quinta-feira, 27 de novembro de 2025

A inspiração para “Resumos das Aulas”. [Todas as Disciplinas].

 



Primeira página de um “Resumo de Aula”. Graduação em Ciências Biológicas, UFG-Goiânia. Data: Março de 1993 ou 1994.

 

“(...). ...mas também a fornecer exemplos inspiradores num mundo onde histórias assim parecem ser tão escassas. (Fernandez 2005, p. 14-15). ”

 

Em busca de dados para um novo livro, encontrei este resumo impresso, do tempo das “bancas de Xerox”. Um texto que remonta meus tempos de graduação em Ciências Biológicas, na UFG-Goiânia, nos anos 1990. À época, grande parte de nossos professores deixavam arquivos para “xerocopiarmos”, inclusive sinopses (resumos) como esta – redigidas por eles - de assuntos previamente explicados em sala de aula.

Ao se referir a grandes naturalistas do passado, Fernandez (2005) lamenta o tempo atual, carente de referências históricas. Na minha opinião, grande parte da juventude parece seguir mercadores de ilusões e demais oportunistas, neste paradoxal tempo das redes sociais.

Até hoje, a maioria de minhas grandes referências são meus professores na graduação e pós-graduação, muitos dos quais extremamente temperamentais. Mas, independentemente destes aspectos ad hominem, suas aulas e orientações abriram minha percepção como nunca.

E assim nasceu o Blog “Resumos das Aulas”, prezados alunos. A partir de uma das boas lembranças que perfaziam a rotina dos meus docentes, ao longo dos corredores do ICB (Instituto de Ciências Biológicas - UFG).

Então, sempre que posso, faço uma singela homenagem a meus professores. Afinal, tive grandes referências acadêmicas, em um tempo de tantas mudanças bruscas, charlatanismo e ideias confusas.

Pensem nisso, estimados alunos...

 

Referência

Fernandez, F. O poema imperfeito: crônicas de biologia, conservação da natureza e seus heróis, 2º Edição. Curitiba: Editora UFPR, 2005.


Daniel Blamires. Doutor Ciências Ambientais. Docente UEG-Iporá.

sábado, 22 de novembro de 2025

A bicicleta. [Orientações].

 

 



 

Córrego Bonsucesso, zona rural de Senador Canedo-GO. Final de 1994. Foto: Autor.

 

Oi pessoal! Então... Relutei muito em não escrever este texto, para não deixar meu Blog excessivamente carregado com demagogias. Mas voltei atrás, e decidi recontar esta história, afinal já postei este assunto em meu perfil Facebook a mais de dez anos atrás. Mas, infelizmente não consegui encontrar nem a primeira publicação, nem tampouco seu arquivo original. Assim, recontarei o que já foi escrito previamente.

No final de 1994, eu procurava áreas para pesquisar anfíbios em Senador Canedo, grande Goiânia, onde fui criado. A intenção era propor a meu orientador um estudo para conclusão de curso, a partir de dados coletados na minha então cidade. Assim, sai fotografando vários mananciais de Senador Canedo, para depois mostrar as fotos a meu orientador e redigir um projeto. Não surgiu apoio logístico para Senador Canedo, então nossos dados foram coletados em uma reserva ambiental de Silvânia, município próximo a Anápolis.

Notem que, na margem do córrego, há uma bicicleta. Sim! Nesta época as condições financeiras minhas e de meus familiares era difícil, ao menos em relação a hoje, como já adiantei no prefácio de um dos meus livros (Blamires 2023), e aqui detalharei outros aspectos. Na maioria dos dias da semana, eu estudava em tempo integral no Campus Samambaia-Goiânia, distante até uma hora e meia de ônibus de minha casa. De volta a Senador Canedo, eu lecionava a noite em uma escola estadual, pois era preciso trabalhar e sustentar meus estudos.

E não somente meus estudos, pessoal... Nesta época meu Pai padeceu com sérios problemas de alcoolismo e transtorno bipolar, então minha mãe contava com minha ajuda financeira, e mais tarde de meu irmão Leandro. Sem dúvida, eram tempos difíceis, marcados por cansaço e tormentas. E voltando à bicicleta... Com ela, eu ia para o trabalho, e mais tarde – já recém formado – meu modesto meio de transporte foi útil para coletar os dados utilizados em minha dissertação de mestrado: quem sabe assunto para outra postagem?

Eu fiz uma escolha: a de simplesmente persistir nos estudos, e me intensificar cada vez mais na carreira optada. E na medida do possível, também fui investindo progressivamente em leitura. E como prescrevi muitas vezes neste Blog (por exemplo, Blamires 2025), os livros de Edward Wilson me trouxeram muita inspiração e coragem para prosseguir. Importante ressaltar que, em “Naturalista” (Wilson 1997), o autor inclusive atesta os problemas de saúde e o fim da vida de seu pai, também alcoólatra!

