quinta-feira, 4 de abril de 2024

Origens do brasileiro: somos tão ruins assim? [DCDH].

 


Cerâmicas indígenas no Museu “Casa de Câmara e Cadeia”, Cidade de Goiás. Data: 01-11-2015.


Já ouvi muitas vezes brasileiros– com traços genéticos dos três grupos humanos constituintes de nosso povo – murmurarem frases tipo: “...Índios são preguiçosos, portugueses burros e negros indolentes...” Não ouvi isso de estrangeiros do mundo desenvolvido, mas de pessoas como eu: nascidas no Brasil e descendentes de indígenas, lusitanos e africanos.

Como antecipado em sala de aula, um dos propósitos da disciplina “Diversidade, Cidadania e Direitos Humanos” é combater preconceitos: um dos maiores entraves ao avanço nos países traumatizados pelo colonialismo, tipo nossa nação. Assim, esta postagem reflete sobre nossas origens, num contexto mais otimista. Isto não significa macular os erros, mas sim: a). Não se fixar apenas nos problemas do passado; b). Não condenar as novas gerações pelo que as antigas fizeram; c). Focar nos aspectos positivos e contribuição de cada grupo formador da nação brasileira.

Comecemos pelos pioneiros ameríndios. Segundo vários estudos paleoantropológicos, provavelmente são povos de origem oriental – geneticamente similares aos mongóis, por exemplo – de hábitos caçadores-coletores-nômades, que migraram da Ásia para as américas sobre uma ponte de gelo denominada “Beríngia”, que cobria a pequena porção marítima do atual Estreito de Bering durante a última era glacial, na época pleistocena superior (cerca de 14mil anos A.P.).

Nos milênios seguintes, estes povos se espalharam até os confins das terras americanas, condicionando-se culturalmente conforme os recursos e adversidades em cada respectivo ambiente ocupado. Assim cada povo originário americano tornou-se conhecedor de tudo o que estava ao seu redor, desenvolvendo culturas complexas e amplamente sincronizadas com sua caça, coleta, agricultura e proteção. Suas mitologias reverenciam as terras como mães provedoras das suas necessidades, revelando uma relação ecologicamente sustentável de gratidão à natureza pelas provisões recebidas. A colonização europeia trouxe não apenas o genocídio aos povos originários, mas também narrativas infundadas de desmoralização contra sua ampla cultura. Infelizmente, esta desmoralização perdura no cotidiano do povo brasileiro.

Os portugueses formaram o primeiro império navegador da história, a partir do final da Idade Média, com colônias em todo o planeta. Durante milênios, a Europa manteve uma navegação simplificada, destinada basicamente à travessia do Mar Mediterrâneo, mas foram nossos ancestrais lusitanos os responsáveis pelo avanço da tecnologia náutica. Importante ressaltar que espanhóis, holandeses, britânicos e franceses simplesmente usufruíram a seguir dos complexos procedimentos navais lusitanos.

Entretanto, o que levou Portugal ao pioneirismo naval europeu? Dois aspectos básicos: a). Ordem de Cristo: o Rei Dom Dinis I (1261-1325) protegeu sobreviventes da rica e perseguida “Ordem dos Cavaleiros Templários” em Portugal, denominando-a “Ordem de Cristo”, sendo estes os patrocinadores das grandes navegações; b). Escola de Sagres: parece nunca ter havido uma academia de pesquisa náutica destinada ao desenvolvimento de técnicas navais, mas o Infante/Duque de Viseu Dom Henrique (1394-1460), estimulou navegadores e estudiosos no povoado de Sagres para desenvolvimento de tecnologias náuticas além-mar. Por estes aspectos básicos, bem como pela coragem de navegar rumo ao desconhecido, nossos ancestrais portugueses foram realmente geniais, e a seu tempo revolucionaram a cultura europeia.

Enfim, a cultura africana abrange a origem da espécie. O Homo sapiens, que remonta 350-200 mil anos A.P., teve sua origem e evolução nas savanas africanas, onde viveu a maior parte do tempo compondo populações caçadoras-coletoras, disseminando-se pelo resto do planeta entre 60-40 mil anos passados. Toda a história da civilização euroasiática, importante ressaltar, abrange a origem da escrita no Oriente Médio nos primórdios da idade antiga: um tempo insignificante perante a história de nossa espécie. Ademais, a grande maioria do nosso genoma remonta nossa gênese na África, e até menos de 10 mil anos todas as pessoas tinham pele negra, sendo o leucismo (pele branca) com origem independente na Europa e norte do extremo-oriente-asiático, sendo assim muito recente na biologia humana.

Uma das civilizações mais importantes da humanidade, o Egito antigo, aflorou ao norte da África, sendo parte do “crescente-fértil”, onde ascendeu a grande revolução do neolítico e origem das atividades agropastoris. Além dos Egípcios, outras culturas com alto nível de complexidade e hierarquização cultural afloraram no ocidente, oriente e centro africanos, culminando em até três impérios. Culturas africanas também chegaram a produzir artefatos de ferro independente de influências euroasiáticas. A invasão islâmica a partir do período medieval também influenciou socioeconomicamente várias etnias na África.

Contudo, os europeus coloniais e imperialistas retrocederam os povos da África a uma cultura quase neolítica. E além da escravização, povos tiveram suas fronteiras étnicas alteradas, riquezas saqueadas, são vítimas de narrativas difamatórias até hoje, mas não tiveram sequer o direito de contar a sua própria história... Na verdade, deveríamos todos contemplar nossa mãe África com grande reverência e afeto, pois ela nos fez humanos.

Em suma, somos hoje uma mistura de três grupos básicos com passado glorioso mediante suas condições de espaço e tempo, e lembrar apenas dos seus aspectos negativos pretéritos pode comprometer o que todos nós somos hoje nesta nação: brasileiros! Uma nação forte também se ergue pela reverência a suas raízes históricas.

 

Referências.

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Stix, G. Pegadas nítidas de um passado distante. Revista Scientific American do Brasil 6 (75): 42-49, 2008.

 Dr. Daniel Blamires. Docente UEG-Iporá.


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