Cerâmicas indígenas no Museu “Casa de Câmara e Cadeia”, Cidade de
Goiás. Data: 01-11-2015.
Já ouvi muitas vezes brasileiros–
com traços genéticos dos três grupos humanos constituintes de nosso povo –
murmurarem frases tipo: “...Índios são preguiçosos, portugueses burros e negros
indolentes...” Não ouvi isso de estrangeiros do mundo desenvolvido, mas de
pessoas como eu: nascidas no Brasil e descendentes de indígenas, lusitanos e
africanos.
Como antecipado em sala de aula,
um dos propósitos da disciplina “Diversidade, Cidadania e Direitos Humanos” é
combater preconceitos: um dos maiores entraves ao avanço nos países traumatizados
pelo colonialismo, tipo nossa nação. Assim, esta postagem reflete sobre nossas
origens, num contexto mais otimista. Isto não significa macular os erros, mas
sim: a). Não se fixar apenas nos problemas do passado; b). Não condenar as
novas gerações pelo que as antigas fizeram; c). Focar nos aspectos positivos e
contribuição de cada grupo formador da nação brasileira.
Comecemos pelos pioneiros ameríndios.
Segundo vários estudos paleoantropológicos, provavelmente são povos de origem
oriental – geneticamente similares aos mongóis, por exemplo – de hábitos
caçadores-coletores-nômades, que migraram da Ásia para as américas sobre uma
ponte de gelo denominada “Beríngia”, que cobria a pequena porção marítima do
atual Estreito de Bering durante a última era glacial, na época pleistocena
superior (cerca de 14mil anos A.P.).
Nos milênios seguintes, estes povos
se espalharam até os confins das terras americanas, condicionando-se
culturalmente conforme os recursos e adversidades em cada respectivo ambiente
ocupado. Assim cada povo originário americano tornou-se conhecedor de tudo o
que estava ao seu redor, desenvolvendo culturas complexas e amplamente
sincronizadas com sua caça, coleta, agricultura e proteção. Suas mitologias
reverenciam as terras como mães provedoras das suas necessidades, revelando uma
relação ecologicamente sustentável de gratidão à natureza pelas provisões
recebidas. A colonização europeia trouxe não apenas o genocídio aos povos
originários, mas também narrativas infundadas de desmoralização contra sua
ampla cultura. Infelizmente, esta desmoralização perdura no cotidiano do povo
brasileiro.
Os portugueses formaram o
primeiro império navegador da história, a partir do final da Idade Média, com
colônias em todo o planeta. Durante milênios, a Europa manteve uma navegação
simplificada, destinada basicamente à travessia do Mar Mediterrâneo, mas foram
nossos ancestrais lusitanos os responsáveis pelo avanço da tecnologia náutica.
Importante ressaltar que espanhóis, holandeses, britânicos e franceses
simplesmente usufruíram a seguir dos complexos procedimentos navais lusitanos.
Entretanto, o que levou Portugal
ao pioneirismo naval europeu? Dois aspectos básicos: a). Ordem de Cristo: o Rei
Dom Dinis I (1261-1325) protegeu sobreviventes da rica e perseguida “Ordem dos
Cavaleiros Templários” em Portugal, denominando-a “Ordem de Cristo”, sendo estes os patrocinadores das grandes navegações; b). Escola de Sagres: parece
nunca ter havido uma academia de pesquisa náutica destinada ao desenvolvimento
de técnicas navais, mas o Infante/Duque de Viseu Dom Henrique (1394-1460), estimulou
navegadores e estudiosos no povoado de Sagres para desenvolvimento de
tecnologias náuticas além-mar. Por estes aspectos básicos, bem como pela
coragem de navegar rumo ao desconhecido, nossos ancestrais portugueses foram realmente
geniais, e a seu tempo revolucionaram a cultura europeia.
Enfim, a cultura africana abrange
a origem da espécie. O Homo sapiens, que
remonta 350-200 mil anos A.P., teve sua origem e evolução nas savanas
africanas, onde viveu a maior parte do tempo compondo populações
caçadoras-coletoras, disseminando-se pelo resto do planeta entre 60-40
mil anos passados. Toda a história da civilização euroasiática, importante
ressaltar, abrange a origem da escrita no Oriente Médio nos primórdios da idade
antiga: um tempo insignificante perante a história de nossa espécie. Ademais, a
grande maioria do nosso genoma remonta nossa gênese na África, e até menos de
10 mil anos todas as pessoas tinham pele negra, sendo o leucismo (pele branca) com
origem independente na Europa e norte do extremo-oriente-asiático, sendo assim
muito recente na biologia humana.
Uma das civilizações mais
importantes da humanidade, o Egito antigo, aflorou ao norte da África, sendo
parte do “crescente-fértil”, onde ascendeu a grande revolução do neolítico e
origem das atividades agropastoris. Além dos Egípcios, outras culturas com alto
nível de complexidade e hierarquização cultural afloraram no ocidente, oriente
e centro africanos, culminando em até três impérios. Culturas africanas também
chegaram a produzir artefatos de ferro independente de influências
euroasiáticas. A invasão islâmica a partir do período medieval também influenciou
socioeconomicamente várias etnias na África.
Contudo, os europeus coloniais e
imperialistas retrocederam os povos da África a uma cultura quase neolítica. E além
da escravização, povos tiveram suas fronteiras étnicas alteradas, riquezas
saqueadas, são vítimas de narrativas difamatórias até hoje, mas não tiveram
sequer o direito de contar a sua própria história... Na verdade, deveríamos
todos contemplar nossa mãe África com grande reverência e afeto, pois ela nos
fez humanos.
Em suma, somos hoje uma mistura de
três grupos básicos com passado glorioso mediante suas condições de espaço e
tempo, e lembrar apenas dos seus aspectos negativos pretéritos pode comprometer
o que todos nós somos hoje nesta nação: brasileiros! Uma nação forte também se
ergue pela reverência a suas raízes históricas.
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