terça-feira, 3 de setembro de 2024

De Platão a Mayr: história do pensamento evolucionista [Evolução Orgânica].

 




Platão e Mayr. Fontes: Wikipédia (2023, 2024c).

 

Sempre que o tema evolução vem à tona, normalmente o icônico naturalista britânico Charles Robert Darwin é lembrado, sendo às vezes seguido por seu esquecido compatriota Alfred Russel Wallace. Entretanto, o pensamento evolucionista remonta milênios, e sua história se confunde com o desenvolvimento do próprio pensamento biológico, como mencionado por Mayr (1998).

A maior parte desta postagem segue a síntese de Valva & Diniz-Filho (1998), com acréscimos citados ao longo do texto. No mundo helenístico clássico, talvez Platão (428/427-348/347, Wikipédia 2024c) tenha sido o primeiro a postular sobre a origem dos seres vivos, com o princípio essencialista. Vivendo em uma cultura mística e servindo a tiranos (Sagan 1980), Platão postulou que haveriam no universo “essências eternas” na mente dos deuses, e tudo o que é percebido empiricamente seriam cópias imperfeitas dessas essências. Aristóteles (384-322), discípulo de Platão e professor do Imperador Alexandre Magno (Wikipédia 2024a), insistiu nesta visão essencialista, de um mundo estático sem evolução. Uma visão merecidamente enfatizada por Dawkins (2018), como “a mão morta de Platão”.

No período medieval, grandes doutores cristãos como Santo Tomaz de Aquino (1225-1274) incorporaram o essencialismo platônico à teologia cristã, e assim surgiu a Scala Naturae: sobre um mundo perfeito e estático, com todos os seres em uma escala que começaria dos inanimados (mais inferiores), rumo à total perfeição em outro extremo, no caso a própria personificação divina. A espécie humana estaria logo abaixo dos anjos e demais seres espirituais, mas bem próxima à superioridade máxima. Neste mundo de “superioridade e inferioridade”, qualquer pensamento evolucionista era refutado.

Mas nem tudo foi obscurantismo no período feudal! Enquanto o continente europeu seguiu cultuando nobrezas refugiadas em seus castelos, havia grande produção de conhecimento no mundo árabe. Há aproximadamente 1000 anos antes da publicação de “Origem das Espécies” na Grã-Bretanha, no Iraque o filósofo maometano al-Jãhiz (781-868/869) expôs os princípios básicos de evolução e seleção natural na obra “O Livro dos Animais” (BBC News Brasil 2019).

No ocidente, a visão da fixidez das espécies ganhou mais ênfase com a reforma religiosa protestante. Mas, no iluminismo o naturalista sueco Carolus Von Linné (Lineu, 1707-1778), desenvolveu a taxonomia tradicional, empregada até os dias atuais para classificação de todos os seres vivos celulares. O pensamento iluminista também foi abalando a milenar visão essencialista, com publicações totalmente mecanicistas para explicação dos fenômenos naturais.

O francês Jean Baptiste de Monet, Chevalier de Lamarck (1744-1829, Wikipédia 2024b), também merece destaque ao final deste período, como o primeiro naturalista a advogar que as espécies mudavam ao longo do tempo (evoluíam), isentando sua visão de componentes teleológicos. A teoria evolutiva de Lamarck compunha-se pelos seguintes componentes:

 

a). A evolução existe;

b). O homem faz parte da evolução;

c). A evolução é um processo lento e gradual;

d). O ambiente influencia na evolução;

e). As espécies evoluem por uso-e-desuso e herança dos caracteres adquiridos.

 

Hoje, apenas o componente “e” foi totalmente refutado pela comunidade científica, e convém ressaltar que célebres naturalistas como o próprio Darwin jamais refutaram a “lei do uso-e-desuso e herança dos caracteres adquiridos”, mas apenas priorizaram a seleção natural (Darwin 2005). Também é importante frisar que Lamarck incorporou “uso-e-desuso e herança dos caracteres adquiridos” à sua teoria, passando para a posteridade como criador das mesmas. Na verdade, o item “e” (vide descrição anterior), só foi totalmente refutado com a teoria do “plasma germinal”, do citogeneticista alemão A. Weissman, no início do século XX. Então, Lamarck merece respeito como o primeiro naturalista a defender imparcialmente a evolução, e tentar propor um mecanismo para explica-la.

