terça-feira, 24 de setembro de 2024

Colapso [Ecologia].

 


 

Capa do Livro Colapso: como as sociedades escolhem seu fracasso ou sucesso, de J. Diamond. Fonte: Google

 

Conheci um viajante de uma terra antiga

Que disse: "Duas imensas pernas de pedra, sem tronco,

Jazem no deserto. Junto a elas,

Parcialmente afundando na areia, um rosto despedaçado, com o lábio

Franzido e enrugado em um sorriso escarnecedor de frio poder,

Demonstra que o escultor bem intuiu tais paixões,

Que ainda sobrevivem, estampadas naquelas coisas sem vida,

A mão que as forjou e o coração que as alimentou;

No pedestal há a seguinte inscrição:

‘Meu nome é Ozimandias, rei dos reis:

Olhem para os meus feitos pujantes e desesperem-se!"

Nada resta além disso. Ao redor daquela ruína

Colossal, ilimitada e desnuda

As areias solitárias e planas espalham-se ao longe.

 

Shelley, P. Ozimandias, 1817.

 

Com este trecho do poema de Percival Shelley, o biólogo estadunidense Jared Diamond (Wikipédia 2023) apresenta sua monumental obra sobre uso da terra por povos passados, com fracasso de algumas populações, sucesso de outras, e comparação às atuais que podem estar próximas de um cataclismo, devido a uma economia ambientalmente insustentável. Diamond (2007) também alerta para o eminente risco de um colapso mundial para toda a humanidade.

Com amplas evidências arqueológicas e antropológicas, o autor demonstra que nações avançadas no passado, como os povos da Ilha de Páscoa no oceano pacífico e os Anasazis na América do Norte, declinaram seus recursos devido ao uso excessivo dos recursos naturais para sustentar populações cada vez maiores, chegando a um estágio insuportável (colapso) devido a falta de recursos naturais básicos, tipo água e solo fértil. Estes povos abandonaram suas moradias, tradições mais sagradas e vínculo social devido à fome, sede e morte, debandando-se para outras terras e deixando apenas remanescentes relictuais do que outrora foi uma sociedade próspera.

Diamond (2007) também discute a importância de outros aspectos, como a relação com vizinhos povos originários em passados colonizadores. A história da colonização nórdica na Vinlândia (costa leste do Canadá) e Groenlândia demonstram isto. Além de enfatizar que povos Vikings medievais foram de fato os descobridores das Américas, o autor também pondera que um dos maiores motivos de fracasso após séculos de estabelecimento em suas novas terras aconteceu devido a confrontos com os povos Inuits originários, associado a um tempo de extremos climáticos. Ao invés de interagirem com os nativos, os Vikings mantiveram narrativas preconceituosas e reações hostis aos ameríndios, levando sua colonização ao fracasso.

Outros povos, entretanto, perduraram devido a uma mudança no uso da terra. Um destes casos é o Japão feudal, estabelecido em um arquipélago frio com poucos recursos, relevo acidentado e constantes instabilidades geológicas. Ao invés de desmatar, a nação nipônica praticou o reflorestamento para garantir solo fértil, bem como evitar erosão e assoreamento. Os japoneses também se acostumaram a uma alimentação baseada em comida crua, a fim de evitar o consumo de combustíveis tipo lenha, por exemplo. E neste contexto, Diamond (2007) também revisa um interessante estudo que compara, de um lado, o comportamento dos moradores rigorosos e reprimidos das ilhas frias (com poucos recursos), e de outro o Cowboy indolente das ricas pradarias de criação bovina no sudoeste estadunidense.

O autor também alerta para nações que, no tempo de redação do livro, mantinham uma perigosa relação econômica insustentável de uso dos recursos naturais. Um dos exemplos mais enfatizados foi a China, descrita como “gigante cambaleante”, por sua grande produção econômica que ignorava a poluição excessiva e usava unilateralmente os recursos da terra. Diamond (2007) também sugere dois motivos básicos para o terrível genocídio em Ruanda, em 1994: de um lado a narrativa do ódio étnico; de outro poucos recursos para sustentar altas densidades populacionais.

O livro termina com reflexões para o futuro, ressaltando que somos cada vez mais uma grande população mundial, cuja maioria usa os recursos ambientais insustentavelmente, o que pode levar a sérios problemas para toda a humanidade em um futuro breve. Neste contexto, o carbono atmosférico excedeu a concentração suportável, a temperatura do planeta poderá aumentar até 4°C em 2100, então estamos próximos de um grande cataclismo que comprometerá as populações humanas, sobretudo as mais tropicais (Lovelock 2010).

Em 2080 também seremos 10,4 bilhões de habitantes na Terra... (Mota 2022). Assim, já passou do tempo de agirmos com sensatez, e investir cada vez mais em medidas que preparem as futuras gerações para um final de século tenebroso e inevitável que já bate em nossas portas. A rápida implantação de uma economia mais sustentável e limpa evitaria muitas ruínas de Ozimandias em um futuro próximo.

 

Referências.

Diamond, J. Colapso: como as sociedades escolhem o fracasso ou o sucesso. Rio de Janeiro. Editora Record, 2007.

Lovelock, J. E. Gaia: alerta final. Rio de Janeiro: Editora Intrínseca, 2010.

Mota, C. V. As mudanças na população global, prestes a atingir 8 bilhões. BBC News Brasil. 2022. Disponível em: < https://www.youtube.com/watch?v=MGXqMQURcLQ > . Acesso em: 24-09-2024.

Wikipédia: a enciclopédia livre. Jared Diamond. 2023. Disponível em: < https://pt.wikipedia.org/wiki/Jared_Diamond > . Acesso em: 24-09-2024.


Dr. Daniel Blamires. Docente UEG-Iporá.


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