Platão e Mayr. Fontes:
Wikipédia (2023, 2024c).
Sempre que o tema evolução vem à tona, normalmente o icônico
naturalista britânico Charles Robert Darwin é lembrado, sendo às vezes seguido
por seu esquecido compatriota Alfred Russel Wallace. Entretanto, o pensamento
evolucionista remonta milênios, e sua história se confunde com o
desenvolvimento do próprio pensamento biológico, como mencionado por Mayr (1998).
A maior parte desta postagem segue a síntese de Valva &
Diniz-Filho (1998), com acréscimos citados ao longo do texto. No mundo
helenístico clássico, talvez Platão (428/427-348/347, Wikipédia 2024c) tenha
sido o primeiro a postular sobre a origem dos seres vivos, com o princípio
essencialista. Vivendo em uma cultura mística e servindo a tiranos (Sagan 1980),
Platão postulou que haveriam no universo “essências eternas” na mente dos
deuses, e tudo o que é percebido empiricamente seriam cópias imperfeitas dessas
essências. Aristóteles (384-322), discípulo de Platão e professor do Imperador
Alexandre Magno (Wikipédia 2024a), insistiu nesta visão essencialista, de um
mundo estático sem evolução. Uma visão merecidamente enfatizada por Dawkins (2018), como
“a mão morta de Platão”.
No período medieval, grandes doutores cristãos como Santo
Tomaz de Aquino (1225-1274) incorporaram o essencialismo platônico à teologia
cristã, e assim surgiu a Scala
Naturae: sobre um mundo perfeito e estático, com todos os seres em uma escala
que começaria dos inanimados (mais inferiores), rumo à total perfeição em outro
extremo, no caso a própria personificação divina. A espécie humana estaria logo
abaixo dos anjos e demais seres espirituais, mas bem próxima à superioridade
máxima. Neste mundo de “superioridade e inferioridade”, qualquer pensamento
evolucionista era refutado.
Mas nem tudo foi obscurantismo no período feudal! Enquanto o
continente europeu seguiu cultuando nobrezas refugiadas em seus castelos, havia
grande produção de conhecimento no mundo árabe. Há aproximadamente 1000 anos
antes da publicação de “Origem das Espécies” na Grã-Bretanha, no Iraque o
filósofo maometano al-Jãhiz (781-868/869) expôs os princípios básicos de
evolução e seleção natural na obra “O Livro dos Animais” (BBC News Brasil
2019).
No ocidente, a visão da fixidez das espécies
ganhou mais ênfase com a reforma religiosa protestante. Mas, no iluminismo o
naturalista sueco Carolus Von Linné (Lineu, 1707-1778), desenvolveu a taxonomia
tradicional, empregada até os dias atuais para classificação de todos os seres
vivos celulares. O pensamento iluminista também foi abalando a milenar visão
essencialista, com publicações totalmente mecanicistas para explicação dos
fenômenos naturais.
O francês Jean Baptiste de Monet, Chevalier de Lamarck (1744-1829, Wikipédia 2024b), também merece
destaque ao final deste período, como o primeiro naturalista a advogar que as
espécies mudavam ao longo do tempo (evoluíam), isentando sua visão de
componentes teleológicos. A teoria evolutiva de Lamarck compunha-se pelos
seguintes componentes:
a). A evolução existe;
b). O homem faz parte da evolução;
c). A evolução é um processo lento e gradual;
d). O ambiente influencia na evolução;
e). As espécies evoluem por uso-e-desuso e herança dos
caracteres adquiridos.
Hoje, apenas o componente “e” foi totalmente refutado pela comunidade
científica, e convém ressaltar que célebres naturalistas como o próprio Darwin
jamais refutaram a “lei do uso-e-desuso e herança dos caracteres adquiridos”,
mas apenas priorizaram a seleção natural (Darwin 2005). Também
é importante frisar que Lamarck incorporou “uso-e-desuso e herança dos
caracteres adquiridos” à sua teoria, passando para a posteridade como criador
das mesmas. Na verdade, o item “e” (vide descrição anterior), só foi totalmente
refutado com a teoria do “plasma germinal”, do citogeneticista alemão A.
Weissman, no início do século XX. Então, Lamarck merece respeito como o
primeiro naturalista a defender imparcialmente a evolução, e tentar propor um
mecanismo para explica-la.
