Capa de Wilson (2015). Fonte: Amazon Kindle.
Prezados alunos, como prescrevi
em vários textos anteriores e no prefácio de um livro (Blamires 2023), Edward Osborne
Wilson (Figura 1) é minha maior referência profissional. E neste livro (Wilson
2015), uma de suas últimas publicações, este icônico naturalista estadunidense traz
uma mensagem de esperança e persistência a estudantes de biologia.
Figura 1. O naturalista estadunidense Edward Osborne Wilson (1929-2021), em 2007. Fonte: Wikipédia (2023).
Neste livro, Wilson repete muitos
aspectos de sua vida, previamente contados em outras obras (Wilson 1989, 1997).
O autor também relata pormenorizadamente muitos episódios sobre seus estudos
com formigas, como a descoberta de importantes espécimes fossilizados em âmbar,
e o amplo trabalho sobre as espécies do gênero Pheidole. Mas ao longo do texto, Wilson sugere dicas importantes a
jovens naturalistas, como o fato de ele “nunca ter mudado” com relação a suas convicções
acadêmicas.
O autor consola estudantes
de biologia sobre o uso da matemática. No Brasil, por exemplo, sofremos uma
corrente “matematicofobia (Angelini 1999) ”. Neste sentido, Wilson sugere que
a matemática não deve ser o principal foco das pesquisas científicas... Mas
relatou ter voltado à sala-de-aula para aprender cálculo. Ele também repetiu algo que já li em outras fontes: que a matemática flui como linguagem.
Wilson complementa sua
história de parceria com o matemático e ecólogo canadense Robert MacArthur
(Wikipédia 2024), que resultou na Teoria de Biogeografia Insular (MacArthur
& Wilson 1967). A história do experimento em Florida Keys – a aplicação da teoria de biogeografia insular em ilhotas de mangue nos Everglades da Flórida – também foi
complementada, sendo esta a tese de doutorado de seu orientado, o matemático e
ecólogo estadunidense Daniel Simberloff (Wilson 1997). Merecidamente, o autor
parafraseia Sir Isaac Newton,
concluindo que a teoria da biogeografia insular o colocou “sobre os ombros dos
gigantes”.
Wilson também lembra, com
firmeza, sua resposta sobre quando seu emprego foi ameaçado na
Universidade Harvard após publicação de Sociobiology:
the new synthesis (Wilson 1975). Sem fundamentos, críticos acusaram que a
descrição sobre o comportamento social humano de origem biológica ascendia
preconceitos, tipo o darwinismo social. Categoricamente, o autor respondeu não
ter medo na época, porque elaborou o estudo com base no método científico.
Outro ponto interessante no livro
é a reflexão sobre o papel do naturalista no futuro. Wilson prevê que, em um
mundo cada vez mais antropogeneizado e sujeito a crescentes instabilidades
ambientais - como a introdução de espécies exóticas - estudos biológicos serão
cada vez mais necessários, fomentando assim oportunidades a jovens biólogos.
Altruisticamente dedicado, mesmo aposentado Wilson aceitou orientar a
doutoranda Corrie Saux, ao ser convencido sobre a grande dedicação a formigas desta
sua última discípula.
O autor também fez um alerta
sobre o uso indevido do método científico nas pesquisas, e o isolamento que um cientista
tendencioso pode sofrer de seus pares. Wilson também sugeriu algo que sempre pratiquei
ao longo de minha carreira, que não apenas dedicar-me rotineiramente à leitura,
estudos e pesquisas: colocar a paixão à frente dos estudos. Segue sua reflexão
abaixo, na íntegra:
“(...). É bem simples: ponha a paixão na frente dos estudos. Descubra
de algum modo aquilo que você mais quer fazer na ciência, na tecnologia ou em
alguma outra profissão relacionada à ciência. Obedeça a essa paixão enquanto
ela durar. Alimente-a com o conhecimento de que a mente precisa para se
desenvolver. Dê uma estudada em outros temas, tenha uma formação geral em
ciência e seja esperto o suficiente para ir atrás de outro grande amor se ele
aparecer. Mas não fique só pulando de um curso de ciência para outro, esperando
que um dia o amor chegue. Talvez chegue, mas não se arrisque. Como em outras
escolhas importantes na sua vida, há muita coisa a perder. A decisão e o
trabalho duro baseados em uma paixão duradoura nunca vão decepcionar você.”
Wilson (2015, p. 18).
Em tempo... Eu também “nunca
mudei”, e me entreguei ao que faço hoje: as ciências ambientais, ornitologia
e evolução orgânica. Minhas grandes paixões em um país rural, com tendências fundamentalistas, e que privilegia excessivamente
as profissões mais conservadoras...
Com sua escrita sempre
Humboldtiana (ver Wulf 2016), fortemente fundamentada no jargão científico e ao
mesmo tempo sem perder a sensibilidade, Wilson deixa neste livro uma mensagem
de estímulo, esperança e persistência a jovens cientistas naturalistas, a
partir de sua icônica história pessoal.
Edward Osborne Wilson é, de fato,
uma grande referência a todos nós naturalistas, neste tempo de grandes mudanças
ambientais. Recomendo fortemente, prezados alunos, a leitura de “Cartas a um
jovem cientista”: o texto animador de um dos maiores gigantes da biologia em
todos os tempos.
Referências.
Angelini, R. Ecosssistemas e
modelagem ecológica. In: Pompêo
(Ed.). Perspectivas na limnologia do
Brasil, p. 1-16, 1999.
Blamires, D. Ecologia no quadro: Temas ecológicos com figuras manuscritas. São José dos Pinhais: Brazilian
Journals, 2023. DOI: 10.35587/brj.ed.0002193
MacArthur, R. H., Wilson, E. O. The theory of island biogeography.
Princeton: Princeton University Press, 1967.
Wikipédia: a enciclopédia livre. Edward Osborne Wilson. 2023. Disponível
em: < https://pt.wikipedia.org/wiki/Edward_Osborne_Wilson > . Acesso em:
24-07-2025.
Wikipédia: a enciclopédia livre. Robert MacArthur. 2024. Disponível em:
< https://pt.wikipedia.org/wiki/Robert_MacArthur > . Acesso em: 24-07-2025.
Wilson, E. O. Sociobiology: the new synthesis. Belknap Press, 1975.
Wilson, E. O. Biofilia. Ciudad de México: Fondo de
cultura económica S.A., 1989.
Wilson, E. O. Naturalista. Rio de Janeiro: Editora
Nova Fronteira, 1997.
Wilson, E. O. Cartas a um jovem cientista. São Paulo:
Editora Companhia das Letras, 2015.
Wulf, A. A Invenção da Natureza: a vida e as descobertas de Alexander Von
Humboldt, 2ª Edição. São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2016.
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