sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Chuva e Sombra. [Ecologia].

 

 



 

Desenho esquemático do fenômeno “Rainshadow Effect”. Fonte: Autor, 27-02-2026.

 

Oi pessoal! E novamente, tentarei explicar um importante fenômeno climático, com outro dos meus rebuscados desenhos esquemáticos. Maiores detalhes sobre este assunto constam em Pianka (1994). O título “Chuva e Sombra” é uma alusão à denominação Rainshadow Effect, sem tradução para o português.

Massas de ar oceânicas com alta umidade colidem, nos continentes, com cadeias montanhosas normalmente frias e com muito vento. As baixas temperaturas nas montanhas promovem a precipitação de grande parte destas massas na costa, mantendo assim vegetações mais luxuriantes, como florestas úmidas ou banhados de água doce.

A seguir, massas de ar mais secas transpassam as montanhas e precipitam poucas chuvas sobre uma vegetação semiárida de transição. Estas mesmas correntes aéreas ainda mais secas seguem rumo ao sertão, mais semiárido por sua vez.

O efeito rainshadow provavelmente é a melhor resposta sobre porque muitas cidades no litoral nordestino são tropical úmidas, à mesma latitude de outras em solo semiárido mais a oeste. Maiores detalhes sobre vegetação e clima da região nordeste constam em Pacievitch (2026).

 

Referências

Pacievitch, T. Agreste. InfoEscola: Geografia. Disponível em: < https://www.infoescola.com/geografia/agreste/ > . Acesso em: 27-02-2026.

Pianka, E. R. Evolutionary Ecology, fifth edition. New York, HarperCollins College Publishers, 1994.

 

Daniel Blamires. Doutor Ciências Ambientais. Docente UEG-Iporá.

sábado, 21 de fevereiro de 2026

O Agro é Colapso? [Biologia da Conservação].

 

 

 

Recorte de Blamires (2023).

 

Oi pessoal! Nesta postagem, tentarei explicar o problema do agronegócio brasileiro, conforme discutido previamente em sala-de-aula, a partir da curva normal logística (imagem acima). Em meu livro de ecologia (Blamires 2023), fiz uma breve síntese sobre modelos de crescimento populacional. Gotelli (2007) detalha amplamente o assunto, sendo uma referência importante a quem desejar saber mais sobre modelos populacionais. Então, matematicamente o crescimento populacional logístico (dependente da densidade) é expresso pela relação:

 

 

Sendo N o tamanho da população no tempo t, e r a taxa intrínseca de crescimento. A função logística é definida pela variável k, ou capacidade de suporte, que expressa o número de indivíduos na população que o ambiente consegue suportar. Resumidamente, k demonstra que nenhuma população pode crescer infinitamente, porque os recursos ambientais são limitados. Assim, se a população crescer acima da capacidade de suporte, ela arrisca sofrer um “colapso”: aumento na mortalidade devido ao esgotamento dos recursos por uma população excedente.

Agora, ajustemos esta função logística para a variável produção agropastoril (P) ao longo do tempo (t). Substituindo, temos que:

 

 

Neste caso, k seria uma capacidade de suporte, caracterizada pela quantidade de produção agropastoril que uma área pode suportar. Considerando um sistema que evita desmatamento, utiliza o estoque hídrico com parcimônia e não esgota excessivamente o solo, então a produção tende a se manter ao longo do tempo próxima à capacidade de suporte, sendo mais sustentável. Do contrário, há uma produção excedente, que pode ser insustentável ao longo do tempo, podendo sofrer colapso (Figura 1).

 

 

Figura 1. Relação idealizada produção agropastoril (P) ao longo do tempo (t).

 

Certamente, este é um dos grandes problemas do sistema agropastoril que orgulhosamente se intitula “agronegócio brasileiro”. Diamond (2007), relata vários casos de culturas que simplesmente desapareceram, devido ao uso excessivo dos recursos naturais. Uma produtividade insustentável para além da capacidade ambiental de suporte pode levar toda uma região, como o Brasil Central, a um futuro colapso de serviços ecossistêmicos. 

TV Cringe (2024) e Brasil (2026) detalham bem mais este assunto, e sugiro a vocês assistirem os vídeos (vide Referências). Ambos inclusive priorizam a produção sustentável de alimentos,  em pequenas propriedades, ao invés da produtividade agropastoril de exportação em vastas propriedades rurais.

