quarta-feira, 26 de fevereiro de 2025

Triste fim dos desgraçados: um conto antropológico. [DCDH].

 

 



Mão do Xamã impressa na entrada da caverna. Fonte: autor, 26-02-2025.

 

Por repetidas vezes nestes últimos dois anos, citei um exemplo idealizado em sala de aula: uma ficção para tentar explicar, com base na literatura, como funciona a capacidade do Homo sapiens sapiens de formar redes sociais, destinadas à expansão territorial e pilhagem. O lado sombrio que proporcionou a ocupação de todo o planeta por nossa única raça. Trata-se de uma obra de ficção, baseada nas literaturas antropológicas pormenorizadamente detalhadas nas referências, que não serão citadas no texto apenas para garantir uma narrativa fluente. Segue adiante!

 

O líder da tribo conduz o povo à gruta do Xamã, o intercessor humano para integração com os espíritos e seres da natureza. Naquele momento, próximo à entrada da gruta, o Xamã gravou a impressão da sua mão com o sangue sagrado do mamute imolado. Depois, alegando estar possuído por almas dos antepassados, ele untou o corpo do cacique com o sangue santificado, extraído diretamente da carcaça de um grande animal lanoso. O chefe daquela tribo recebeu o ritual sagrado com reverência, e depois subiu a uma rocha próxima à gruta, e conclamou:

- Irmãos da tribo, contemplemos brevemente o Sol... A morada de nossos amados Deuses!

O povo contemplou brevemente o astro, naquela manhã fria mas ensolarada, em algum lugar da eurásia pleistocênica há talvez 40 mil anos passados. Após tempo suficiente para que todos fossem razoavelmente ofuscados pela luz solar, o chefe prosseguiu com voz eloquente:

- Somos filhos dos Deuses que moram no Sol, a morada que eles construíram para viver, queridos irmãos! Vivemos nestas pradarias com menos água, caça e frutos, a qual repartimos com as outras tribos adjacentes, também filhas das santas Almas do Sol, e que também veem seus filhos morrerem de fome. Agora, estimados irmãos, olhemos para o lado onde corre o rio...

Às margens de um grande manancial, vivia uma tribo isolada de discretos e robustos indivíduos, que milênios mais tarde seriam descritos como pertencentes à espécie Homo neanderthalensis. Apesar de vigorosos, eles não desenvolveram comunicação complexa e viviam em pequenos bandos isolados, em relação aos seus competidores vindos da África. Então o chefe, exalando o forte cheiro de sangue animal em seu corpo, prosseguiu:

- Ali vivem os filhos da escuridão! São desgraçados, porque sequer são “cria” dos deuses iluminados que moram no Sol. Eles são corruptos, violentam suas mulheres e crianças, e quando conversam emitem sons similares aos dos animais impuros. Então... Porque os desgraçados, tão poucos, vivem naquele lado mais próspero da paisagem? Porque seres malignos e desprezados pelos deuses da luz devem possuir mais que nós, que somos penitentes e iluminados pela graça?

A seguir, o chefe apontou seu cajado para o lado das outras tribos amigas, e prosseguiu:

- Juntemos às outras tribos irmãs, tomemos a terra que merecemos, e purifiquemos nossa paisagem dos desgraçados!

Ouviu-se um estrondoso brado a seguir, acompanhado pela catarse coletiva de todos os súditos daquele chefe. Os dias seguintes foram de conchaves com as “tribos amigas”, que juntas planejaram a pilhagem à margem do rio. Os três chefes das tribos “sapiens (ou ferox)” planejaram meticulosamente a grande emboscada, que deveria acontecer em breve.

A invasão ocorreu em uma madrugada fria no final do outono... Homens, crianças e mulheres idosas da tribo isolada foram brutalmente assassinados. Seus corpos serviram de alimento para as três tribos sapiens durante o longo inverno adiante. As jovens mulheres neandertais, contudo, foram obrigadas a viver como fêmeas reprodutoras naquelas tribos de origem africana...

E nos milênios seguintes, o triste fim dos desgraçados – talvez o princípio do “nós e eles” – se repetiu muitas vezes ao longo da humanidade, ganhando muitos termos distintos: colonialismo, feudalismo, fascismo, nazismo, macarthismo... E tantos outros “ismos” ou expressões de igual contexto. Inquisições inclusive!


Assim caminhou a humanidade... Mas nos últimos milênios, diversos pensadores foram aos poucos moldando uma frágil ficção, que não perfaz a genética caçadora-coletora do Homo sapiens sapiens, e se alicerça na liberdade de expressão e respeito à diversidade: seu nome é democracia. Talvez o único modo de conter o real caçador-coletor-inquisidor que vive dentro de todos nós.

 

Referências.

Diamond, J. Colapso: como as sociedades escolhem o fracasso ou o sucesso. Rio de Janeiro: Editora Record, 2007.

Harari, Y. N. Sapiens: uma breve história da humanidade. Porto Alegre: Editora L&PM, 2017.

Kolbert, E. A sexta extinção: uma história não natural. Rio de Janeiro: Editora Intrínseca, 2014.

Lopes, R. J. Homo ferox: as origens da violência humana e o que fazer para derrota-la. Rio de Janeiro: HarperCollins, 2021.

Pough, F. H. A vida dos vertebrados. 2ª edição. São Paulo: Atheneu, 1999.

Wilson, E. O. Da Natureza Humana. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1981.


Daniel Blamires. Doutor Ciências Ambientais. Docente UEG-Iporá.

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