Livro “A Invenção da Natureza”, de Wulf (2016). Fonte: Google.
Andrea Wulf (1967, Figura 1), genial
historiadora alemã (Wikipédia 2024a), resgatou a história de seu conterrâneo
passado, o naturalista prussiano polímata Alexander Von Humboldt. Em seu livro
(Wulf 2016), é detalhada a história de um nobre membro da corte dos reis
prussianos Frederico III e IV, que se tornou pioneiro em várias áreas de conhecimento
nas ciências da natureza, como geografia, climatologia, ecologia e biologia da
conservação, sendo também considerado o fundador da Biogeografia.
Figura 1. Andrea Wulf, historiadora alemã. Fonte: Wikipedia (2024a)
Este texto é basicamente uma
sinopse de Wulf (2016). Um livro tão importante, que chegou a ser citado em
vários periódicos científicos, como por exemplo a revista Nature (Editorial 2019). Amparadas por grandes mudanças
socioeconômicas como a revolução industrial, as ciências naturais ascenderam
no final do século XVIII. Em um tempo onde o método científico era empregado
basicamente para saúde, agropecuária, mineração e avanço industrial, o Barão de
Humboldt teve a iniciativa primária de utilizar esta poderosa artimanha da
humanidade para um propósito contrário: estudar a natureza como ela de fato é,
inclusive apresentando propostas mitigadoras para amenizar os impactos
ambientais. Outra ação inédita de Humboldt foi enxergar a natureza como um todo
holístico com muita erudição, em um tempo de ciências economicamente
fragmentadas.
Criado na corte dos monarcas prussianos,
Alexander Humboldt e seu irmão Wilhelm desenvolveram grande interesse pelo
conhecimento. Na companhia de grandes personalidades de seu país na época, como
o dramaturgo e naturalista Johann Volfgang Von Goethe (1749-1832, Wikipédia
2024b). Wilhelm Humboldt, muito ligado ao irmão por toda a vida, tornou-se um
importante estadista, diplomata e especialista em línguas estrangeiras.
Alexander, por outro lado, seguiu
os caminhos da natureza desde o princípio. No reino da Prússia, prestou por
anos serviços em mineração. Sua grande admiração pela história natural o levaram
ao conhecimento de outros célebres naturalistas da época, como Sir Joseph Banks, no Reino Unido (1743-1820,
Wikipédia 2022). Ainda jovem, junto a seu colega francês Aimé Bonpland, Humboldt
conseguiu visto e translado para o então Vice-Reino da Espanha, cuja maior extensão
é atualmente denominada “Região Neotropical” em Biogeografia, por exemplo
(Brown & Lomolino 1998). Na Venezuela, desbravando campos e florestas,
Alexander demonstrou com medidas matemáticas aos moradores às margens de um
grande lago a diminuição do estoque hídrico devido a
atividades humanas, percebendo desde então o problema do impacto antropogênico nos
recursos naturais, e assim evidenciando o uso indevido da natureza pela
colonização europeia.
Nos Andes, Alexander teve uma
grande epifania ao escalar o Monte Chimborazo, de que a vida na Terra não estaria
fragmentada, mas intrinsecamente conectada como um organismo vivo. Enfoques
similares haviam sido postulados tempos atrás, mas esta foi a primeira hipótese
científica sobre o assunto, em um tempo que as ciências eram fragmentadas, como
prescrito. Natürgemalde, um termo empregado para justificar esta premissa, foi repetido várias vezes ao longo da
vasta literatura produzida por Humboldt. Contudo, este assunto só foi posto
novamente à tona séculos mais tarde, com James Lovelok e sua Hipótese Gaia (Lovelock
2006).
Como bom cientista, Alexander também
se esforçou, ao longo das colônias espanholas, para conhecer outros estudiosos
da época. E também em passagem pelos Estados Unidos, conseguiu encontrar outro
grande iluminista: ninguém menos que o Presidente Thomas Jefferson, a quem repassou
informações sobre a porção norte do então Vice-Reino da Espanha.