 

Referências.

Blamires, D. Ecologia no quadro: temas ecológicos com figuras manuscritas. São José dos Pinhais: Brazilian Journals, 2023. DOI: 10.35587/brj.ed.0002193

Brasil, A. & F. O Agro está acabando com o Brasil! 2026. Disponível em: < https://www.youtube.com/watch?v=ewOn4r9h5LM&lc=Ugz2UTMXIDlbJVBQxRV4AaABAg.ATFRo-Mc-gCATFgyi4Crhz > . Acesso em: 21-02-2026.

Diamond, J. Colapso: como as sociedades escolhem o fracasso ou o sucesso. Rio de Janeiro. Editora Record, 2007.

Gotelli, N. J. Ecologia. Londrina: Editora planta, 2007.

TV Cringe. O Brasil virou um pesadelo: distopia cyberpunk. 2026. Disponível em: < https://www.youtube.com/watch?v=OB3CCYQM51M&t=2s > . Acesso em: 21-02-2026.

 

Daniel Blamires. Doutor Ciências Ambientais. Docente UEG-Iporá.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Criei um índice... Será? [Orientações].

 

 

 

Índice de Abundância Relativa em rascunho. Fonte: Autor, 23-09-2023.

 

A imagem acima foi o primeiro rascunho do meu índice de abundância relativa, enquanto analisava os dados das “Estradas Reais (ver Blamires 2024a, b)”. Mas afinal, como obter a variável abundância, a partir de dados avifaunísticos obtidos em campo? Já considerei apenas a contagem dos indivíduos, ao longo de todas as visitas às áreas de estudo (por exemplo, Blamires et al. 2001, Magalhães et al. 2018).

Contudo, certa vez o parecerista ad-hoc de algum manuscrito alertou que contagens simples podem trazer erros, por serem dados muito variáveis. Outros relevantes estudos do passado (Mattarazzo-Neuberger 1995, D’Ângelo-Neto et al. 1998), também não resolveram adequadamente este problema.

Assim, para os dados das “Estradas Reais”, redigi um índice de abundância relativa das aves, para cada um dos nove pontos de contagem estudados. Um cálculo baseado na relação entre o total de contatos com cada espécie isoladamente, mais os contatos totais de todas as espécies em cada ponto (Figura 1). 

 

 

Figura 1. Índice de Abundância Relativa ARi. Recorte de Blamires et al. 2024a.

 

Empregamos esta mesma fórmula em outro estudo, nos dois pontos do trecho urbano de um Ribeirão iporaense (Lima & Blamires 2025). Até o momento, não encontrei melhor forma para estimar a abundância relativa das espécies de aves. Importante salientar que a distribuição de frequência da variável abundância, no mesmo estudo supracitado, demonstrou o padrão assimétrico à direita para dados nos dois pontos: o resultado esperado para comunidades animais (ver revisão em Brown 1995). Convém ressaltar que o índice difere de frequência de ocorrência, um procedimento que envolve a relação entre contatos com cada espécie e o total de visitas à área de estudo (Argel-de-Oliveira 1995, D’Angelo-Neto et al. 1998, Mendonça-Lima & Fontana 2000, Valadão et al. 2006, Braga et al. 2010, Valadão et al. 2022).

O primeiro destes nossos estudos (Blamires et al. 2024a), era um projeto interno da UEG, importante para duas monografias discentes (Blamires 2024b). Por outro lado, Lima & Blamires (2025) foi basicamente o trabalho de curso de outra aluna, com mais visitas aos pontos de contagem. Importante ressaltar que todos os alunos participantes são também autores dos respectivos trabalhos. Assim, acho que acertei neste cálculo para dados de abundância, necessário para calcular a diversidade em cada ponto de contagem separadamente.

Então, eu criei um índice de abundância relativa... Ou não? Pesquiso apenas com meus orientados aqui em Iporá e arredores, e até o momento penso ter acertado. Aceito sugestões e críticas, contudo, inclusive porque estou desenvolvendo outro índice mais complexo, do qual este primeiro faz parte.

Bom feriado a todos!

 

Referências.

Argel-de-Oliveira, M. M. Aves e vegetação em um bairro residencial da cidade de São Paulo (São Paulo, Brasil). Revista Brasileira de Zoologia, n. 12, v. 1, p. 81-92, 1995

Blamires, D., Valgas, A. B., Bispo, P. C. Estrutura da comunidade de aves na Fazenda Bonsucesso, município de Caldazinha, Goiás, Brasil. Tangara, v. 1, n. 3, p. 101-113, 2001.

