quinta-feira, 24 de julho de 2025

De um gigante para jovens naturalistas: conselhos de Edward Wilson. [Todas as disciplinas].

 

 



Capa de Wilson (2015). Fonte: Amazon Kindle.

 

Prezados alunos, como prescrevi em vários textos anteriores e no prefácio de um livro (Blamires 2023), Edward Osborne Wilson (Figura 1) é minha maior referência profissional. E neste livro (Wilson 2015), uma de suas últimas publicações, este icônico naturalista estadunidense traz uma mensagem de esperança e persistência a estudantes de biologia.

 

 

 



Figura 1. O naturalista estadunidense Edward Osborne Wilson (1929-2021), em 2007. Fonte: Wikipédia (2023).


Neste livro, Wilson repete muitos aspectos de sua vida, previamente contados em outras obras (Wilson 1989, 1997). O autor também relata pormenorizadamente muitos episódios sobre seus estudos com formigas, como a descoberta de importantes espécimes fossilizados em âmbar, e o amplo trabalho sobre as espécies do gênero Pheidole. Mas ao longo do texto, Wilson sugere dicas importantes a jovens naturalistas, como o fato de ele “nunca ter mudado” com relação a suas convicções acadêmicas.

O autor consola estudantes de biologia sobre o uso da matemática. No Brasil, por exemplo, sofremos uma corrente “matematicofobia (Angelini 1999) ”. Neste sentido, Wilson sugere que a matemática não deve ser o principal foco das pesquisas científicas... Mas relatou ter voltado à sala-de-aula para aprender cálculo. Ele também repetiu algo que já li em outras fontes: que a matemática flui como linguagem.

Wilson complementa sua história de parceria com o matemático e ecólogo canadense Robert MacArthur (Wikipédia 2024), que resultou na Teoria de Biogeografia Insular (MacArthur & Wilson 1967). A história do experimento em Florida Keys – a aplicação da teoria de biogeografia insular em ilhotas de mangue nos Everglades da Flórida – também foi complementada, sendo esta a tese de doutorado de seu orientado, o matemático e ecólogo estadunidense Daniel Simberloff (Wilson 1997). Merecidamente, o autor parafraseia Sir Isaac Newton, concluindo que a teoria da biogeografia insular o colocou “sobre os ombros dos gigantes”.

Wilson também lembra, com firmeza, sua resposta sobre quando seu emprego foi ameaçado na Universidade Harvard após publicação de Sociobiology: the new synthesis (Wilson 1975). Sem fundamentos, críticos acusaram que a descrição sobre o comportamento social humano de origem biológica ascendia preconceitos, tipo o darwinismo social. Categoricamente, o autor respondeu não ter medo na época, porque elaborou o estudo com base no método científico.

Outro ponto interessante no livro é a reflexão sobre o papel do naturalista no futuro. Wilson prevê que, em um mundo cada vez mais antropogeneizado e sujeito a crescentes instabilidades ambientais - como a introdução de espécies exóticas - estudos biológicos serão cada vez mais necessários, fomentando assim oportunidades a jovens biólogos. Altruisticamente dedicado, mesmo aposentado Wilson aceitou orientar a doutoranda Corrie Saux, ao ser convencido sobre a grande dedicação a formigas desta sua última discípula.

O autor também fez um alerta sobre o uso indevido do método científico nas pesquisas, e o isolamento que um cientista tendencioso pode sofrer de seus pares. Wilson também sugeriu algo que sempre pratiquei ao longo de minha carreira, que não apenas dedicar-me rotineiramente à leitura, estudos e pesquisas: colocar a paixão à frente dos estudos. Segue sua reflexão abaixo, na íntegra:

 

“(...). É bem simples: ponha a paixão na frente dos estudos. Descubra de algum modo aquilo que você mais quer fazer na ciência, na tecnologia ou em alguma outra profissão relacionada à ciência. Obedeça a essa paixão enquanto ela durar. Alimente-a com o conhecimento de que a mente precisa para se desenvolver. Dê uma estudada em outros temas, tenha uma formação geral em ciência e seja esperto o suficiente para ir atrás de outro grande amor se ele aparecer. Mas não fique só pulando de um curso de ciência para outro, esperando que um dia o amor chegue. Talvez chegue, mas não se arrisque. Como em outras escolhas importantes na sua vida, há muita coisa a perder. A decisão e o trabalho duro baseados em uma paixão duradoura nunca vão decepcionar você.” Wilson (2015, p. 18).

 

Em tempo... Eu também “nunca mudei”, e me entreguei ao que faço hoje: as ciências ambientais, ornitologia e evolução orgânica. Minhas grandes paixões em um país rural, com tendências fundamentalistas, e que privilegia excessivamente as profissões mais conservadoras...

Com sua escrita sempre Humboldtiana (ver Wulf 2016), fortemente fundamentada no jargão científico e ao mesmo tempo sem perder a sensibilidade, Wilson deixa neste livro uma mensagem de estímulo, esperança e persistência a jovens cientistas naturalistas, a partir de sua icônica história pessoal.

Edward Osborne Wilson é, de fato, uma grande referência a todos nós naturalistas, neste tempo de grandes mudanças ambientais. Recomendo fortemente, prezados alunos, a leitura de “Cartas a um jovem cientista”: o texto animador de um dos maiores gigantes da biologia em todos os tempos.

 

Referências.

Angelini, R. Ecosssistemas e modelagem ecológica. In: Pompêo (Ed.). Perspectivas na limnologia do Brasil, p. 1-16, 1999.

Blamires, D. Ecologia no quadro: Temas ecológicos com figuras manuscritas. São José dos Pinhais: Brazilian Journals, 2023. DOI: 10.35587/brj.ed.0002193

MacArthur, R. H., Wilson, E. O. The theory of island biogeography. Princeton: Princeton University Press, 1967.

Wikipédia: a enciclopédia livre. Edward Osborne Wilson. 2023. Disponível em: < https://pt.wikipedia.org/wiki/Edward_Osborne_Wilson > . Acesso em: 24-07-2025.

Wikipédia: a enciclopédia livre. Robert MacArthur. 2024. Disponível em: < https://pt.wikipedia.org/wiki/Robert_MacArthur > . Acesso em: 24-07-2025.

Wilson, E. O. Sociobiology: the new synthesis. Belknap Press, 1975.

Wilson, E. O. Biofilia. Ciudad de México: Fondo de cultura económica S.A., 1989.

Wilson, E. O. Naturalista. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1997.

Wilson, E. O. Cartas a um jovem cientista. São Paulo: Editora Companhia das Letras, 2015.

Wulf, A. A Invenção da Natureza: a vida e as descobertas de Alexander Von Humboldt, 2ª Edição. São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2016.

 

Daniel Blamires. Doutor Ciências Ambientais. Docente UEG-Iporá.

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