Capa de Ridley (2006). Fonte: Google.
A coevolução, ou evolução
recíproca entre duas ou mais espécies (Ridley 2006), é um dos tópicos
macroevolutivos mais abordados pela ecologia. Isto porque, segundo Ricklefs (2003),
é a base dos estudos sobre interações entre populações.
A capa do célebre livro de Ridley
(2006), reflete a descoberta de uma interação inseto polinizador-planta que
remonta mais de cem anos de estudos. Uma história contada em Cosmic Polymath
(2017), e sintetizada a seguir. Este assunto também é suscintamente apresentado
na referência principal deste texto (Ridley 2006), e mais detalhado em Home (2013).
a). Em Madagascar, um naturalista
descobriu a orquídea Angraecum
sesquipedale, uma epífita de copa florestal, e envia um espécime a Darwin,
no Reino Unido;
b). Em seu escritório residencial
no povoado de Down - região metropolitana de Londres - o naturalista britânico
Charles Robert Darwin examina a orquídea-de-Madagascar, com sua corola branca e
grande nectário. Darwin formula e hipótese que tal orquídea seria polinizada
por uma mariposa com probóscide gigante, compatível com seu nectário comprido;
c). Anos após a morte de Darwin, descobriram também, nas florestas da ilha de Madagascar, uma mariposa com
proboscide gigante: similar ao polinizador suposto pelo naturalista de Down. A
espécie foi descrita como Xanthopan
morgani praedicta, e apelidada “mariposa de Darwin”.
d). Em 1992, quase um século após
a descoberta da “mariposa de Darwin (Darwin's Moth)”, uma equipe de pesquisadores conseguiu registrar o momento em que X. morgani
praedicta poliniza Angraecum
sesquipedale.
Assim funciona a ciência... E
neste contexto, a coevolução é uma das teorias que explicam a evolução deste
caso de polinização. As descrições adiante remontam basicamente Ridley (2006).
A adaptação mútua entre duas ou
mais espécies é denominada coadaptação; ou quando espécies se adaptam reciprocamente,
uma em função da outra. Coadaptação sugere coevolução, mas não pode ser evidência
definitiva disso, por quê:
a). As linhagens podem estar
evoluindo independentemente em resposta ao ambiente, ficando assim mutuamente
adaptadas;
b). Para demonstrar a
coadaptação, é necessário justificar que as linhagens estão coadaptadas, e
também que seus ancestrais evoluíram juntos.
Outro mecanismo, a evolução
sequencial, é uma alternativa à coevolução e coadaptação. Ocorre quando, por
exemplo, uma linhagem evolui em função de outra, mas o contrário não acontece. De
qualquer modo, co-filogenias são duas filogenias com padrão similar de
ramificação (Figura 1).
Figura 1. Ilustração esquemática de co-filogenias. Fonte: autor.
Em geral, são apontadas três
explicações para as co-filogenias:
a). Coevolução: os dois taxa evoluíram reciprocamente, um em
resposta ao outro;
b). Evolução sequencial: as
mudanças em um taxa alteraram o
outro, mas o contrário não aconteceu;
c). Co-especiação sem coevolução.
Quando dois taxa não tem influência
mútua, mas algum fator extrínseco (ambiental, por exemplo) leva à especiação.
Voltando a um aspecto frequentemente apontado nas aulas... A natureza normalmente é multidimensional, e raramente pode ser avaliada por simples modelos cartesianos. Então segue a concepção de coevolução difusa, ou quando uma linhagem coevolui com várias outras. Embora tenha difícil compreensão, a coevolução difusa provavelmente é o principal mecanismo coevolutivo nas comunidades.
Outro importante aspecto,
normalmente constatado na coevolução predador-presa, é a corrida armamentista (arms race). A premissa de que, à medida
que predadores se tornam mais propensos à predação, suas presas são
selecionadas para evitá-los com maior eficácia.
A corrida armamentista leva ao que inicialmente pode ser concebido como “escalada evolutiva”, ou o princípio
que, à medida que os predadores foram desenvolvendo “armas” mais sofisticadas, suas
presas desenvolveram “defesas” mais eficazes ao longo do tempo. Vale ressaltar, neste contexto, que ambas linhagens em coevolução neutralizam seus efeitos,
não havendo assim progresso de uma em relação a outra.
Minha geração e a de vocês
cresceram assistindo os desenhos do Pica-Pau, por exemplo seu duelo com o "Nanico Bufador", o pequeno bandido ruivo do oeste selvagem (https://www.youtube.com/watch?v=cDqPz9GbQlE). O
duelo na rua principal do povoado, com armas cada vez maiores à medida que os adversários
se aproximam, segue a mesma dinâmica da corrida armamentista, ainda que seja apenas
uma fantasia muito engraçada do seu autor. Tipo assim... Quando a arte, involuntariamente,
imita um padrão da natureza.
Referências.
Cosmic Polymath. Madagascar Star Orchid and Hawk Moth. Disponível em: <
https://www.youtube.com/watch?v=Q8GdkMBluis > . Acesso em: 06-05-2025.
Home, D. Línguas de mariposa,
orquídeas e Darwin – o poder preditivo da evolução. The Guardian. 2013. Disponível em: < https://www.theguardian.com/science/lost-worlds/2013/oct/02/moth-tongues-orchids-darwin-evolution
> . Acesso em: 06-05-2025.
Ricklefs, R. E. A economia da natureza (5ª Ed.). Rio de
Janeiro: Editora Guanabara-Koogan, 2003.
Ridley, M. Evolução. Porto Alegre: Editora Armed, 2006.
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