terça-feira, 6 de maio de 2025

Coevolução e o Pica-Pau. [Evolução Orgânica].

 




Capa de Ridley (2006). Fonte: Google.

 

A coevolução, ou evolução recíproca entre duas ou mais espécies (Ridley 2006), é um dos tópicos macroevolutivos mais abordados pela ecologia. Isto porque, segundo Ricklefs (2003), é a base dos estudos sobre interações entre populações.

A capa do célebre livro de Ridley (2006), reflete a descoberta de uma interação inseto polinizador-planta que remonta mais de cem anos de estudos. Uma história contada em Cosmic Polymath (2017), e sintetizada a seguir. Este assunto também é suscintamente apresentado na referência principal deste texto (Ridley 2006), e mais detalhado em Home (2013).

 

a). Em Madagascar, um naturalista descobriu a orquídea Angraecum sesquipedale, uma epífita de copa florestal, e envia um espécime a Darwin, no Reino Unido;

b). Em seu escritório residencial no povoado de Down - região metropolitana de Londres - o naturalista britânico Charles Robert Darwin examina a orquídea-de-Madagascar, com sua corola branca e grande nectário. Darwin formula e hipótese que tal orquídea seria polinizada por uma mariposa com probóscide gigante, compatível com seu nectário comprido;

c). Anos após a morte de Darwin, descobriram também, nas florestas da ilha de Madagascar, uma mariposa com proboscide gigante: similar ao polinizador suposto pelo naturalista de Down. A espécie foi descrita como Xanthopan morgani praedicta, e apelidada “mariposa de Darwin”.

d). Em 1992, quase um século após a descoberta da “mariposa de Darwin (Darwin's Moth)”, uma equipe de pesquisadores conseguiu registrar o momento em que X. morgani praedicta poliniza Angraecum sesquipedale.

 

Assim funciona a ciência... E neste contexto, a coevolução é uma das teorias que explicam a evolução deste caso de polinização. As descrições adiante remontam basicamente Ridley (2006).

A adaptação mútua entre duas ou mais espécies é denominada coadaptação; ou quando espécies se adaptam reciprocamente, uma em função da outra. Coadaptação sugere coevolução, mas não pode ser evidência definitiva disso, por quê:

 

a). As linhagens podem estar evoluindo independentemente em resposta ao ambiente, ficando assim mutuamente adaptadas;

b). Para demonstrar a coadaptação, é necessário justificar que as linhagens estão coadaptadas, e também que seus ancestrais evoluíram juntos.

 

Outro mecanismo, a evolução sequencial, é uma alternativa à coevolução e coadaptação. Ocorre quando, por exemplo, uma linhagem evolui em função de outra, mas o contrário não acontece. De qualquer modo, co-filogenias são duas filogenias com padrão similar de ramificação (Figura 1).

 



 

Figura 1. Ilustração esquemática de co-filogenias. Fonte: autor.

 

Em geral, são apontadas três explicações para as co-filogenias:

 

a). Coevolução: os dois taxa evoluíram reciprocamente, um em resposta ao outro;

b). Evolução sequencial: as mudanças em um taxa alteraram o outro, mas o contrário não aconteceu;

c). Co-especiação sem coevolução. Quando dois taxa não tem influência mútua, mas algum fator extrínseco (ambiental, por exemplo) leva à especiação.

 

Voltando a um aspecto frequentemente apontado nas aulas... A natureza normalmente é multidimensional, e raramente pode ser avaliada por simples modelos cartesianos. Então segue a concepção de coevolução difusa, ou quando uma linhagem coevolui com várias outras. Embora tenha difícil compreensão, a coevolução difusa provavelmente é o principal mecanismo coevolutivo nas comunidades.

Outro importante aspecto, normalmente constatado na coevolução predador-presa, é a corrida armamentista (arms race). A premissa de que, à medida que predadores se tornam mais propensos à predação, suas presas são selecionadas para evitá-los com maior eficácia.

A corrida armamentista leva ao que inicialmente pode ser concebido como “escalada evolutiva”, ou o princípio que, à medida que os predadores foram desenvolvendo “armas” mais sofisticadas, suas presas desenvolveram “defesas” mais eficazes ao longo do tempo. Vale ressaltar, neste contexto, que ambas linhagens em coevolução neutralizam seus efeitos, não havendo assim progresso de uma em relação a outra.

Minha geração e a de vocês cresceram assistindo os desenhos do Pica-Pau, por exemplo seu duelo com o "Nanico Bufador", o pequeno bandido ruivo do oeste selvagem (https://www.youtube.com/watch?v=cDqPz9GbQlE). O duelo na rua principal do povoado, com armas cada vez maiores à medida que os adversários se aproximam, segue a mesma dinâmica da corrida armamentista, ainda que seja apenas uma fantasia muito engraçada do seu autor. Tipo assim... Quando a arte, involuntariamente, imita um padrão da natureza.

 

Referências.

Cosmic Polymath. Madagascar Star Orchid and Hawk Moth. Disponível em: < https://www.youtube.com/watch?v=Q8GdkMBluis > . Acesso em: 06-05-2025.

Home, D. Línguas de mariposa, orquídeas e Darwin – o poder preditivo da evolução. The Guardian. 2013. Disponível em: < https://www.theguardian.com/science/lost-worlds/2013/oct/02/moth-tongues-orchids-darwin-evolution > . Acesso em: 06-05-2025.

Ricklefs, R. E. A economia da natureza (5ª Ed.). Rio de Janeiro: Editora Guanabara-Koogan, 2003.

Ridley, M. Evolução. Porto Alegre: Editora Armed, 2006.

 

Daniel Blamires. Doutor Ciências Ambientais. Docente UEG-Iporá.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Juntos pela biosfera. [Biologia da Conservação].

      Provavelmente Campo Cerrado. Senador Canedo-GO, março 1995. Foto do autor.   “I can hear the whole world singing together ...