segunda-feira, 26 de fevereiro de 2024

Dicas para um bom trabalho de campo. [Orientações].

 




Trecho do meu primeiro livro. Fonte: Blamires (2022).


A cerca de quinze anos atrás, um aluno me procurou no intervalo, para perguntar como eu conseguia descobrir “espécies novas”? Ele ficou sabendo sobre a foto que fiz no Campus IF Goiano-Iporá (acima), durante trabalho de campo com minha orientada Jaqueline Basílio de Oliveira. Custei a entender, mas logo percebi que a expressão “espécies novas” se referia à descoberta de aves até então não registradas em nosso município.

Assim, expliquei que a pesquisa ornitológica em campo requer não apenas equipamentos razoáveis, mas também uma conduta para obtenção dos dados, e que talvez muitos inventários amadores não sejam satisfatórios por isso. Esta conduta e estes procedimentos são detalhados a seguir:

 

a). Leitura e planejamento prévios. Antes das atividades de campo convém ler muitos textos similares ao trabalho a ser desenvolvido, bem como redigir um projeto científico no mínimo até o item “material e métodos” com: revisão bibliográfica, objetivos, descrição da área de estudo, procedimentos de campo e análise futura dos dados. Desenvolver atividades em campo sem planejamento prévio pode resultar um trabalho que não atenda a metas básicas, e acumule prejuízos.

b). Horários crepusculares. Os melhores períodos para inventários avifaunísticos são ao nascer e pôr-do-sol, quando as aves estão mais ativas. É possível efetuar trabalhos em outros horários, mas de fato os períodos crepusculares são mais satisfatórios.

c). Roupas de coloração neutra. Em campo, ornitólogos devem evitar trajes de tonalidades exuberantes, considerando que as aves enxergam mais cores do que nós, podendo fugir ou permanecerem imperceptíveis durante o censoreamento.

d). Silêncio. O aparelho auditivo das aves tem alcance similar ao nosso, não sendo assim tão potente. Entretanto, muita conversa na atividade de campo também afugenta as aves, sendo necessário que os ornitólogos permaneçam a maior parte do tempo em silêncio, ou conversando em tom baixo apenas o necessário.

e). Equipamentos específicos. Binóculos 7x35mm e 8x40mm são os mais recomendados para observação de aves, porque possuem ajuste focal mais eficaz neste contexto. Neste tempo de câmeras fotográficas digitais, são necessárias aquelas de maior alcance para longe: penso que com Zoom mínimo de 18x, tal como empregado por um dos meus alunos de mestrado no sul de Goiás (Silva & Blamires 2020). Gravadores digitais também são importantes para registro de canto, sendo suficientes em estudos onde bastam registros-documentados que comprovem a ocorrência da espécie.

f). Técnicas para censos em campo. O emprego de procedimentos padronizados tipo transeçção e contagem por pontos são imprescindíveis para obtenção de dados a serem analisados sistematicamente, após os trabalhos de campo. Às vezes, deparamo-nos com situações e locais de estudo onde é necessário que nós mesmos desenvolvamos um procedimento específico. Isto é possível, desde que o procedimento seja descrito com clareza, objetividade e fluência no item “material e métodos” do projeto, sem esquecer o emprego da linguagem técnica ornitológica.

 

E assim penso que estas dicas são suficientes para uma pesquisa ornitológica barata, que atenda trabalhos de curso, relatórios de iniciação científica, e no final um artigo científico em periódico de Qualis B1. Uma garrafinha-de-água para matar a sede, mais algumas balinhas-doces no bolso para hipoglicemia também são recomendáveis.

 

Referências:

Andrade, M. A. Aves Silvestres - Minas Gerais. Belo Horizonte: Conselho internacional para preservação das aves, 1997.

Bibby, C.J., Burguess, N.D., Hill, D.A., Mustoe, S.H. Bird Census Techniques, 2. ed. London: Academic Press, 2000.

Blamires, D. Aves urbanas de Iporá, estado de Goiás [Livro eletrônico]. São José dos Pinhais: Brazilian Journal, 2022.

Silva, J.V., Blamires, D. Avifauna de veredas em uma paisagem no sul do estado de Goiás. Revista Mirante, v. 13, n. 1, p. 169-192, 2020.

Trajano, E. Aves, tópico 6. Disponível em: < https://docplayer.com.br/18631541-Aves-6-licenciatura-em-ciencias-usp-univesp-eleonora-trajano-6-1-origem-das-aves-6-2-adaptacoes-das-aves-para-o-voo-6-3-diversidade-das-aves.html > . Acesso em: 26-02-2024.

 Dr. Daniel Blamires. Docente UEG-Iporá.


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