Capa do Livro Colapso:
como as sociedades escolhem seu fracasso ou sucesso, de J. Diamond. Fonte: Google.
Conheci um
viajante de uma terra antiga
Que disse: "Duas imensas pernas de pedra, sem tronco,
Jazem no
deserto. Junto a elas,
Parcialmente
afundando na areia, um rosto despedaçado, com o lábio
Franzido e
enrugado em um sorriso escarnecedor de frio poder,
Demonstra que
o escultor bem intuiu tais paixões,
Que ainda
sobrevivem, estampadas naquelas coisas sem vida,
A mão que as
forjou e o coração que as alimentou;
No pedestal
há a seguinte inscrição:
‘Meu nome é
Ozimandias, rei dos reis:
Olhem para os meus feitos pujantes e desesperem-se!"
Nada resta
além disso. Ao redor daquela ruína
Colossal,
ilimitada e desnuda
As areias solitárias e planas espalham-se ao longe.
Shelley, P.
Ozimandias, 1817.
Com este trecho do poema de Percival Shelley, o biólogo
estadunidense Jared Diamond (Wikipédia 2023) apresenta sua monumental obra
sobre uso da terra por povos passados, com fracasso de algumas populações,
sucesso de outras, e comparação às atuais que podem estar próximas de um
cataclismo, devido a uma economia ambientalmente insustentável. Diamond (2007) também
alerta para o eminente risco de um colapso mundial para toda a humanidade.
Com amplas evidências arqueológicas e antropológicas, o autor demonstra que nações avançadas no passado, como os povos da Ilha de Páscoa no
oceano pacífico e os Anasazis na América do Norte, declinaram seus recursos
devido ao uso excessivo dos recursos naturais para sustentar populações
cada vez maiores, chegando a um estágio insuportável (colapso) devido a falta de recursos
naturais básicos, tipo água e solo fértil. Estes povos abandonaram suas moradias,
tradições mais sagradas e vínculo social devido à fome, sede e morte, debandando-se
para outras terras e deixando apenas remanescentes relictuais do que outrora
foi uma sociedade próspera.
Diamond (2007) também discute a importância de outros
aspectos, como a relação com vizinhos povos originários em passados colonizadores.
A história da colonização nórdica na Vinlândia (costa leste do Canadá) e
Groenlândia demonstram isto. Além de enfatizar que povos Vikings medievais foram de fato os descobridores das Américas, o
autor também pondera que um dos maiores motivos de fracasso após séculos de
estabelecimento em suas novas terras aconteceu devido a confrontos com os povos
Inuits originários, associado a um
tempo de extremos climáticos. Ao invés de interagirem com os nativos, os Vikings mantiveram narrativas preconceituosas
e reações hostis aos ameríndios, levando sua colonização ao fracasso.
Outros povos, entretanto, perduraram devido a uma mudança no uso da terra. Um destes casos é o Japão feudal, estabelecido em um arquipélago frio com poucos recursos, relevo acidentado e constantes instabilidades geológicas. Ao invés de desmatar, a nação nipônica praticou o reflorestamento para garantir solo fértil, bem como evitar erosão e assoreamento. Os japoneses também se acostumaram a uma alimentação baseada em comida crua, a fim de evitar o consumo de combustíveis tipo lenha, por exemplo. E neste contexto, Diamond (2007) também revisa um interessante estudo que compara, de um lado, o comportamento dos moradores rigorosos e reprimidos das ilhas frias (com poucos recursos), e de outro o Cowboy indolente das ricas pradarias de criação bovina no sudoeste estadunidense.
O autor também alerta para nações que, no tempo de redação do
livro, mantinham uma perigosa relação econômica insustentável de uso dos
recursos naturais. Um dos exemplos mais enfatizados foi a China, descrita como “gigante
cambaleante”, por sua grande produção econômica que ignorava a poluição excessiva e usava unilateralmente os recursos da terra. Diamond (2007) também sugere dois motivos básicos
para o terrível genocídio em Ruanda, em 1994: de um lado a narrativa do ódio
étnico; de outro poucos recursos para sustentar altas densidades
populacionais.
O livro termina com reflexões para o futuro, ressaltando que somos
cada vez mais uma grande população mundial, cuja maioria usa os recursos
ambientais insustentavelmente, o que pode levar a sérios problemas para toda a humanidade em um futuro breve. Neste contexto, o carbono atmosférico excedeu a
concentração suportável, a temperatura do planeta poderá aumentar até 4°C em
2100, então estamos próximos de um grande cataclismo que comprometerá as populações humanas, sobretudo as mais tropicais (Lovelock 2010).
Em 2080 também seremos 10,4 bilhões de habitantes na Terra...
(Mota 2022). Assim, já passou do tempo de agirmos com sensatez, e investir cada
vez mais em medidas que preparem as futuras gerações para um final de século
tenebroso e inevitável que já bate em nossas portas. A rápida implantação de
uma economia mais sustentável e limpa evitaria muitas ruínas de Ozimandias em um futuro próximo.
Referências.
Diamond, J. Colapso:
como as sociedades escolhem o fracasso ou o sucesso. Rio de Janeiro. Editora
Record, 2007.
Lovelock, J. E. Gaia:
alerta final. Rio de Janeiro: Editora Intrínseca, 2010.
Mota, C. V. As mudanças na população global, prestes a
atingir 8 bilhões. BBC News Brasil.
2022. Disponível em: < https://www.youtube.com/watch?v=MGXqMQURcLQ > .
Acesso em: 24-09-2024.
Wikipédia: a enciclopédia livre. Jared Diamond. 2023. Disponível em: < https://pt.wikipedia.org/wiki/Jared_Diamond
> . Acesso em: 24-09-2024.
Dr. Daniel Blamires. Docente UEG-Iporá.
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