Após anos analisando dados provenientes de sua propriedade
rural e de uma longa viagem pelo mundo durante a juventude, Darwin publica
“Origem das Espécies” em 1859, com sua teoria composta pelos seguintes
componentes:
a). Existência da evolução;
b). Gradualismo;
c). Ancestral comum;
d). Multiplicação das espécies;
e). Seleção natural.
Notem que, em muitos aspectos, a visão de Darwin é
fundamentada na anterior de Lamarck. E o mecanismo da seleção natural, onde as
variações favoráveis à sobrevivência e reprodução são selecionadas em
detrimento das desfavoráveis, forneceu uma explicação científica para a
evolução.
Mas após a morte de Darwin, surgiu uma grande pergunta, que
ficou sem resposta por décadas: “...Como surge a variação? ” Este questionamento
característico do período Pós-Darwin provocou uma cisão entre “geneticistas (de
laboratório)”e “naturalistas (de campo)”. Mas três estudiosos, dentre os quais
Weismann (plasma germinal) e de Vries (mutações) redescobriram o trabalho de um
desconhecido monge agostiniano da atual República Tcheca, chamado Gregor Johann
Mendel, cujas leis da hereditariedade explicavam razoavelmente a origem do que
hoje se denomina “variabilidade genética”.
Décadas mais tarde, uma equipe multidisciplinar e
internacional, coordenada pelo naturalista alemão Ernst Mayr, erradicado nos
Estados Unidos (Wikipédia 2023), resolveu este problema sintetizando
definitivamente a visão evolutiva de Darwin com as leis da hereditariedade segundo
Mendel. Assim surgia a “Teoria Sintética da Evolução”, que espantou da comunidade
científica a grande dúvida do período Pós-Darwin, podendo ser sintetizada
conforme a seguir (ver também Mayr 1977):
a). As populações contêm variação genética que surge através
de mutações aleatórias e recombinação.
b). As populações evoluem por mudanças nas frequências
gênicas devido aos processos de deriva genética, fluxo gênico e seleção
natural.
c). A maioria dos genótipos possuem pequenos efeitos
individuais, resultando em mudanças fenotípicas graduais.
d). A diversificação vem através da especiação (origem de
novas espécies a partir de um ancestral comum).
e). Se a diversificação ocorrer durante um tempo ainda maior,
ela poderá dar origem a taxa superiores
(gêneros, famílias, etc.).
Eis a grande saga da biologia! A história do pensamento
evolucionista, que chega a se confundir com a própria história das Ciências Biológicas,
perfazendo mais de dois milênios entre Platão em Athenas e Mayr nos Estados
Unidos.
Um feliz 03-09, dia do biólogo, a todos nós!
Referências.
BBC News Brasil. O
filósofo muçulmano que formulou teoria da evolução mil anos antes de Darwin.
2019. Disponível em: < https://www.bbc.com/portuguese/internacional-47577118
> . Acesso em: 03-09-2024.
Darwin, C. R. A origem
das espécies. São Paulo: Editora Martin Claret, 2005.
Dawkins, R. Ciência na
alma: escritos de um racionalista fervoroso. São Paulo: Editora Companhia
das Letras, 2018.
Mayr, E. Populações,
Espécies e Evolução. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1977.
Mayr, E. O
desenvolvimento do Pensamento Biológico. Editora UnB, 1998.
Sagan, C. Cosmos:
Pitágoras e Platão. 1980. Disponível em: < https://www.youtube.com/watch?v=Xp_pe6ObYgg
> . Acesso em: 03-09-2024.
Valva, F. D. & Diniz-Filho, J.A.F. Histórico do pensamento evolucionista. Goiânia: Editora UFG, 1998.
Wikipédia: a enciclopédia livre. Ernst Mayr. 2023. Disponível em: < https://pt.wikipedia.org/wiki/Ernst_Mayr
> . Acesso em: 03-09-2024.
Wikipédia: a enciclopédia livre. Aristóteles. 2024a. Disponível em: <
https://pt.wikipedia.org/wiki/Arist%C3%B3teles > . Acesso em: 03-09-2024.
Wikipédia: a enciclopédia livre. Jean-Baptiste de Lamarck. 2024b. Disponível em: < https://pt.wikipedia.org/wiki/Jean-Baptiste_de_Lamarck
> . Acesso em: 03-09-2024.
Wikipédia: a enciclopédia livre. Platão. 2024c. Disponível em: < https://pt.wikipedia.org/wiki/Plat%C3%A3o
> . Acesso em: 03-09-2024.
Dr. Daniel Blamires. Docente UEG-Iporá.

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