Blamires, D., Lopes, A. F. D., Peres, J. V. M. Avifauna das “Estradas Reais” em Iporá, estado de Goiás, Brasil. Revista Mirante, v. 17, n. 2, p. 225-249, 2024a.

Blamires, D. Aves das “Estradas Reais”: um grande trabalho! [Orientações]. Resumos das Aulas. 2024b. Disponível em: < https://resumosdasaulas.blogspot.com/2024/12/aves-das-estradas-reais-um-grande.html > . Acesso em: 15-02-26.

Braga, T. V., Zanzini, A. C. S., Cerboncini, R. A. S., Miguel, M., Moura, A. S. Avifauna em praças da cidade de Lavras (MG): riqueza, similaridade e influência de variáveis do ambiente urbano. Revista Brasileira de Ornitologia, v. 18, n. 1, p. 26-33, 2010.

Brown, J. H. Macroecology. Chicago: The University of Chicago Press, 1995.

D’Angelo-Neto, S., Venturin, N., Oliveira-Filho, A. T., Costa, F. A. F. Avifauna de quatro fisionomias florestais de pequeno tamanho no Campus da UFLA. Revista Brasileira de Biologia, v. 58, p. 463-472, 1998.

Lima, B. U., Blamires, D. Avifauna em um trecho urbano do Ribeirão Santo Antônio, município de Iporá, estado de Goiás. Brazilian Journal of Animal and Environmental Research, v. 8, n. 2, p. 1-19, 2025. DOI: 10.34188/bjaerv8n2-069

Mendonça-Lima, A., Fontana, C. S. Composição, frequência e aspectos biológicos da avifauna no Porto Alegre Country Clube, Rio Grande do Sul. Ararajuba, v. 8, n. 1, p. 1-8, 2000.

Magalhães, I. B., Martins, R. H. S., Blamires, D. Assembleias de aves em áreas antropizadas na fazenda escola do Instituto Federal Goiano em Iporá, Brasil. Ornithologia, v. 10, n. 1, p. 17-29. 2018.

Matarazzo-Neuberger, W. M. Comunidades de aves de cinco parques e praças da grande São Paulo, Estado de São Paulo. Ararajuba, v.3, p. 13-19, 1995.

Valadão, R. M., Franchin, A. G., Marçal-Júnior, O. A avifauna no parque municipal Vitório Siquierolli, zona urbana de Uberlândia (MG). Biotemas, v.19, p. 81-91, 2006.

Valadão, E. C. S., Franco, G. A. M., Hannibal, W., Blamires, D. Estrutura das assembleias de aves nas praças publicas de Iporá, estado de Goiás. Brazilian Journal of Development, v. 8, n. 5, p. 35548-35568, 2022. DOI: 10.34117/bjdv8n5-187

 

Daniel Blamires. Doutor Ciências Ambientais. Docente UEG-Iporá.


quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Tipos de seleção. [Evolução Orgânica].

 

 

 

Tipos de seleção natural no quadro. Fonte: Autor, 11-10-2023.

 

De modo geral, o que é seleção? É um termo que significa escolha, sendo o contrário de “eliminação (escreva.ai 2026.)”. Assim, o propósito desta postagem é apenas transcrever alguns dos vários conceitos de seleção, empregados na biologia evolutiva.

 

Seleção natural. Um fator evolutivo fácil de compreender tacitamente, mas difícil de conceituar, e bastante variável ao longo da literatura. Beiguelman (2008, p. 150), por exemplo, transcreve a concepção pragmática de Darwin em “Origem das Espécies”: “Preservação das variações favoráveis e a supressão das prejudiciais”.

Ridley (2006, p. 707), define seleção natural como: “...O processo pelo qual aquelas formas de organismos de uma população que estão mais bem adaptadas ao ambiente aumentam em frequência relativamente às formas menos bem-adaptadas, ao longo de uma série de gerações."

Após ler vários textos sobre o assunto, atualmente eu considero seleção natural como: “Favorecimento, por parte do ambiente, das variações (genes, genótipos, traços) que proporcionam mais sobrevivência e reprodução, e eliminação das menos favoráveis.” Segundo Stearns & Hoekstra (2003), existem três tipos de seleção natural: estabilizadora (favorecimento dos traços centrais); direcional (favorecimento de um dos traços extremos); disruptiva: favorecimento de dois ou mais traços extremos).

