terça-feira, 15 de abril de 2025

Enxugue as lágrimas, von Baer: o velho que venceu o novo. [Evolução Orgânica].

 


 

Projeção apresentada em aula. Elaboração do Autor, atualizada em 08-04-2025.

 

“A ontogenia recapitula a filogenia”. Esta expressão, um jargão comumente repetido em aulas de biologia do desenvolvimento, foi provavelmente cunhada pelo célebre e polêmico naturalista/embriologista alemão Ernest Haeckel (Wikipédia 2024). Um princípio descrito por vários naturalistas do século XIX, e amplamente estudado por Haeckel.

Grande parte das descrições básicas a seguir seguem Ridley (2006). Partindo da Teoria da Recapitulação (ou lei biogenética), Haeckel defendeu que as fases de desenvolvimento em um organismo “recapitulam” a história filogenética de sua linhagem. Para entender recapitulação, é preciso compreender inicialmente outro princípio, o da adição terminal, ou o acréscimo sucessivo de novas etapas ao longo do desenvolvimento. Neste contexto, Haeckel e colaboradores argumentavam que, quando a evolução progride por adição terminal, o resultado é a recapitulação.

A princípio, esta premissa faz sentido. Contudo, ao menos Haeckel cometeu um equívoco, que costuma passar desapercebido nas aulas de evo-devo (como é apelidada a biologia desenvolvimentista). Ele comparou estágios dos embriões com corpos de animais adultos. Então voltemos mais ao passado... Décadas antes, o também naturalista e embriologista russo Karl von Baer (Wikipédia 2023), chegou a conclusões similares, mas ressaltando corretamente que a recapitulação talvez fosse possível, “de embriões para embriões”. Em suma, von Baer postulou previamente que basta a evolução ativa do desenvolvimento ontogenético, para explicar as mudanças morfológicas do desenvolvimento embrionário. Shubin (2008, p. 88) faz uma notável defesa desta visão de Von Baer:

 

“A abordagem de von Baer em muito se difere da ideia ‘ontogenia recapitula a filogenia’ que você provavelmente aprendeu na escola. Von Baer simplesmente comparou embriões e notou que os embriões de diferentes espécies se assemelhavam mais uns aos outros do que os adultos dessas espécies. A abordagem ‘a ontogenia recapitula a filogenia’, defendida décadas mais tarde por Ernst Haeckel, declarou que cada espécie trilhava sua história evolutiva conforme avançava seu desenvolvimento. Assim, o embrião humano passava por um estágio de peixe, de réptil e de mamífero. Haeckel comparava um embrião humano a um peixe ou a um lagarto adulto. As diferenças entre as ideias de von Baer e Haeckel podem parecer sutis, mas não são. Nos últimos cem anos, o tempo e novas provas trataram von Baer com muito mais carinho. Ao comparar embriões de uma espécie com adultos de outra, Haeckel estava comparando maçãs com laranjas. Uma comparação mais lógica é aquela em que podemos comparar embriões de uma espécie com embriões de outra. (...).”

 

Outra defesa de von Baer e crítica a Haeckel também é feita por Coyne (2014, p. 102-103):

 

“(...). Por que não começamos o desenvolvimento simplesmente como humanos pequeninos – como alguns biólogos acreditavam no século 17 – e vamos ficando apenas maiores até nascer? (...). A resposta provável – e é uma boa resposta – envolve reconhecer que, conforme uma espécie evolui para outra, o descendente herda o programa de desenvolvimento de seu ancestral: ou seja, herda todos os genes que formam as estruturas ancestrais. (...).

Esse princípio de ‘acrescentar coisas novas às antigas’ também explica por que a sequência de mudanças de desenvolvimento reflete a sequência evolucionária dos organismos. (...).

Mas essa noção é verdadeira apenas num sentido restrito. Os estágios embrionários não tem o aspecto de formas adultas de seus ancestrais, como Haeckel afirmou, mas o aspecto de formas embrionárias dos seus ancestrais. O feto humano, por exemplo, nunca se parece com um peixe ou um réptil adultos, mas de certa forma se parece com o peixe e o réptil embrionários. (...)".

 

Esta é uma das poucas situações na ciência onde o velho vence o novo. Considero as argumentações de Shubin (2008) e Coyne (2014) tão satisfatórias que sempre as cito integralmente. Assim, a argumentação de von Baer, mais antiga em relação a Haeckel, é o ponto de vista mais aceito atualmente na biologia desenvolvimentista. Em sua importante obra sobre macroevolução, Zimmer (1999) conclui um dos capítulos com a frase “Enxugue as lágrimas, Haeckel (p. 110).”

Eu, por outro lado... Prefiro repetir a frase “Enxugue as lágrimas, von Baer”.

 

Referências.

Coyne, J. A. Por que a evolução é uma verdade. São Paulo: JSN Editora, 2014.

Ridley, M. Evolução. Porto Alegre: Editora Artmed. 2006.

Shubin, N. A história de quando éramos peixes: uma revolucionária teoria sobre a origem do corpo humano. Rio de Janeiro: Editora Campus, 2008.

Zimmer, C. À beira d’água: macroevolução e a transformação da vida. Rio de Janeiro: Editora Jorge Zahar, 1999.

Wikipédia: a enciclopédia livre. Ernst Haeckel. 2024. Disponível em: < https://pt.wikipedia.org/wiki/Ernst_Haeckel > . Acesso em: 15-04-2025.

Wikipédia: a enciclopédia livre. Karl Ernst von Baer. 2023. Disponível em: < https://pt.wikipedia.org/wiki/Karl_Ernst_von_Baer > . Acesso em: 15-04-2025.

 

Daniel Blamires. Doutor Ciências Ambientais. Docente UEG-Iporá.

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