De volta à Europa, Humboldt permaneceu
grande parte de sua vida em Paris, esforçando-se para publicar seus trabalhos e
manter contatos com grandes naturalistas da época, mas sofrendo perseguições
por parte da corte napoleônica. Durante muito tempo Alexander também tentou, junto
ao Império Britânico, visto e patrocínio para a Índia, onde almejava conhecer o
Himalaia e assim comparar seus dados aos dos Andes sul-americanos. Mas nunca
conseguiu... Ele publicou textos com muitas críticas ao colonialismo no
Vice-Reino espanhol, as quais chegaram às autoridades do Reino Unido e o
impossibilitaram de avançar sobre as colônias britânicas orientais. Décadas
mais tarde, Humboldt voltaria a uma grande expedição pelo vasto império russo,
sendo esta sua última odisseia pela natureza.
Entretanto, no Reino Unido
Humboldt foi referência de outro naturalista anos mais jovem e empolgado com seus
livros, que absorveu sua visão holística da natureza e se tornou um dos grandes
pedestais das Ciências Biológicas. Seu nome era Charles Robert Darwin, que
ficou muito feliz em conhecer um já idoso Alexander em passagem pela Inglaterra.
A literatura de Humboldt foi guia de Darwin por toda sua carreira, até os
últimos dias de sua vida, como magistralmente ressaltou Wulf em sua obra:
“Darwin estava nos ombros de Humboldt” (Wulf 2016, p. 336).
Uma alusão à expressão de Sir Isaac Newton: “Se enxerguei longe é
porque me apoiei sobre o ombros dos gigantes. ” De fato, “A Origem das Espécies”,
primeiramente publicada em 1859, seguiu a visão holística das obras
humboldtianas. Os estudos conservacionistas de Humboldt também estimularam
muitos outros ambientalistas em distintas áreas do conhecimento, na Europa e
Estados Unidos, como George Marsh, Henry Thoreau e John Muir. O revolucionário latino-americano
Simón Bolívar, que acompanhou Humboldt por expedições na Europa e norte da América
do Sul, também se inspirou em seu antigo companheiro prussiano, para propagar
uma política de reverência pioneira à natureza dos jovens países nos quais foi
estadista.
Mas infelizmente, a ascensão do
nazismo no Século XX manteve toda a cultura germânica em um silêncio que
durou décadas, e um esquecimento de seus grandes intelectuais, inclusive
Humboldt. Por sua vez, em suas obras e pronunciamentos Alexander se manteve contrário
a todos os preconceitos coloniais, apesar de paradoxalmente ser nobre em
sua terra natal.
Assim, Andrea Wulf de fato merece
aplausos por seu esforço em resgatar a obra de Alexander Humboldt, o grande
pioneiro que demonstrou ser possível estudar a natureza com olhos mais afetivos
e conservacionistas.
Um feliz ano novo a todos!
Referências
Brown, J. H. & Lomolino, M. V. Biogeography (2nd. edition). Sunderland:
Sinauer Press, 1998.
Editorial. Humboldt’s legacy. Nature, 2019, v. 3, p. 1265-1266.
DOI: https://doi.org/10.1038/s41559-019-0980-5
Lovelock, J. Gaia: cura para um planeta doente. São Paulo: Editora Cultrix, 2006.
Wikipédia: A Enciclopédia Livre. Joseph
Banks. 2022. Disponível em: < https://pt.wikipedia.org/wiki/Joseph_Banks >
. Acesso em: 11-01-2025.
Wikipedia: The Free Encyclopedia. Andrea Wulf. 2024a. Disponível
em: < https://en.wikipedia.org/wiki/Andrea_Wulf > . Acesso em: 11-01-2025.
Wikipédia: A Enciclopédia Livre. Johann Wolfgang von Goethe. 2024b. Disponível em: < https://pt.wikipedia.org/wiki/Johann_Wolfgang_von_Goethe
> . Acesso em: 11-01-2025.
Wulf, A. A Invenção da Natureza: a vida e as descobertas de Alexander Von Humboldt, 2ª Edição. São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2016.
Daniel Blamires. Doutor em Ciências Ambientais. Docente UEG-Iporá.


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