Seleção sexual. Em geral, é a seleção de caracteres relacionados apenas ao aumento no sucesso de acasalamento, segundo Krebs & Davies (1996, p. 183). Dawkins (2009, p. 315), faz uma interessante e cômica reflexão sobre a seleção sexual: “...produz a evolução insólita, caprichosa, que desembesta em direções aparentemente arbitrárias, alimentando-se de si mesma e resultando em loucos voos de fantasia evolutiva.” Segundo Ricklefs (2009), o dimorfismo sexual - a diferença na aparência externa entre machos e fêmeas da mesma espécie - é a principal consequência da seleção sexual.

Seleção de parentesco. Quando o indivíduo pode promover a reprodução do seu tipo de gene, ajudando os parentes a se reproduzirem (Ehrlich 1993, p. 83). Os fundamentos matemáticos deste tipo de seleção foram questionados recentemente (Wilson 2013, 2018).

Seleção de grupo. Alelos podem fixar ou espalhar-se em uma população, caso proporcionem benefícios a grupos (Wilson 2013). Stearns & Hoekstra (2003, p. 347) definem como “a seleção gerada pela variação do sucesso reprodutivo de grupos”. Wilson (2013, 2018) afirma que a seleção de grupo é mais provável que a de parentesco.

Seleção de espécies. Segundo Futuyma (2003, p. 585), é “...uma forma de seleção de grupo na qual espécies com características diferentes crescem (por especiação) em número, a taxas diferentes, por causa de diferenças nas suas características”. Tipo de seleção que se integra à teoria macroevolutiva do Equilíbrio Pontuado (ver revisão em Blamires 2024), e suscita controvérsias (Futuyma 2003).

Seleção artificial. Descrita por Ridley (2006) como cruzamentos seletivos realizados por humanos, para alterar uma população. Também considerada a seleção pelo homem de uma característica - ou combinação de características - conscientemente escolhidas nos indivíduos de uma população, normalmente em cativeiro (Futuyma 2003). Ao contrário da seleção natural, na artificial o homem seleciona uma ou mais características nos indivíduos de uma população, ao longo das gerações, apenas para finalidades sociais e econômicas.

Seleção volitiva. É o “processo de redesenhar a biologia e a natureza humana da maneira como as desejarmos” (Wilson 2018, p. 181).

 

Esta revisão deve ser aprimorada, na medida do possível, podendo ser editada futuramente.

 

Referências

Beiguelman, B. Genética de Populações Humanas (E-book). Ribeirão Preto: Sociedade Brasileira de Genética, 2008.

Blamires, D. Evolução no quadro: temas evolutivos com figuras manuscritas (E-book). São José dos Pinhais: Brazilian Journals, 2024.

Dawkins, R. A grande história da evolução: na trilha dos nossos ancestrais. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

Ehrlich, P. R. O mecanismo da natureza: o mundo vivo à nossa volta e como funciona. Rio de Janeiro: Campus, 1993.

Futuyma, D. Biologia Evolutiva, 2ª edição. Ribeirão Preto: FUNCEP-RP, 2003.

escreva.ai. Seleção. Disponível em: < https://escreva.ai/palavra/selecaosendo/ > . Acesso em: 10-02-2026.

Krebs, J. R., Davies, N. B. Introdução à ecologia comportamental. São Paulo: Atheneu Editora, 1996.

Ricklefs, R. E. A economia da natureza, quinta edição. Rio de Janeiro: Guanabara-Koogan, 2009.

Ridley, M. Evolução. Porto Alegre: Artmed, 2006.

Stearns, S. C., Hoekstra, R. F. Evolução: uma introdução. São Paulo: Atheneu. 2003.

Wilson, E. O. A conquista social da Terra. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.

Wilson, E. O. O sentido da existência humana. São Paulo: Companhia das Letras, 2018.

 

Daniel Blamires. Doutor Ciências Ambientais. Docente UEG-Iporá.

 

Juntos pela biosfera. [Biologia da Conservação].

      Provavelmente Campo Cerrado. Senador Canedo-GO, março 1995. Foto do autor.   “I can hear the whole world singing together ...