Capa de
Canuto (2017), sobre Sistemas Agroflorestais.
Esta postagem explica preliminarmente o sistema agroflorestal (SAF), de fato um importante método alternativo de produção rural. Uma abordagem ainda prematura, pois ainda estou revisando bibliografia sobre o assunto. Assim, novas postagens sobre SAFs estão previstas futuramente. Contudo, achei oportuno adiantar o tema, pois rotineiramente divulgo vídeos e textos de sistemas agroflorestais aos alunos, alguns dos quais tem demonstrado interesse em algo que pode ser uma alternativa para produção de alimentos vegetais - e até madeira - na microrregião de Iporá e demais municípios circunvizinhos. A maior parte desta postagem provém de EMBRAPA (2024), sendo as demais citadas ao longo do texto.
Denominam-se agroflorestas, ou
sistemas agroflorestais (SAFs), os métodos de produção baseados na sucessão
ecológica, análogos aos ecossistemas naturais, onde árvores exóticas ou nativas
são associadas a culturas agrícolas, conforme as condições espaciais e
temporais, envolvendo assim alta diversidade de espécies e interações. Sucessão
ecológica, segundo Ricklefs (2003) é a sequência de substituições em uma
comunidade após uma perturbação, rumo à estabilidade (clímax). Conceituo espécies exóticas como aquelas introduzidas em
um ambiente, não sendo, portanto, originárias (nativas) do mesmo.
Ernst Götsch, produtor rural
suíço erradicado na Bahia e pioneiro em SAF no território brasileiro (Agenda
Götsch 2012, Wikipédia 2024), introduziu a concepção de “agricultura sintrópica
(organizada)”, ressaltando que a dinâmica ecológica das agroflorestas segue um
padrão distinto das demais agriculturas. Atividades agrícolas convencionais,
denominadas “entrópicas (desorganizadas)”, tendem à interações negativas com as
comunidades biológicas naturais e o solo.
Assim, as SAFs otimizam o uso da
terra, conciliam preservação ambiental e produção de alimentos, conservam o
solo e diminuem a pressão antropogênica da agricultura, sendo também importantes
para restauração de florestas e recuperação de áreas degradadas. Agroflorestas
podem ser permitidas nas áreas a seguir:
a). Áreas de Reserva Legal
(ARLs);
b). Áreas de Preservação
Permanente (APPs) de pequenas propriedades ou posse rural familiar;
c). Áreas de Uso Restrito (AURs),
com inclinação de 25°-45°;
d). Áreas consolidadas (área de
imóvel rural com área antropogênica preexistente).
O plantio de espécies exóticas
com nativas de ocorrência regional não pode ultrapassar 50% da área total a ser
recuperada. O esquema abaixo (Silva 2017) exemplifica um sistema misto “nativo-exótico”.
Mas, como se pode perceber, espécies exóticas podem ser empregadas com
limitação pré-estabelecida.
Desenho esquemático de SAF com espécies nativas e exóticas. Fonte:
Silva (2017).
Baru, mandioca e milho são, neste contexto, espécies nativas da região neotropical. Ao longo do tempo, são esperados os seguintes resultados:
a). Dois anos. Produção de
espécies anuais (feijão, arroz, milho), hortaliças, adubos verdes e espécies
semi-perenes (mandioca, abacaxi, banana e mamão);
b). Três anos. Comercialização. Culturas anuais e semi-perenes diminuem com o aumento do sombreamento, devido ao crescimento das árvores grandes.
c). Quatro a dez anos. Boa
maturidade, espécies frutíferas iniciam produção a partir do quarto ano,
atingindo estabilidade em uma década. Espécies madeiráveis podem ser colhidas
em 6 ou 10 anos. Neste estágio há redução na demanda por mão-de-obra, com menos
intensidade na manutenção de espécies frutíferas e madeiráveis.
Como em toda produção rural, uma
SAF requer monitoramento complexo, conforme detalhado a seguir:
a). Análises de periódicas de
solo. Anuais nos primeiros 3 anos e a cada 2 anos em seguida, para inspeção de
características físicas e químicas;
b). Observação do crescimento,
sanidade, períodos de floração e frutificação das espécies frutíferas;
c). Atividades de manejo, como
podas na formação de copa e fitossanitárias, desbastes e limpezas em geral;
d). Combate de pragas e doenças.