E se Wilson (2015) confessou que “nunca mudou”, prezados alunos, eu também fiz o mesmo com relação à profissão que escolhi. Ademais, eu também ousaria dizer que :


“Eu nunca desisti, e persisti com humildade.”


Simplesmente por amor a minha vocação. Assim segui rumo ao mestrado, doutorado, e todo o restante que também contei no prefácio de outro livro (Blamires 2022).

Então, prezados alunos. Estamos vivendo tempos de crise e dissonância cognitiva a nível mundial, mas sugiro isto a vocês: apenas persistam! Estejam conscientes que nada vem facilmente, e que o mercado de trabalho prefere os constantes e humildes, mais até àqueles que são apenas gênios.

Abraços a todos, e assim vamos indo,

 

Referências


Blamires, D. Aves Urbanas de Iporá, estado de Goiás: baseado em 11 inventários avifaunísticos na malha urbana municipal, 1ª. edição. São José dos Pinhais: Brazilian Journals, 2022. DOI: 10.35587/brj.ed.0001822

Blamires, D. Ecologia no quadro: Temas ecológicos com figuras manuscritas. São José dos Pinhais: Brazilian Journals, 2023. DOI: 10.35587/brj.ed.0002193

Blamires, D. De um gigante para jovens naturalistas: conselhos de Edward Wilson. [Todas as disciplinas]. Resumos das Aulas. 2025 Disponível em: < https://resumosdasaulas.blogspot.com/2025/07/de-um-gigante-para-jovens-naturalistas.html > . Acesso em: 22-11-2025.

Wilson, E. O. Naturalista. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1997.

Wilson, E. O. Cartas a um jovem cientista. São Paulo: Editora Companhia das Letras, 2015.

 

Daniel Blamires. Doutor Ciências Ambientais. Docente UEG-Iporá.

quinta-feira, 13 de novembro de 2025

As avessas: escrevendo projetos e compilando dados. [Orientações].

 

 



Caderno para compilar dados de pesquisa. Fonte: Autor, 12-11-2025.

 

“(...). O cientista de maior êxito pensa como poeta — de forma abrangente, às vezes fantasiosa — e trabalha como contador — que é como o mundo o enxerga. (...).” Wilson, E. O. (2018, Kindle 14%).

 

Oi pessoal! Neste momento estou redigindo vários projetos de pesquisa, e também planos de curso para futuros alunos de Iniciação Científica e Trabalho de Curso. Como prescrevi (Blamires 2025), tenho me preparando para estudos ornitológicos além da malha urbana iporaense.

Um tempo que se repete... Com busca de ideias, muita reclusão, inclusive várias horas recolhido solitariamente a um escritório, apenas lendo e escrevendo. Uma vez coletados os dados, são necessárias muitas outras horas identificando espécies, organizando cautelosamente o que foi obtido em campo, para depois compilar os dados em planilhas. Estas atividades de “contador”, como Edward Wilson afirma em dois de seus livros (Wilson 2008, 2018), perfazem grande parte de quaisquer pesquisas.

E assim, na maior parte do tempo o cientista é, digamos, apenas uma pessoa reclusa a um cômodo, com muitos dados para compilação prévia. Análises, discussão, elaboração do manuscrito, são outras etapas rigorosas que seguem, mas ainda assim conclusivas, e que parecem dispender menos tempo.

Pessoal... E neste sentido, há quase trinta anos entro nestas rotinas de reclusão, a ponto de me sentir um pouco fora do espaço-tempo normal. E no final, é assim que se vai adiante no mundo acadêmico: com uma rigorosa rotina que as vezes nos faz sentir “às avessas”. Claro! Sempre sobra tempo para atividade física, convívio espontâneo com a família, fazer fofocas, rir muito... E ouvir música! Eu, profundamente apaixonado pelo som das ilhas britânicas, com frequência ouço algo nos intervalos, e a música Wearing The Inside Out (Pink Floyd 1994), identifica esta situação. A tradução do título é exatamente essa: “as avessas”.

 


  

Wearing The Inside Out. De Pink Floyd (1994).


Era esse som que ouvíamos nos meus saudosos tempos de graduação... Cada um com seus hábitos musicais, mas nesse sentido, eu já vivo no passado. E vida que segue! Abraços a todos, persistam sempre, e tudo se ajeita no final.

 

Referências

Blamires, D. Aos discentes das cidades próximas [Orientações]. Resumos das Aulas. 2025. Disponível em: < https://resumosdasaulas.blogspot.com/2025/09/aos-discentes-das-cidades-proximas.html > . Acesso em: 13-11-2025.

Pink Floyd. The Division Bell. CD, LP. London: EMI Records, 1994.

