Projeção apresentada em aula. Elaboração do Autor, atualizada em
08-04-2025.
“A ontogenia recapitula a
filogenia”. Esta expressão, um jargão comumente repetido em aulas de biologia
do desenvolvimento, foi provavelmente cunhada pelo célebre e polêmico
naturalista/embriologista alemão Ernest Haeckel (Wikipédia 2024). Um princípio descrito
por vários naturalistas do século XIX, e amplamente estudado por Haeckel.
Grande parte das descrições
básicas a seguir seguem Ridley (2006). Partindo da Teoria da Recapitulação (ou
lei biogenética), Haeckel defendeu que as fases de desenvolvimento em um
organismo “recapitulam” a história filogenética de sua linhagem. Para entender recapitulação,
é preciso compreender inicialmente outro princípio, o da adição terminal, ou o
acréscimo sucessivo de novas etapas ao longo do desenvolvimento. Neste
contexto, Haeckel e colaboradores argumentavam que, quando a evolução progride
por adição terminal, o resultado é a recapitulação.
A princípio, esta premissa faz
sentido. Contudo, ao menos Haeckel cometeu um equívoco, que costuma passar
desapercebido nas aulas de evo-devo
(como é apelidada a biologia desenvolvimentista). Ele comparou estágios
dos embriões com corpos de animais adultos. Então voltemos mais ao passado...
Décadas antes, o também naturalista e embriologista russo Karl von Baer
(Wikipédia 2023), chegou a conclusões similares, mas ressaltando corretamente
que a recapitulação talvez fosse possível, “de embriões para embriões”. Em
suma, von Baer postulou previamente que basta a evolução ativa do
desenvolvimento ontogenético, para explicar as mudanças morfológicas do
desenvolvimento embrionário. Shubin (2008, p. 88) faz uma notável defesa desta
visão de Von Baer:
“A
abordagem de von Baer em muito se difere da ideia ‘ontogenia recapitula a
filogenia’ que você provavelmente aprendeu na escola. Von Baer simplesmente
comparou embriões e notou que os embriões de diferentes espécies se assemelhavam
mais uns aos outros do que os adultos dessas espécies. A abordagem ‘a ontogenia
recapitula a filogenia’, defendida décadas mais tarde por Ernst Haeckel,
declarou que cada espécie trilhava sua história evolutiva conforme avançava seu
desenvolvimento. Assim, o embrião humano passava por um estágio de peixe, de
réptil e de mamífero. Haeckel comparava um embrião humano a um peixe ou a um
lagarto adulto. As diferenças entre as ideias de von Baer e Haeckel podem
parecer sutis, mas não são. Nos últimos cem anos, o tempo e novas provas
trataram von Baer com muito mais carinho. Ao comparar embriões de uma espécie
com adultos de outra, Haeckel estava comparando maçãs com laranjas. Uma
comparação mais lógica é aquela em que podemos comparar embriões de uma espécie
com embriões de outra. (...).”
Outra defesa de von Baer e
crítica a Haeckel também é feita por Coyne (2014, p. 102-103):
“(...).
Por que não começamos o desenvolvimento simplesmente como humanos pequeninos –
como alguns biólogos acreditavam no século 17 – e vamos ficando apenas maiores
até nascer? (...). A resposta provável – e é uma boa resposta – envolve
reconhecer que, conforme uma espécie evolui para outra, o descendente herda o
programa de desenvolvimento de seu ancestral: ou seja, herda todos os genes que
formam as estruturas ancestrais. (...).
Esse
princípio de ‘acrescentar coisas novas às antigas’ também explica por que a
sequência de mudanças de desenvolvimento reflete a sequência evolucionária dos
organismos. (...).
Mas
essa noção é verdadeira apenas num sentido restrito. Os estágios embrionários
não tem o aspecto de formas adultas de seus ancestrais, como Haeckel afirmou,
mas o aspecto de formas embrionárias dos seus ancestrais. O feto humano, por
exemplo, nunca se parece com um peixe ou um réptil adultos, mas de certa forma
se parece com o peixe e o réptil embrionários. (...)".
Esta é uma das poucas situações
na ciência onde o velho vence o novo. Considero as argumentações de Shubin
(2008) e Coyne (2014) tão satisfatórias que sempre as cito
integralmente. Assim, a argumentação de von Baer, mais antiga em relação a
Haeckel, é o ponto de vista mais aceito atualmente na biologia
desenvolvimentista. Em sua importante obra sobre macroevolução, Zimmer (1999) conclui
um dos capítulos com a frase “Enxugue as lágrimas, Haeckel (p. 110).”
Eu, por outro lado... Prefiro repetir
a frase “Enxugue as lágrimas, von Baer”.
Referências.
Coyne, J. A. Por que a evolução é uma verdade. São Paulo: JSN Editora, 2014.
Ridley, M. Evolução. Porto Alegre: Editora Artmed. 2006.
Shubin, N. A história de quando éramos peixes: uma revolucionária teoria sobre a
origem do corpo humano. Rio de Janeiro: Editora Campus, 2008.
Zimmer, C. À beira d’água: macroevolução e a transformação da vida. Rio de
Janeiro: Editora Jorge Zahar, 1999.
Wikipédia: a enciclopédia livre. Ernst Haeckel. 2024. Disponível em: <
https://pt.wikipedia.org/wiki/Ernst_Haeckel > . Acesso em: 15-04-2025.
Wikipédia: a enciclopédia livre. Karl Ernst von Baer. 2023. Disponível
em: < https://pt.wikipedia.org/wiki/Karl_Ernst_von_Baer > . Acesso em:
15-04-2025.
Daniel Blamires. Doutor Ciências
Ambientais. Docente UEG-Iporá.
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