Em áreas degradadas, formigas são um dos principais problemas durante as fases
de estabelecimento agroflorestal.
e). Planejamento, para adequação
de mão-de-obra nos períodos com maior demanda;
f). Manutenção de arquivo
organizado em planilha eletrônica, com todas as atividades de custos de
mão-de-obra e insumos, mais as receitas geradas pela venda dos produtos.
Da mesma forma, como em toda
produção rural as SAFs também estão sujeitas a vários riscos, descritos adiante
com medidas mitigadoras para cada caso.
a). Não aceitação. Um problema
que pode ser resolvido com a participação dos produtores rurais durante a
elaboração dos SAFs, bem como observação da aptidão deles para cultivar as
espécies selecionadas;
b). Dificuldades para escoar a
produção. É necessário realizar estudo das condições de transporte dos produtos
agropecuários nas estradas vicinais, desde as propriedades até o local de comercialização;
c). Dificuldades para vender a
produção. Convém realizar um estudo de mercado das espécies selecionadas nos
SAFs, bem como identificar seu processo de comercialização;
d). As culturas não se
desenvolvem satisfatoriamente. Então é imprescindível o cuidado na composição
do SAF, devendo-se observar as interações entre espécies, excesso de competição
entre os componentes (excesso de sombreamento), falta de nutrientes, densidade
em cada estrato e tamanho de copa. A composição requer uma meticulosa seleção
das espécies, a qual deve considerar se as características edafoclimáticas (tipo
de solo e clima) estão conforme as necessidades de cada espécie;
e). Planejamento inadequado. Um problema que pode ser amenizado com atividades inerentes ao preparo de área, manutenção, colheita e comercialização, além de estimativas dos preços de venda e produtividade das espécies, ao longo do tempo de plantio.
Apenas complementando, Rebelo
(2020), demonstra a importância de manter o solo coberto por camada vegetal
previamente podada da própria cultura, para: a). Adubar o solo com lignina (o
melhor adubo); b). Evitar o crescimento de "pragas", e
consequentemente o uso de herbicidas. Um relevante procedimento sintrópico para
evitar o problema da intoxicação, tanto do solo quanto dos alimentos.
Em suma, a sintropia
agroflorestal produz alimentos mais orgânicos, respeitando as interações entre
o meio biótico e abiótico. Mas como toda produção rural, a implantação das SAFs
requer planejamento baseado nos ajustes ao solo e sistemas sócio-econômicos, respectivamente,
conforme a paisagem onde elas serão implantadas. Medidas mitigadoras aos
problemas também existem. Assim, as agroflorestas podem ser uma
alternativa de baixo custo à pequena produção rural agrícola, em
paisagens no Vale do Rio Araguaia.
Referências.
Agenda Götsch. Agricultura Sintrópica por Ernst Götsch.
2012. Disponível em: < https://www.youtube.com/watch?v=gxoc6l5pq6E > .
Acesso em: 15-05-2024.
Canuto, J. C (Editor). Sistemas agroflorestais: experiências e
reflexões. Brasília: EMBRAPA, 2017. Disponível em: https://www.embrapa.br/busca-de-publicacoes/-/publicacao/1074707/sistemas-agroflorestais-experiencias-e-reflexoes .
EMBRAPA. Código Florestal: adequação ambiental da paisagem rural. Disponível
em: < https://www.embrapa.br/codigo-florestal/sistemas-agroflorestais-safs
> . Acesso em: 15-05-2024.
Rebello, F. Agenda Götsch. More Than Much/Mais do que Solo Coberto.
2020. Disponível em: < https://www.youtube.com/watch?v=iyWo52gpVuk > .
Acesso em: 21-05-24.
Ricklefs, R. E. A economia da natureza (5ª Ed.). Rio de
Janeiro: Editora Guanabara-Koogan, 2003.
Silva, C. N. Sistemas Agroflorestais (SAFs). 2017. Disponível em: < https://pt.slideshare.net/cineone/sistemas-agroflorestais-71354155
> . Acesso em: 15-05-2024.
Wikipédia: a enciclopédia livre. Ernst Götsch. 2024. Disponível em: <
https://pt.wikipedia.org/wiki/Ernst_G%C3%B6tsch
> . Acesso em: 15-05-2024.
Dr. Daniel Blamires. Docente UEG-Iporá.
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