Wilson, E. O. A criação: como salvar a vida na Terra. São Paulo: Editora Companhia das Letras, 2008.

Wilson, E. O. O sentido da existência humana. São Paulo: Editora Companhia das Letras,  2018.

 

Daniel Blamires. Doutor Ciências Ambientais. Docente UEG-Iporá.

 

quarta-feira, 5 de novembro de 2025

Trocando o boi, aumentando as vacas: Teorema de Hardy-Weinberg. [Genética de Populações].

 

 


 

Frequência gênica obtida e esperada do alelo “a”, conforme o Teorema de Hardy-Weinberg (q=0,5), nas gerações de uma população idealizada. Fonte: Autor, 05-11-2025.


Oi pessoal! Como sempre repito em sala-de-aula, a biologia tem algumas concepções que simplesmente não podemos esquecer, considerando sua notável importância. Há muitos casos assim, dentre os quais o Teorema de Hardy-Weinberg. Sugiro olhar os fundamentos deste assunto, em fontes mais importantes da biologia evolutiva (Futuyma 2003, Ridley 2006, Beiguelman 2008). Estas foram as referências mais consultadas para o preparo desta postagem.

Desenvolvido independentemente, pelo matemático britânico Godfrey H. Hardy (1877-1947) e o médico alemão Wilhelm Weinberg (1862–1937), o Teorema de Hardy-Weinberg postula que:

 

“Numa grande população (pamítica), livre de fatores evolutivos e com acasalamentos aleatórios, as frequências gênicas e genotípicas permanecem constantes ao longo das gerações. ”

 

Como se chegou a este enunciado? Inicialmente, considerando as frequências gênicas de dois alelos A e a em uma população com muitos indivíduos, livres de fatores evolutivos e acasalando-se ao acaso, onde:

 

I. Frequências gênicas. No equilíbrio:

 

A = p = 0,5

a = q = 0,5

q = 1,0

 

Sendo p e q as frequências gênicas dos alelos A e a, respectivamente. No equilíbrio, este valor intermediário seria mantido ao longo das gerações (ver imagem acima).

 

II. Frequências genotípicas. Considerando o cruzamento entre dois genótipos heterozigotos, temos que:

 



 

 

Figura 1. Cruzamento entre dois genótipos heterozigotos. p: frequência genotípica do alelo A; q: frequência genotípica do alelo a. Fonte: Autor, 05-11-2025.

 

Pois é... Tive que manuscrever novamente, porque não consegui montar a tabela no computador com todos os seus detalhes: vida que segue! O resultado do cruzamento acima é:

 

AA + Aa + Aa + aa

AA + 2Aa + aa

 

Ao substituir os alelos por suas respectivas frequências gênicas, então temos:

 

+ 2pq +

 

Substituindo p e q por seus valores no equilíbrio, então o resultado é:

 

(0,5)² + 2(0,5*0,5) + (0,5)²=  1,0

 

III. Equilíbrio de Hardy-Weinberg. E segue o resultado final:

 

p + q = 1,0

+ 2pq + = 1,0

 

Conclusão: as frequências gênicas e genotípicas permanecem constantes ao longo das gerações.

 

Mas... Desde quando populações ficam totalmente livres de fatores evolutivos, tipo mutações, por exemplo? Talvez nunca, no final das contas. Assim, na prática uma população intercruzante nunca atingirá o equilíbrio total entre suas frequências gênicas e genotípicas. Contudo, o Teorema de Hardy-Weinberg é um importante referencial, para avaliar quanto uma população está distante ou próxima ao equilíbrio gênico/genotípico. Estatisticamente, em um teste de hipóteses tipo , o equilíbrio é a frequência genotípica esperada (fe) a ser comparada com uma frequência obtida (fo).

Assim, o Equilíbrio de Hardy-Weinberg é um fundamento importante, por exemplo em um curral, para: a). Trocar um velho boi reprodutor; b). Aumentar o número de vacas. Duas medidas que evitam os problemas da endogamia (cruzamento entre indivíduos geneticamente aparentados), mantendo acasalamentos aleatórios e alta variabilidade genética. 

Entenderam a grande importância econômica do teorema?

 

Referências

Beiguelman, B. Genética de Populações Humanas. Ribeirão Preto: Sociedade Brasileira de Genética, 2008.

Futuyma, D. Biologia Evolutiva, 2ª edição. Ribeirão Preto: FUNCEP-RP, 2003.

Ridley, M. Evolução. Porto Alegre: Editora Artmed, 2006.

 

Daniel Blamires. Doutor Ciências Ambientais. Docente UEG-Iporá.

 

Juntos pela biosfera. [Biologia da Conservação].

      Provavelmente Campo Cerrado. Senador Canedo-GO, março 1995. Foto do autor.   “I can hear the whole world singing together ...