2):
Figura 2. Procedimento
algorítmico do hormônio ocitocina, baseado em Lopes (2021).
Chego a pensar que isto explica
porque aquele nosso parente “mal-resolvido” (do nosso bom e velho 'goianês'),
no auge do aconchego das festas familiares, tira o celular do bolso e vai para a rua provocar o vizinho no outro lado. Mas, voltando à política do “nós-e-eles”,
ou como rotula Lopes (2021) do inglês Ingroup-Outgroup,
é um real que de fato perfaz a biologia de nossa espécie. E em tempos pleistocênicos,
certamente foi imprescindível para a sobrevivência e reprodução de nossos
ancestrais africanos, quando a natureza era nosso maior desafio (uma
recente revisão sobre evolução social humana é apresentada em Wilson 2013).
Contudo, os tempos são outros... Em um mundo cada vez mais superpopuloso e com substancial acúmulo de armas para destruição em massa, o melhor é se contrapor à política do nós-e-eles. Uma alternativa satisfatória nestes últimos tempos é manter um sistema de governança que não perfaz nossa biologia – não sendo, por exemplo, fundamentado por nenhum gene ou hormônio neurotransmissor – denominado democracia.
Neste
sentido, a democracia também é uma ficção, pois não perfaz a natureza biológica
de nossa espécie, apesar de ser um sistema de governança muito mais eficaz para
o processamento de dados (Harari 2016, 2018). Lopes (2021), também considera a
democracia mais pacífica, com probabilidade muito menor de iniciar conflitos com
outros estados, e mais sujeita a um princípio de resolução não-violenta e
negociada dos conflitos. Notem, na listagem de Francisco (2025), que as nações
com maior Índice de Desenvolvimento Humano do planeta (IDH) são
predominantemente democráticas.
Então pessoal, é como comentei
várias vezes em aula. Chegamos a este estágio avançado, com aulas de Datashow gratuitas, onde pessoas não-aparentadas
com diferentes idades, gêneros e classes sociais convivem pacificamente em sala
graças a várias ficções sociais, dentre as quais a democracia. Hoje, a política “nós
e eles” é um perigoso retrocesso ao cotidiano primitivo de nossa espécie.
Referências
Berlinski, D. O advento do algoritmo: a ideia que governa
o mundo. São Paulo: Globo, 2002.
Blamires, D. Sobre os fundamentos
da espécie humana: uma sugestão para a disciplina “Diversidade, Cidadania e
Direitos Humanos”. Resumos das Aulas.
2024. Disponível em: < https://resumosdasaulas.blogspot.com/2024/03/sobre-os-fundamentos-da-especie-humana.html
> . Acesso em: 22-06-2025.
Dawkins, R. Ciência na alma: escritos de um racionalista fervoroso. São Paulo:
Editora Companhia das Letras, 2018.
Francisco, W. C. Países com
Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) muito alto. 2025. Brasil Escola. Disponível em: <
https://brasilescola.uol.com.br/geografia/paises-com-Indice-desenvolvimento-humano-idh-muito-.htm.
>. Acesso em 23-06-2025.
Harari, Y. N. Homo Deus: uma breve história do amanhã.
São Paulo: Companhia das Letras, 2016.
Harari, Y. N. Sapiens: uma breve história da humanidade
(30ª edição). Porto Alegre: L&PM, 2017.
Harari, Y. N. 21 lições para o século 21. São Paulo:
Companhia das Letras, 2018.
Lopes, R. J. Homo Ferox: as origens da violência humana e o que fazer para
derrotá-la. Rio de Janeiro: HarperCollins, 2021.
Wilson, E. O. A conquista social da Terra. São Paulo:
Companhia das Letras, 2013.
Wilson, E. O. Cartas a um jovem cientista. São Paulo:
Companhia das Letras, 2015.
Daniel Blamires. Doutor Ciências
Ambientais. Docente UEG-Iporá.