quinta-feira, 23 de abril de 2026

Fisher, Zahavi e o topete do soldadinho: hipóteses para ornamentos elaborados. [Ecologia].

 

 



Soldadinho Antilophia galeata (Lichtenstein, 1823). Fonte: Sanches (2010).


Endêmico do Cerrado (Braz & Hass 2014), o soldadinho Antilophia galeata é uma espécie  registrada em florestas úmidas (Wikiaves 2025). A fêmea possui coloração esverdeada pouco atraente, enquanto o macho tem plumagem predominantemente preta, com reluzente topete vermelho (Sigrist 2014).

Mas afinal, como pode surgir um ornamento elaborado tão exuberante em ambientes sombrios e repletos de predadores, tipos as florestas úmidas do Brasil Central? Aqui a evolução opera não necessariamente por seleção natural, mas no âmbito da seleção sexual, ou de caracteres relativos ao aumento no sucesso de acasalamento (Krebs & Davies 1996). E neste sentido, duas hipóteses tentam explicar como provavelmente surgem ornamentos elaborados, tipo o topete do soldadinho macho, aqui de nosso Cerrado (ver imagem). Claro que muitos estudos certamente são necessários para justificar o dimorfismo sexual em Antilophia galeata, mas seguirei neste exemplo apenas didaticamente, baseado em Krebs & Davies (1996).

 

 Hipótese de Fisher (Covariância) e o soldadinho:

a). Supostamente, o topete dos machos A. galeata são mais detectáveis, ou suas fêmeas possuem uma pré-disposição sensorial (de fundo genético) para preferirem as mesmas;

b). Se houver alguma vantagem genética para o topete, ela será transmitida à progênie da fêmea;

c). Por outro lado, o gene que leva as fêmeas a preferirem topetes maiores e mais vermelhos será favorecido, já que seus filhos poderão ser mais viáveis, e mais facilmente detectáveis por parceiras em potencial;

d). Assim, uma vez que a preferência das fêmeas por topetes maiores e mais rubros aumenta, as gerações seguintes de machos passam a ter maiores vantagens genéticas, bem como topetes  maiores e mais exuberantes.

 

 Hipótese de Zahavi (Desvantagem) e o soldadinho.

a). Topetes grandes e vermelhos nos machos podem significar mais empecilho ao voo e exposição a predadores, por exemplo;

b). Contudo, certamente os machos com topetes grandes e rubros possuem vigor suficiente para sobreviverem com o ornamento, sendo assim mais fortes e astutos em comparação aos machos sem topete;

c). Então, as fêmeas preferem parceiros com topetes exuberantes, os quais provavelmente tem mais chance de sobrevivência e reprodução, em relação aos machos sem topete.

 

Krebs & Davies (1996) também afirmam que as duas hipóteses não são necessariamente incompatíveis (uma não anula a outra). Seja como for, assim segue a evolução do dimorfismo entre machos e fêmeas: à mercê da seleção sexual, e menos das condições ambientais circundantes.

 

Referências

Braz, V. S., Hass, A. Aves endêmicas do Cerrado no estado de Goiás. Fronteiras: Journal of Social, Technological and Environmental Science, v. 3, n. 2, p. 45-54, 2014.

Krebs, J. R., Davies, N. B. Introdução à ecologia comportamental. São Paulo: Atheneu Editora, 1996.

Sanches, D. 2010. Soldadinho macho Antilophia galeata. Disponível em: < https://pt.wikipedia.org/wiki/Soldadinho#/media/Ficheiro:Antilophia_galeata_-Reserva_Ambiental,_Piraju,_Sao_Paulo,_Brasil_-male-8.jpg > . Acesso em: 23-04-2026.

Sigrist, T. Guia de Campo Avis Brasilis: avifauna brasileira. São Paulo: Editora AvisBrasilis, 2014.

Wikiaves. Soldadinho. 2025. Disponível em: < https://www.wikiaves.com.br/wiki/soldadinho > . Acesso em: 23-04-2026.

 

Daniel Blamires. Doutor Ciências Ambientais. Docente UEG-Iporá.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Juntos pela biosfera. [Biologia da Conservação].

      Provavelmente Campo Cerrado. Senador Canedo-GO, março 1995. Foto do autor.   “I can hear the whole world singing together ...