Inventários avifaunísticos sempre
possuem uma descrição tipo: “...A sequência taxonômica e os nomes científicos
seguem...” Porquê? Consideremos a necessidade, em quaisquer listagens de
espécies ou organização de material nos acervos biológicos, a disposição dos
dados em uma sequência funcional. Assim, consideremos as seguintes espécies de
aves:
CANÁRIO
EMA
SAÍRA
GAVIÃO-CARIJÓ
Para simplificar, focaremos
apenas nos nomes populares das espécies. A princípio, poderíamos organizá-las
simplesmente conforme as iniciais de seus nomes, em ordem alfabética.
CANÁRIO
EMA
GAVIÃO-CARIJÓ
SAÍRA
Contudo, imaginem um acervo cujo
material biológico das espécies estivesse disposto apenas conforme a sequência
do alfabeto. As peles do canário, por exemplo, estariam ao lado das peles de
emas: duas aves de fato, mas extremamente distintas entre si. O mesmo caso para
o gavião-carijó e a saíra. Consideremos agora a história natural da Classe Aves
onde, conforme os registros fósseis e estudos sobre sua sequência lógica, todas
as espécies convergem para uma mesma origem ancestral Dinossauria, no período
jurássico (+201-145 m.a.). Neste contexto, é possível montar a
“Filogenia”: um diagrama ramificado que parte de um ancestral comum, e
diversifica-se em outros níveis taxonômicos ao longo do tempo, sendo a hipótese
evolutiva para uma linhagem, como por exemplo as aves.
No caso das aves, o
ancestral-comum mais provável pertenceu ao gênero Archaeopteryx, ou similar. Uma das principais etapas do estudo
filogenético é a distinção de duas características básicas:
a). Plesiomorfias:
características primitivas, provenientes do ancestral comum. Nas aves as penas, o bico e a postura bípede são características plesiomórficas;
b). Apomorfias: características
derivadas, mais recentes e não encontradas no ancestral comum. A siringe das
aves passeriformes-canoras, ou a nectarivoria dos beija-flores, são prováveis
exemplos de caracteres apomórficos.
Assim, atualmente a melhor
alternativa é distribuir as espécies na sequência filogenética de
diversificação a partir do ancestral comum, conforme a seguir:
EMA
GAVIÃO-CARIJÓ
CANÁRIO
SAÍRA
Entre dois extremos, para efeito
didático podemos supor que a Ema é mais “primitiva” e a saíra mais “derivada”,
respectivamente. Notem que o efeito da dissimilaridade foi corrigido pela
sequência filogenética, também denominada taxonômica, na literatura. Esta
sequência e os nomes científicos são periodicamente atualizados conforme novas
hipóteses filogenéticas. Na ornitologia brasileira, o Comitê Brasileiro de
Registros Ornitológicos (CBRO) encarrega-se de atualizar a sequência taxonômica
e os nomes científicos das espécies.
A sequência
taxonômica-filogenética é, de fato, um procedimento que prevalece na literatura
simplesmente por ser mais funcional, claro e objetivo. Uma importante disposição
que remonta estudos de célebres naturalistas do passado, como Charles Darwin,
Ernest Haeckel e Willi Hennig.
Referências:
Blamires, D. A luz da evolução
nas ciências biomédicas: biologia evolutiva, pandemias, e o legado de três
cientistas para a humanidade. Brazilian Journal of Development, v. 8, n. 3, p. 17832-17840, 2022.
Dawkins, R.H. O relojoeiro cego. São Paulo: Editora Companhia das Letras,
1986.
Darwin. C.R. A origem das espécies. São Paulo: Editora Martin Claret, 2005.
Pacheco J.F., Silveira L.F.,
Aleixo A., Agne C.E., Bencke G.A., Bravo G.A., Brito G.R.R., Cohn-Haft M.,
Maurício G.N., Naka L.N., Olmos F., Posso S.R., Lees A.C., Figueiredo L.F.A.,
Carrano E., Guedes R.C., Cesari E., Franz I., Schunck F., Piacentini V.Q.
Annotated checklist of the birds of Brazil by the Brazilian Ornithological
Records Commitee – second edition. Ornithology Research, DOI: https://doi.org/10.1007/s43388-021-00058-x
, 2021.
Pough F.H., Janis C.M., Heiser,
J.B. A vida dos vertebrados, 2ª edição.
São Paulo: Atheneu, 1999.
Ridley, M. Evolução. Porto Alegre: Editora Artmed, 2006.
Trajano, E. Aves, tópico 6. Disponível em: < https://docplayer.com.br/18631541-Aves-6-licenciatura-em-ciencias-usp-univesp-eleonora-trajano-6-1-origem-das-aves-6-2-adaptacoes-das-aves-para-o-voo-6-3-diversidade-das-aves.html
>. Acesso em: 12-02-2024.
Dr. Daniel Blamires. Docente UEG-Iporá.
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