Após anos analisando dados provenientes de sua propriedade rural e de uma longa viagem pelo mundo durante a juventude, Darwin publica “Origem das Espécies” em 1859, com sua teoria composta pelos seguintes componentes:

 

a). Existência da evolução;

b). Gradualismo;

c). Ancestral comum;

d). Multiplicação das espécies;

e). Seleção natural.

 

Notem que, em muitos aspectos, a visão de Darwin é fundamentada na anterior de Lamarck. E o mecanismo da seleção natural, onde as variações favoráveis à sobrevivência e reprodução são selecionadas em detrimento das desfavoráveis, forneceu uma explicação científica para a evolução.

Mas após a morte de Darwin, surgiu uma grande pergunta, que ficou sem resposta por décadas: “...Como surge a variação? ” Este questionamento característico do período Pós-Darwin provocou uma cisão entre “geneticistas (de laboratório)”e “naturalistas (de campo)”. Mas três estudiosos, dentre os quais Weismann (plasma germinal) e de Vries (mutações) redescobriram o trabalho de um desconhecido monge agostiniano da atual República Tcheca, chamado Gregor Johann Mendel, cujas leis da hereditariedade explicavam razoavelmente a origem do que hoje se denomina “variabilidade genética”.

Décadas mais tarde, uma equipe multidisciplinar e internacional, coordenada pelo naturalista alemão Ernst Mayr, erradicado nos Estados Unidos (Wikipédia 2023), resolveu este problema sintetizando definitivamente a visão evolutiva de Darwin com as leis da hereditariedade segundo Mendel. Assim surgia a “Teoria Sintética da Evolução”, que espantou da comunidade científica a grande dúvida do período Pós-Darwin, podendo ser sintetizada conforme a seguir (ver também Mayr 1977):

 

a). As populações contêm variação genética que surge através de mutações aleatórias e recombinação.

b). As populações evoluem por mudanças nas frequências gênicas devido aos processos de deriva genética, fluxo gênico e seleção natural.

c). A maioria dos genótipos possuem pequenos efeitos individuais, resultando em mudanças fenotípicas graduais.

d). A diversificação vem através da especiação (origem de novas espécies a partir de um ancestral comum).

e). Se a diversificação ocorrer durante um tempo ainda maior, ela poderá dar origem a taxa superiores (gêneros, famílias, etc.).

 

Eis a grande saga da biologia! A história do pensamento evolucionista, que chega a se confundir com a própria história das Ciências Biológicas, perfazendo mais de dois milênios entre Platão em Athenas e Mayr nos Estados Unidos.

Um feliz 03-09, dia do biólogo, a todos nós!

 

Referências.

BBC News Brasil. O filósofo muçulmano que formulou teoria da evolução mil anos antes de Darwin. 2019. Disponível em: < https://www.bbc.com/portuguese/internacional-47577118 > . Acesso em: 03-09-2024.

Darwin, C. R. A origem das espécies. São Paulo: Editora Martin Claret, 2005.

Dawkins, R. Ciência na alma: escritos de um racionalista fervoroso. São Paulo: Editora Companhia das Letras, 2018.

Mayr, E. Populações, Espécies e Evolução. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1977.

Mayr, E. O desenvolvimento do Pensamento Biológico. Editora UnB, 1998.

Sagan, C. Cosmos: Pitágoras e Platão. 1980. Disponível em: < https://www.youtube.com/watch?v=Xp_pe6ObYgg > . Acesso em: 03-09-2024.

Valva, F. D. & Diniz-Filho, J.A.F. Histórico do pensamento evolucionista. Goiânia: Editora UFG, 1998.

Wikipédia: a enciclopédia livre. Ernst Mayr. 2023. Disponível em: < https://pt.wikipedia.org/wiki/Ernst_Mayr > . Acesso em: 03-09-2024.

Wikipédia: a enciclopédia livre. Aristóteles. 2024a. Disponível em: < https://pt.wikipedia.org/wiki/Arist%C3%B3teles > . Acesso em: 03-09-2024.

Wikipédia: a enciclopédia livre. Jean-Baptiste de Lamarck. 2024b. Disponível em: < https://pt.wikipedia.org/wiki/Jean-Baptiste_de_Lamarck > . Acesso em: 03-09-2024.

Wikipédia: a enciclopédia livre. Platão. 2024c. Disponível em: < https://pt.wikipedia.org/wiki/Plat%C3%A3o > . Acesso em: 03-09-2024.


Dr. Daniel Blamires. Docente UEG-Iporá.


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