quarta-feira, 20 de agosto de 2025

O Sistema Fonte-Escoadouro (Source-sink system). [Ecologia]

 

 



 

Aula sobre dinâmica de metapopulações e sistema source-sink. Autor, 13-08-2025.

 

Caros alunos, aula passada comentamos sobre dinâmica de metapopulações, e também lembrei ter revisado este assunto recentemente (Blamires 2023). Ao final, entramos em outro modelo que aparece pouco nos livros de ecologia básica, o “fonte-escoadouro (source-sink)”, uma alternativa aos modelos metapopulacionais. A maior parte desta postagem segue Pinto-Coelho (2000).

O princípio básico deste modelo está centrado, de modo geral, no excedente populacional de um habitat “fonte (com muitos recursos)” para um habitat “escoadouro (com recursos escassos)”, conforme esquematizado na Figura 1. Assim, em um habitat fonte, com recursos naturais (R) abundantes, as taxas de natalidade (b) de uma população tendem a exceder as de mortalidade (d). Consequentemente, o tamanho da população (N) tende a aumentar.


 



 

 

Figura 1. Modelo “Fonte-Escoadouro (source-sink)”. Conforme descrição em Pinto-Coelho (2000).

 

Contudo, o excesso demográfico - ou aumento da população no habitat fonte - se torna insuportável, à medida que os recursos são insuficientes para todos os indivíduos (Figura 1). Então, muitos que não conseguem sobreviver e reproduzir nos habitats fonte se deslocam para os escoadouros, com menos recursos, além de mortalidade superior à natalidade (b<d, ver também Dias 1996).

Neste contexto, o modelo prevê um fluxo unidirecional, sentido fonte-escoadouros. Nos habitats sink, com poucos recursos e taxas altas de mortalidade, as populações não podem persistir, a menos que sejam constantemente abastecidas por fluxos de indivíduos provenientes dos habitats source. A princípio, a dinâmica source-sink é similar ao modelo de metapopulações continente-ilha, apesar do primeiro relevar as características básicas dos habitats, ou: a diferença entre os habitats fonte-escoadouro sugere que suas fisionomias constituintes são distintas. Todos os modelos metapopulacionais irrelevam diferenças fisionômicas entre suas manchas de habitat.

Dias (1996) destaca uma importante predição conservacionista do modelo source-sink. Preservar apenas os habitats escoadouro, por exemplo, pode extinguir todas as populações de uma espécie ao longo de uma paisagem, considerando suas taxas de mortalidade maiores. Importante ressaltar que, segundo a hipótese “mais indivíduos (more individuals hypothesis)” de Balmford et al. (2001), habitats com mais riqueza de espécies possuem maior produtividade ecológica, são mais favoráveis para atividades antropogênicas (agropastoris, por exemplo), e consequentemente também atraem mais as populações humanas.

Assim, o estabelecimento de áreas de conservação ambiental não deve se restringir apenas às áreas menos produtivas e mais “escoadouros”, mas também às áreas mais produtivas (mais “fonte”), para garantir que muitas populações silvestres mantenham tamanhos populacionais satisfatórios.

 

Referências

Balmford, A., Moore, J. L., Brooks, T., Burgess, N., Hansen, L. A., Williams, P., Rahbek., C. Conservation conflicts across Africa. Science v. 291, p. 2616-2619, 2001.

Blamires, D. Ecologia no quadro: temas ecológicos com figuras manuscritas. São José dos Pinhais: Brazilian Journals, 2023. DOI: 10.35587/brj.ed.0002193

Dias, P. C. Sources and sinks in population biology. TREE, v. 11, n. 8, p. 326-330, 2006.

Pinto-Coelho, R. M. Fundamentos em ecologia. Porto Alegre: ARTMED Editora, 2000.

 

Daniel Blamires. Doutor Ciências Ambientais. Docente UEG-Iporá.

sexta-feira, 15 de agosto de 2025

O vento será tua herança: a luta sem fim contra o obscurantismo [Evolução Orgânica.].

 


Filme “O Vento será tua herança”, baseado em fatos reais. Fonte: Franco 1999/2015.


Surpreendentemente, o século XXI começou obscurantista! Quando criança, eu imaginava esta época tal como o futurismo da mídia nos anos 1980: um mundo problemático (como sempre será), mas habitado por verdadeiros “cidadãos do mundo”.

Mas infelizmente, a constante ameaça fundamentalista, em muitos aspectos, parece ter ficado mais forte neste presente. Como lamentou Carl Sagan ao final do século passado, apesar de tudo o que o mundo colheu, com séculos de avanço proporcionados pelo conhecimento acadêmico, as pessoas continuam em busca do transe proporcionado por lideranças charlatãs (Sagan 2006). Líderes místicos que constroem nababescos patrimônios e frequentemente se envolvem em escândalos despudorados, as custas de um mundo que lhes enriquece com mercadorias de ilusões.

E neste mundo dominado por mercadores de ilusões, há uma constante perseguição inquisidora à verdade das evidências, quem de fato cura doenças, respeita e protege as minorias, e distribui mais equitativamente a renda. E, como ressaltou Sagan (2006), este sistema anacrônico está impregnado em tudo... Assim, caros alunos, não estamos distantes do que aconteceu no Tennessee, Estados Unidos, um século atrás. O filme, de modo geral, retrata a condenação de um professor que lecionou evolução, contrariando assim o cristianismo fundamentalista de seu país nos anos 1920.

