segunda-feira, 12 de fevereiro de 2024

A sequência taxonômica. [Orientações]


Inventários avifaunísticos sempre possuem uma descrição tipo: “...A sequência taxonômica e os nomes científicos seguem...” Porquê? Consideremos a necessidade, em quaisquer listagens de espécies ou organização de material nos acervos biológicos, a disposição dos dados em uma sequência funcional. Assim, consideremos as seguintes espécies de aves:

 

CANÁRIO

EMA

SAÍRA

GAVIÃO-CARIJÓ

 

Para simplificar, focaremos apenas nos nomes populares das espécies. A princípio, poderíamos organizá-las simplesmente conforme as iniciais de seus nomes, em ordem alfabética.

 

CANÁRIO

EMA

GAVIÃO-CARIJÓ

SAÍRA

 

Contudo, imaginem um acervo cujo material biológico das espécies estivesse disposto apenas conforme a sequência do alfabeto. As peles do canário, por exemplo, estariam ao lado das peles de emas: duas aves de fato, mas extremamente distintas entre si. O mesmo caso para o gavião-carijó e a saíra. Consideremos agora a história natural da Classe Aves onde, conforme os registros fósseis e estudos sobre sua sequência lógica, todas as espécies convergem para uma mesma origem ancestral Dinossauria, no período jurássico (+201-145 m.a.). Neste contexto, é possível montar a “Filogenia”: um diagrama ramificado que parte de um ancestral comum, e diversifica-se em outros níveis taxonômicos ao longo do tempo, sendo a hipótese evolutiva para uma linhagem, como por exemplo as aves.

 



 

No caso das aves, o ancestral-comum mais provável pertenceu ao gênero Archaeopteryx, ou similar. Uma das principais etapas do estudo filogenético é a distinção de duas características básicas:

a). Plesiomorfias: características primitivas, provenientes do ancestral comum. Nas aves as penas, o bico e a postura bípede são características plesiomórficas;

b). Apomorfias: características derivadas, mais recentes e não encontradas no ancestral comum. A siringe das aves passeriformes-canoras, ou a nectarivoria dos beija-flores, são prováveis exemplos de caracteres apomórficos.

Assim, atualmente a melhor alternativa é distribuir as espécies na sequência filogenética de diversificação a partir do ancestral comum, conforme a seguir:

 

EMA

GAVIÃO-CARIJÓ

CANÁRIO

SAÍRA

 

Entre dois extremos, para efeito didático podemos supor que a Ema é mais “primitiva” e a saíra mais “derivada”, respectivamente. Notem que o efeito da dissimilaridade foi corrigido pela sequência filogenética, também denominada taxonômica, na literatura. Esta sequência e os nomes científicos são periodicamente atualizados conforme novas hipóteses filogenéticas. Na ornitologia brasileira, o Comitê Brasileiro de Registros Ornitológicos (CBRO) encarrega-se de atualizar a sequência taxonômica e os nomes científicos das espécies.

A sequência taxonômica-filogenética é, de fato, um procedimento que prevalece na literatura simplesmente por ser mais funcional, claro e objetivo. Uma importante disposição que remonta estudos de célebres naturalistas do passado, como Charles Darwin, Ernest Haeckel e Willi Hennig.

 

Referências:

Blamires, D. A luz da evolução nas ciências biomédicas: biologia evolutiva, pandemias, e o legado de três cientistas para a humanidade. Brazilian Journal of Development, v. 8, n. 3, p. 17832-17840, 2022.

Dawkins, R.H. O relojoeiro cego. São Paulo: Editora Companhia das Letras, 1986.

Darwin. C.R. A origem das espécies. São Paulo: Editora Martin Claret, 2005.

Pacheco J.F., Silveira L.F., Aleixo A., Agne C.E., Bencke G.A., Bravo G.A., Brito G.R.R., Cohn-Haft M., Maurício G.N., Naka L.N., Olmos F., Posso S.R., Lees A.C., Figueiredo L.F.A., Carrano E., Guedes R.C., Cesari E., Franz I., Schunck F., Piacentini V.Q. Annotated checklist of the birds of Brazil by the Brazilian Ornithological Records Commitee – second edition. Ornithology Research, DOI: https://doi.org/10.1007/s43388-021-00058-x , 2021.

Pough F.H., Janis C.M., Heiser, J.B. A vida dos vertebrados, 2ª edição. São Paulo: Atheneu, 1999.

Ridley, M. Evolução. Porto Alegre: Editora Artmed, 2006.

Trajano, E. Aves, tópico 6. Disponível em: < https://docplayer.com.br/18631541-Aves-6-licenciatura-em-ciencias-usp-univesp-eleonora-trajano-6-1-origem-das-aves-6-2-adaptacoes-das-aves-para-o-voo-6-3-diversidade-das-aves.html >. Acesso em: 12-02-2024.

 

Dr. Daniel Blamires. Docente UEG-Iporá.


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