Grandes avanços do conhecimento humano, como a Biologia Evolutiva (Futuyma 2002), continuam ameaçados por lideranças místicas, construtoras de feudos neomedievais às custas de preconceitos e chantagens maniqueístas, regadas à velha – e sempre presente - tática tribal do “nós e eles”, encobrindo assim o conhecimento como o que de fato traz bem-estar à humanidade.

Sem longas, prezados alunos, sugiro assistirem o filme, e também ler Orsi (2025), sobre um assunto que ainda permanece paradoxalmente polêmico neste tempo de Internet rápida... Vida que segue!

 

Referências.

Futuyma, D. (Ed.). Evolução, Ciência e Sociedade. Ribeirão Preto: Sociedade Brasileira de Genética, 2002.

Franco, L. Inherit the Wind – O vento será tua herança. Disponível em: < https://www.youtube.com/watch?v=NYCfo4hVolQ > . Acesso em: 15-08-2025.

Orsi, C. Evolução no tribunal: cem anos de polarização. 2025. Questão de Ciência. Disponível em: < https://revistaquestaodeciencia.com.br/artigo/2025/08/11/evolucao-no-tribunal-cem-anos-de-polarizacao?fbclid=IwY2xjawML_FlleHRuA2FlbQIxMABicmlkETFMMFZ4UlRzZzVkVXRpbXJxAR7ANtR1B63Dpf4IHPPKi3-cVodZnVuVj1HgcckqjHCRt9__B_CTmKdrymDbEw_aem_hU7bSTdo26gLDqAC6Aq5tQ > . Acesso em: 15-08-2025.

Sagan, C. E. O mundo assombrado pelos demônios: a ciência vista como uma vela no escuro. São Paulo: Editora Companhia das Letras, 2006.

 

Daniel Blamires. Doutor Ciências Ambientais. Docente UEG-Iporá.


domingo, 10 de agosto de 2025

Eu vi Cerradão! [Cerratenses].

 

 



Fisionomia “Cerradão”. Proximidades de Jacinópolis em Iporá, Goiás. Data: 30 de Julho, 2025.

 

Decidi abrir esta sessão “Cerratenses”, para escrever também sobre nosso Cerrado. De antemão, a expressão cerratenses quer dizer: “gente do Cerrado (Aliança Cerrado 2025)". E com muita satisfação, eu repito: Sim! Eu vi Cerradão!

Porque a satisfação? Fiz várias expedições curtas pela zona rural de Iporá mais alguns municípios circunvizinhos nestas férias, e certa manhã em Jacinópolis, virei à esquerda em um trecho vicinal que ficava cada vez mais estreito, e então me deparei com este fragmento de vegetação natural em uma propriedade, registrado na imagem acima. Neste momento, lembrei-me novamente do professor Divino Brandão, um de meus maiores mentores na UFG, que certa vez reclamou sobre a dificuldade de encontrar fisionomias de Cerradão.

Hoje, quase trinta anos após ouvir isto, concordo com ele. E o motivo deve estar relacionado aos solos bem drenados e profundos, onde normalmente as fisionomias de Cerradão são encontradas (Henriques 2005). Ao que me parece, Cerradões também se desenvolvem em áreas muito planas, e consequentemente mais favoráveis para atividades agropastoris.

Cerradões são florestas (Figura 1), apesar de estarem inseridos no grupo “Cerrado sensu lato” (Oliveira-Filho & Ratter 2002). Segundo Henriques (2005), a árvore Emmotum nitens é uma espécie indicadora desta fisionomia.

 


 


Figura 1. Detalhe do Cerradão em Jacinópolis, zona Rural de Iporá, estado de Goiás. A árvore de folhas escuras provavelmente é a indicadora Emmotun nitens. Ver texto para maiores detalhes. Foto do autor, 30-07-2025.

 

Foi uma manhã de expedição tão proveitosa, que voltei almejando redigir outro livrinho, desta vez sobre fisionomias vegetais de Cerrado: o que já estou adiantando, e tomara que dê certo! E assim vamos indo, e novamente...

Salvem o Cerrado! A todos um feliz domingo dos Pais.

 

Referências

Aliança Cerrado. Cerratenses: centro de excelência do Cerrado. Disponível em: < https://aliancacerrado.jimdofree.com/cerratenses/#:~:text=Cerratense%20vem%20do%20termo%20%E2%80%9CHomo,cultural%20e%20ambiental%20de%20Bras%C3%ADlia. > . Acesso em: 10-08-2025.

Henriques, R. P. B. Influência da história, solo e fogo na dinâmica das fitofisionomias no bioma Cerrado. In: Scariot, A., Souza-Filho, J. C., Felfili, J. M. (Eds.). Cerrado: ecologia, biodiversidade e conservação. Brasília: Ministério do Meio ambiente, p. 74-92, 2005.

Oliveira-Filho, A. T., Ratter, J. A. Vegetation physiognomies and woody flora of the Cerrado Biome. In: Oliveira, P. S., Marquis, R. J. (Eds.). The Cerrados of Brazil: ecology and natural history of a neotropical savanna. New York: Columbia University Press, p. 91-120, 2002.


Daniel Blamires. Doutor Ciências Ambientais. Docente UEG-Iporá.

Juntos pela biosfera. [Biologia da Conservação].

      Provavelmente Campo Cerrado. Senador Canedo-GO, março 1995. Foto do autor.   “I can hear the whole world singing together ...